[ A licenciosa Shanghai Lilly ]

A licenciosa Shanghai Lilly

Por Por Claudio Willer

Claudio Willer

O Bildungsroman, romance de formação, já existia antes, mas foi consagrado como modalidade de narrativa com Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister de Goethe, publicado em 1795. Gênero ou modalidade falsamente biográfica, mostra o desenvolvimento de um indivíduo. Na origem, é edificante; e Wilhelm Meister suscitou críticas, entre outros, do poeta-filósofo romântico Novalis, que o classificou como “livro pretensioso e piedoso – não-poético no mais alto grau” por reintegrar o protagonista à sociedade burguesa. Contudo, logo se fundiria com outra modalidade também falsamente biográfica e bem mais antiga, a narrativa picaresca. Paródias satíricas tomariam a frente em um gênero que se expandiu, a ponto de caberem nessa classificação o relato da ruptura que é Retrato do artista quando jovem de James Joyce, algo tão corrosivo como Apanhador em campo de centeio de J. D. Salinger, e falsas biografias do fracasso e não da ascensão, como Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, entre tantas outras grandes obras.

Um novo exemplo de ampliação e atualização do gênero é dado por Shanghai Lilly, publicado pela Chiado, editora portuguesa que também atua no Brasil, neste 2017. Suposta biografia de “Vivian Salomon”, é atribuída a “Antonio Paixão”: um heterônimo (e não apenas pseudônimo, por apresentar-se com identidade própria) de Durval de Noronha Goyos Júnior, advogado e atual presidente da União Brasileira de Escritores.

É um bom registro das transformações do gênero. No caso, a passagem da narrativa edificante ao deboche, à sátira desenfreada. Apresenta afinidade com outra modalidade que prosperou no Brasil, o relato memorialístico dos filhos ou descendentes de imigrantes; especificamente, dos que vieram do Líbano, com uma expressão forte através de Milton Hatoum, Raduan Nassar e Betty Milan. Mas “Antonio Paixão” / Durval Noronha procede à reversão dessa corrente – dupla reversão, diria, do Bildunsroman e da memorialística dos descendentes de imigrantes. Sua Vivian Salomon / Shanghai Lilly é uma perversa, cuja ascensão profissional se confunde com a desenvoltura sexual. Mais que ascensão, ela visa a reintegração, a conquista do que lhe é devido, da parte que lhe caberia do que haviam acumulado o pai e irmãos, milionários. Ambivalente, alterna encontros e relações com um propósito bem definido, bem instrumental, e a pura realização do desejo, em um modo que confunde fetichismo e bissexualidade.

De nada adianta o enredo substancioso sem um estilo compatível, que provoque a empatia do leitor. É onde Noronha acerta a mão, de um modo que surpreende a quem o conhecia através da produção de cunho mais ensaístico. O relato na primeira pessoa, coloquial sem ser banal, flui da primeira à última página, sempre em tom irônico. Transmite a impressão de que a cínica protagonista, de fato nos conta sua agitada vida. Língua falada, mas ajustada ao idioma literário. Não soa falso nem por um lado, do acabamento literário, nem pelo outro, do coloquial.

Fechar narrativas, ser capaz de encerrá-las de modo convincente, é um desafio. O final de Shanghai Lilly, circular, metalingüístico, relacionando-se ao início, impressiona. Sem perder a coloquialidade, transmite informação sobre a China contemporânea e histórica, que Noronha conhece bem, através das supostas pesquisas de “Vivian”. Não poupa o estado atual de coisas no Brasil e outras praças; mostra bastidores dos mercados financeiros, da especulação de alto coturno. É cosmopolita ao fazer a protagonista circular pelo mundo, por redutos da alta burguesia, restaurantes e hotéis de luxo, sem soar como guia turístico. Mas expõe de modo vívido o novo-riquismo ao modo brasileiro. Especialmente, aquele dos descendentes de imigrantes que renegaram origens ao assimilarem o pior da sociedade à qual se integravam; por isso, nada tendo a oferecer a não ser uma fátua ostentação. À primeira leitura, faz crer que Noronha, mesmo com esse sobrenome, também proviesse de emigrantes do Oriente Médio.

Ambivalência pode ser um componente do valor literário. Vivian Salomon / Shangai Lilly, a heroina perversa, oportunista por uma causa justa, tem essa qualidade. Principalmente, para cinéfilos. O nome é inspirado na personagem principal de um filme extraordinário, Shangai Express / O expresso de Xangai de Josef von Sternberg, de 1932, protagonizado por Marlene Dietrich. Mostra uma China de estúdio, irreal, com um ator sueco, Warner Oland, fazendo um vilão chinês, e figurinos, criados para Marlene, que se tornaram peças de uma estética surrealista. Assim como o anterior O anjo azul, também da dupla Sternberg / Dietrich, celebra a sedução triunfante, a realização do desejo através da vitória de Eros sobre o moralismo rasteiro. Burgueses tacanhos acabam por curvar-se diante da mulher que os salvara do bandido chinês. Termina com a sugestão do beijo mais longo da história do cinema, em um drible nos códigos de uma censura já forte naquela época.

Confrontos: a China de estúdio do filme e a China moderna  e bem documentada desta narrativa; a heróica e apaixonada mulher de má reputação e a cínica e perversa protagonista. Obras que dialogam, na medida de suas diferenças. Literatura talvez seja feita de contrastes.

 

 

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