[ Celso Furtado – PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – VII ]

13.11.2017

Celso Monteiro Furtado nasceu em 26/7/1920, em Pombal, Paraíba. Jornalista, advogado e economista dos mais conceituados em todo o mundo. Realizou os estudos primários em sua terra natal e os secundários no tradicional Ginásio Pernambucano do Recife. Em 1939 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vai estudar na Faculdade Nacional de Direito e começa a trabalhar como jornalista na Revista da Semana. Em 1943, foi aprovado no concurso do DASP para assistente administrativo. No ano seguinte concluiu o curso de Direito e em 1945 foi convocado pelo Exército para lutar na II Guerra Mundial. Com a patente de aspirante de oficial, obtida no CPOR, segue para a Itália, integrando a FEB-Força Expedicionária Brasileira. Nesta etapa, publicou seu primeiro livro por conta própria: De Nápoles a Paris: contos da vida expedicionária, sobre a presença brasileira na Itália.

Servindo na Toscana, como oficial de ligação junto ao V Exército norte-americano, sofreu um acidente na ofensiva final dos aliados e foi internado num hospital norte-americano. Em 1946 ganhou o prêmio Franklin D. Roosevelt, promovido pelo Instituto Brasil-Estados Unidos, com o ensaio “Trajetória da democracia na América”. No mesmo ano ingressou no curso de doutorado em economia da Universidade de Paris-Sorbonne, concluído em 1948 com a tese “L’économie coloniale brésilienne”, dirigida por Maurica Byé, obtendo a menção “très bien”. Enquanto isso, exerce a função de correspondente da “Revista da Semana”, “Panfleto” e “Observador Econômico e Financeiro”. Em Paris conheceu sua primeira esposa, a química argentina Lucia Tosi. De volta ao Brasil, retomou o trabalho no DASP e junta-se ao quadro de economistas da Fundação Getúlio Vargas, passando a trabalhar na revista “Conjuntura Econômica”.

Em 1949, mudou-se para Santiago do Chile para integrar a recém-criada CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina, órgão da ONU. No ano seguinte, quando o economista argentino Raúl Presbisch assume a secretaria-executiva da CEPAL, foi nomeado Diretor da Divisão de Desenvolvimento, e passou a cumprir missões até 1957 nos países: Argentina, México, Venezuela, Equador, Peru e Costa Rica, enquanto visita universidades norte-americanas, onde passa a debater sobre os aspectos teóricos do desenvolvimento. Seu primeiro ensaio de análise econômica, Características gerais da economia brasileira, foi publicado na Revista Brasileira de Economia, da FGV, em 1950. Dois anos depois, publicou seu primeiro artigo de circulação internacional, Formação de capital e desenvolvimento econômico, traduzido para o “International Economic Papers”, da Associação Internacional de Economia.

Em 1953, preside o Grupo Misto CEPAL-BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico), enfatizando as técnicas de planejamento, que elabora um estudo sobre a economia brasileira. Tal estudo, editado em 1955, será a base do Plano de Metas do governo de Juscelino Kubitschek. No ano anterior, junto com um grupo de amigos, criou o Clube de Economistas, que lança a “Revista Econômica Brasileira” e publica A economia brasileira, seu primeiro livro de economia sobre a teoria do desenvolvimento e subdesenvolvimento. Em 1956, passou a morar na Cidade do México, em missão da CEPAL, e publicou seu segundo livro Uma economia dependente. No ano seguinte mudou-se para a Inglaterra, onde passa o ano letivo de 1957-58 no King’s College da Universidade de Cambridge, a convite do professor Nicholas Kaldor. Aí escreveu seu livro mais conhecido, Formação econômica do Brasil, que lhe dará projeção internacional.

De volta ao Brasil, desligou-se da CEPAL e assumiu uma diretoria do BNDE. Foi nomeado, pelo presidente Kubitschek, interventor no Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste e elaborou o estudo “Uma política de desenvolvimento para o Nordeste”, dando origem, em 1959, a SUDENE-Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, com sede no Recife. Na condição de superintendente, encontrou-se com o presidente Kennedy, em 1961, cujo governo decide apoiar um programa de cooperação com a SUDENE e, semanas depois, com o ministro Che Guevara, chefe da delegação cubana à conferência de Punta del Este, para discutir o programa da Aliança para o Progresso. Em 1962 foi nomeado como o primeiro titular do Ministério do Planejamento, quando elabora o Plano Trienal apresentado ao país pelo presidente João Goulart. No ano seguinte deixa o Ministério do Planejamento e retorna à SUDENE, quando concebe e implanta a política de incentivos fiscais para os investimentos na região.

