[ A Face Obscura do Homem ]

A Face Obscura do Homem

Por Rilvan Batista de Santana

Diz adágio popular que “quem conta um conto aumenta um ponto” e é pura verdade, a realidade é crua, inóspita de emoção, desumana, às vezes, transcende o limite da maldade humana. O conto e o romance bem contados aproximam a história trágica de uma comédia, de uma coisa prazerosa, além de possibilitar ao autor o uso de artifícios e técnicas literárias para esconder a verdadeira identidade dos personagens e o uso de eufemismos para as verdades mais duras sem constranger o escritor, ou seja, a ficção boa ou ruim não tem limite na mente do autor, tudo se pode fazer para prender a atenção do leitor.

A história “A face obscura do homem” é uma narrativa que ocorreu nos finais dos anos 50, do século passado, na cidade de Itabuna, no Sul da Bahia, com uma família que hoje não se tem notícia do seu paradeiro, pelo tempo decorrido, os verdadeiros personagens devem estar bem velhinhos ou mortos, talvez, os seus descendentes ainda estejam por aí, mas sem o estigma do passado.

Gostaria de construir um texto épico de heróis ou vilões, com prenomes, nomes e sobrenomes, personagens conhecidos como “Os Sertões” de Euclides da Cunha, onde ele cita nominalmente todos os personagens de sua história, com os seus erros, os seus acertos, os seus equívocos, as suas fraquezas e as suas verdades. Euclides em “Os Sertões” disseca os fatos com frieza e lógica de um engenheiro historiador ou um historiador engenheiro, diferente do poeta Homero de “Ilíada” e de “Odisseia”.

Os fatos narrados a seguir encontravam-se escondidos no interior da minha mente sob o manto da censura, o tempo e a falta de memória do povo moveram-me no sentido de compartilhar o que eu soube através dos mais velhos, pessoas idôneas e isentas que conheceram os fatos e os principais personagens in loco. Se alguém ainda não se interessou tornar público essa história, é que naquela época houve uma operação abafa do assassinato de Dr. José Maria, um dos principais personagens, a viúva e filhos foram para sempre morar em Salvador e o suposto criminoso tomou chá de sumiço.

Não me interessou o crime em si, pois todo crime é de natureza irracional, nada justifica tirar a vida de alguém – só em legítima defesa, mesmo se esgotar todas as possibilidades de não fazê-lo -, é o lado mau do homem, mas interessou-me a lógica do crime e a motivação sui generis dos seus autores. Supõe-se que o assassinato de Dr. José Maria decorreu de uma mente doentia e manipuladora que em nome da fé e da paixão secreta pela sua mulher o matou sem deixar rastro da autoria.

O livro “A face obscura do homem” é a tese que contraria o juízo de Rousseau em que “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, o homem nasce com a natureza maniqueísta do bem e do mal, o sujeito desenvolve mais o bem ou o mal conforme as circunstâncias que a vida lhe oferece. Se alguém nasce numa família equilibrada, de pessoas educadas, de pessoas cordatas e ordeiras, dificilmente essa pessoa será má, salvo em casos patológicos, é muito comum novelas e filmes representarem bem os psicopatas da sociedade e os males que podem causar.

Para o criminoso, Dr. José Maria representava o mal, a encarnação do diabo travestido de bom, para os seus algozes, não se tratava de um homem santo e pecador, isto é, com qualidades e defeitos, porém, um homem-mau com a capa de homem-bom, arrebanhando não prosélitos, mas admiradores incondicionais que o elegeram como modelo de comportamento e ideias religiosas diferentes.

Para o narrador de “A face obscura do homem”, Dr. José Maria não era a encarnação do bem nem do mal, mas um homem com virtudes e defeitos como todos os homens e sabia como ninguém explorar mais as virtudes do que os defeitos, embora não fosse um beato, um homem de igreja, praticava como ninguém os ensinamentos que Jesus Cristo deixou: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”, mas de acordo com suas ideias de homem e de Deus.
Enfim, fecho esta apresentação desculpando-me a priori com o leitor que se me faltou recurso literário para prendê-lo até o fim da história, eu concito-lhe que vá até a última página, porque a verdade é mais importante do que os sofismas literários que alguns autores empregam para tornar o seu texto atrativo. Se eu consegui contar todos os fatos com isenção, fiel aos acontecimentos ocorridos, mesmo sem a beleza dos textos de Machado, de Graciliano, de Rego, de Lobato, de Alencar, mas com a lógica de Euclides da Cunha, satisfar-me-ei pelo dever cumprido.

Veja outras contribuições de Rilvan Batista de Santana:

» Suor, cacau e Sangue
» Rosas com Espinhos
» Retalhos da Vida
» O Menino dos Olhos Verdes
» Dom Patinhas