[ A Muralha da China e o Muro do Medo(2): tenebrosas transações.     ]

04.04.2018

 

Por Adhemar Bahadian

Se você dormiu tranquilo com a notícia de que o Brasil foi retirado da sobretaxa de aço, acorde.  Trump ,consumado corretor de imóveis , quer fazer do Brasil um condomínio  americano.

O decreto que temporariamente suspende as sobretaxas do aço e do alumínio é  peça exemplar do novo realismo comercial – militar dos Estados Unidos. Cada país  mencionado no decreto merece  pequena nota a justificar a isenção temporária. O Brasil,  em tradução livre, assim é identificado:

“Os Estados Unidos da América mantem importante relacionamento com o Brasil ,incluindo nosso compromisso compartilhado de apoiar um ao outro ao abordar  questões de segurança nacional na America Latina; temos compromisso compartilhado de abordar a capacidade global excessiva na produção  do alumínio ;o investimento reciproco em nossas respectivas bases industriais e a forte integração  econômica  entre nossos países”

O texto não privilegia a clareza – o que certamente é intencional -. Uma perfunctória análise evidencia a distorção   da gramática ,da sintaxe e da literatura das negociações  econômicas internacionais  . As referências  a aspectos de segurança são particularmente teratológicas . Os compromissos  de segurança  são regulados por instrumentos internacionais ou regionais, a começar pela Carta das Nações  Unidas.   Em nenhum deles há obrigação  de “apoiar um ao outro ao abordar questões  de segurança nacional na América Latina.” Há exemplos históricos de dissonância  e cito apenas um: a Conferencia de Punta del Leste, nos anos 60, onde   a voz jurídica de San Tiago Dantas reafirmou o principio maior do relacionamento entre Estados: a soberania. A referência à “integração econômica  entre nossos países” é outra manifestação  descabida. Os Estados Unidos sabem  que se recusaram a negociar um acordo de livre comercio com o Mercosul. Se estão insinuando um acordo bilateral ,`a la Trump , com o Brasil ou com o Mercosul , espero  que o governo brasileiro o rejeite.

O decreto de Trump torna-se mais chocante quando se refere à Argentina. O texto é  idêntico ao do Brasil ,com o acréscimo  de uma frase, (mas, que frase). “…. apoiar um ao outro nas questões  relacionadas  com a segurança  nacional na America Latina, particularmente sobre a ameaça colocada pela instabilidade  na Venezuela…

Vejam o pandemônio  em que a politica de Trump joga seus aliados. Toda a argumentação  inicial de Trump  era  de que a  segurança  dos Estados Unidos estava ameaçada  pelas  importações da China . Ainda que aceitássemos  este argumento – na realidade, a siderurgia americana está obsoleta- nada, rigorosamente  nada, poderia fazer pensar que os americanos iriam propor  uma identidade de propósitos com a politica estratégico-militar do Pentágono .

Os interesses de uma superpotência nuclear  podem divergir ou distanciar-se da estratégia de países, digamos, com menor “destino manifesto’.

Por mais que o Brasil discorde da politica da Venezuela, reagimos  a qualquer ação militar ou paramilitar contra um país da região. Trata-se não de uma visão, mas de um princípio pétreo da politica externa brasileira. Eludir este mandato abrirá uma caixa de pandora ,cujos desdobramentos são fáceis  de perceber. A America Latina tem petróleo, mas não é o Oriente Médio.

Os Estados Unidos suspenderam as taxações  a países selecionados ,por prazo determinado. Até maio, se não houver acordo bilateral , as sobretaxas e outras penalidades adicionais  podem ser impostas ao Brasil.

Ao aceitarmos negociar com os Estados Unidos, fora do guarda-chuva das regras da OMC , estamos expostos aos meteoritos despencados do decreto de Trump. Não será uma negociação e sim um bullying  .

Os que me acompanham  nestes artigos no JB sabem que  classifiquei de insanas as propostas de negociar diretamente com os Estados Unidos , nesta hora em que Trump  reescreve  as regras do comércio internacional, impondo condicionalidades jamais ousadas depois da criação da OMC.

Vincular propostas de redução de tarifas  a interesses de segurança  dos Estados Unidos, implode todo o sistema de pesos e contrapesos negociado desde o fim da segunda guerra mundial. Será que seremos obrigados a voluntariamente restringir nossas exportações para a China? Será que teremos que participar de uma invasão militar da Venezuela ? São questões legítimas que devemos nos perguntar a nós  mesmos.

Os colonizados na alma – e os temos muitos, de todos os matizes e pedigrees –  talvez acreditem ser melhor satelitizar o Brasil . Não seríamos um novo Porto Rico, mas uma boca riquíssima .

Termino com a estrofe do poeta maior de minha geração: “Dormia A nossa pátria mãe  tão distraída sem perceber que era subtraída  em tenebrosas transações ‘’  . Obrigado, Chico. (continuarei). bahadian@JB.com.br
Fonte: JB