[ A desigualdade e o fundamentalismo econômico ]

04.05.2018

Adhemar Bahadian

Um dia , seremos muito gratos aos economistas que lançaram o Brasil no labirinto em que nos encontramos . Pouco a pouco, começa a crescer, no sentimento e na inteligência nacionais, a convicção de que nos  encaminhamos celeremente para a mais absurda e desumana gerência econômica de nosso país ,desde a confederação dos Tamoios. Economistas de corte neoliberal vaticinam que a política de teto de gastos tornará o Brasil inadministrável já em 2019. A possibilidade de investimentos públicos será praticamente zero.Os custos de manutenção da máquina governamental implicará em maiores cortes de programas sociais. De concreto, temos  um desemprego endêmico ,uma redução  óbvia de nossas capacidade industrial ,endividamento da classe média, submissão  à política econômica  externa dos Estados Unidos. A nota do Itamaraty e do Minc sequer critica a violência americana.Sequer menciona recurso à OMC. Engoliremos quotas ou sobretaxas.

Bom mesmo, neste cenário, é participar do cartel de bancos no Brasil que através  do spread  nos juros dos empréstimos , nos cartões de crédito ,promove  a colonização  do povo brasileiro sugando renda dos setores mais baixos da economia para somá-la `a dos países de suas matrizes. O JORNAL DO BRASIL publica reportagens esclarecedoras  sobre o assunto. De qualquer forma, podemos  nos congratular : somos hoje membros plenos do lupanar  da globalização  e merecemos encômios  generalizados  da OCDE, do FMI,  e dos parteiros do redivivo consenso de Washington .

A continuar neste trote, podemos contar com uma macro turbulência  política no próximo ano e esbarrar em salvadores da pátria de coloração  variada no espectro das doutrinas políticas.  Já há sinais no horizonte da campanha eleitoral, que mal ensaia seus primeiros passos. Vira e mexe , aparece  um cidadão ,geralmente com um canudo recebido em Chicago, a recomendar mirabolantes saltos de aqualouco ,como por exemplo, a venda imediata e completa de nossas empresas estatais, inclusive  a Petrobras, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica  para equilibrar nossas contas públicas. De lambujem, oferece aos fregueses  uma redução unilateral de nossas tarifas em bens, abrindo  nossos portos à invasão de bricabraques generalizados de ioio a Ferraris . Tudo em nome da produtividade. A imaginada redução das tarifas promoveria um acréscimo de desemprego de pelo menos quatrocentos mil brasileiros. Coisa pouca, diante dos treze milhões  de que já dispomos. Arrebentaria com nossa indústria de transformação . Coisa de somenos ,diante de nossa vocação agrícola .Complementaríamos a fuzarca, com a abertura do setor de serviços e deixaríamos entrar no mercado de trabalho brasileiro, médicos, advogados, engenheiros e equilibristas formados em melhores  escolas que nossas faculdades ,dominadas pela greve e pela penúria.  Afinal, brasileiro é bom mesmo para ser guia de turismo ou garçom de boteco ,está  aí a nossa cordialidade reconhecida.

Este pensamento neoliberal  trás em si o germe da dominação  autoritária e financeira. Não se consegue manter uma população  de 210 milhões  de pessoas engabeladas com a cantilena de que o futuro será melhor, se a lembrança do passado recente é infinitamente eloquente.  A globalização  e o neoliberalismo estão completando quase  meio século de existência . Há  vantagens sobretudo para países altamente desenvolvidos. Mas não há como negar suas imensas fraturas nos tecidos sociais não só de países em desenvolvimento, como o Brasil, mas também de países altamente desenvolvidos como os Estados Unidos da América. O Trump não nos deixa mentir.

O mais visível retrato deste carcomido arranjo econômico é a onipresente desigualdade social, que se tornou patética no Brasil.O povo  se tornou mais pobre. Os serviços  sociais  pioraram e vão piorar em 2019. Vai ficar difícil  manter crianças nas escolas. Umas sairão para aumentar a renda familiar. Outras, o crime organizado. Toda esta indecência, decorre em grande parte desta alquimia  macroeconômica  que se pretende moderna, mas só faz aquecer os caldeirões  de bruxas medievais a nos ameaçar  que “não há alternativa “ para o desemprego e a austeridade  fiscal. Há sim e se chama desenvolvimento econômico que ocupa mão de obra ,remunera professores e faz do Estado um parceiro . Não um sentinela do mercado financeiro. Em outubro, nós todos temos que chamar de cicio da serpente o que soa como o canto das sereias.