Logo após o golpe militar de abri de 1964, teve seus direitos políticos cassados por dez anos, dando início ao exílio e um périplo por diversos países. Ainda em abril, aceitou convite para dar seminários em Santiago do Chile. Em seguida foi morar em New Haven (USA), onde foi pesquisador graduado do Instituto de Estudos do Desenvolvimento da Universidade de Yale. Por essa época, publicou o livro Dialética do desenvolvimento e fez diversas conferências em universidades norte-americanas, além de vários congressos sobre a problemática do Terceiro Mundo. Em 1965, mudou-se para a França, a convite da Faculdade de Direito e Ciências Econômicas da Universidade de Paris, e assume a cátedra de professor de Desenvolvimento Econômico. É o primeiro estrangeiro nomeado para uma universidade francesa, por decreto presidencial do general de Gaulle, e permanecerá nos quadros da Sorbonne por vinte anos.

Em junho de 1968 vem ao Brasil pela primeira vez após sua cassação, a convite da Câmara dos Deputados. Os temas discutidos são reunidos no livro Um Projeto para o Brasil (1968). Aliás, publicar livros foi uma constante em sua vida: Subdesenvolvimento e Estagnação na América Latina (1966), Teoria e Política do Desenvolvimento Econômico (1967), Formação Econômica da América Latina (1969). No correr da década de 1970, fez diversas viagens a países da África, Ásia e América Latina, em missão de agências da ONU. Neste período foi professor-visitante da American University, da Columbia University, da Universidade Católica de São Paulo e da Universidade de Cambridge, onde é o primeiro ocupante da cátedra Simon Bolívar e nomeado “Fellow do King’s College”. Em 1973 publicou A Hegemonia dos Estados Unidos e o Subdesenvolvimento da América Latina, dando a entender uma relação de causalidade entre os dois fenômenos. O interesse pela área editorial o faz juntar-se a um grupo liderado pelo industrial e deputado Fernando Gasparian na compra da Editora Paz e Terra, em 1974. Uma destacada editora na área das ciências sociais.

Nos anos 1978-81, integrou o Conselho Acadêmico da recém-criada Universidade das Nações Unidas, em Tóquio. Na mesma época, recebeu um mandato do Commitee for Development Planning, da ONU. Entre 1982-85, como diretor de pesquisas da Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales, coordenou seminários sobre a economia brasileira e internacional, em Paris. A partir de 1979, com a Lei da Anistia, retorna com frequência ao Brasil, retoma a vida política e é eleito membro do Diretório Nacional do PMDB. Em 1985 foi convidado pelo recém-eleito presidente Tancredo Neves para participar da Comissão do Plano de Ação do Governo, mas infelizmente não pode assumir com a morte de Tancredo. Foi nomeado embaixador do Brasil junto à futura União Européia, e integrante da Comissão de Estudos Constitucionais, presidida por Afonso Arinos, para elaborar um projeto de nova Constituição. No ano seguinte, foi nomeado ministro da Cultura do governo José Sarney. Uma de suas primeiras medidas foi a aprovação da lei de incentivos fiscais à cultura. Em julho de 1988 pediu demissão do cargo, retomando suas atividades acadêmicas no Brasil e no exterior.

O gosto pela memória o faz publicar, no ano seguinte, seu primeiro autobiográfico: A fantasia organizada. O segundo, A fantasia desfeita, viria em 1989, e o terceiro, Os ares do mundo, em 1991, ano em que se filiou ao “Pen Club do Brasil”. No período 1987-90 integrou a South Commission, criada por Julius Nyerere, e formada por países do Terceiro Mundo para formular uma política para o Hemisfério Sul. Entre 1993-95 atuou no grupo dos doze membros da Comissão Mundial para a Cultura e o Desenvolvimento, da ONU/UNESCO, presidida por Javier Pérez de Cuéllar. Entre 1996-98 integrou a Comissão Internacional de Bioética da UNESCO. Com tantas contribuições, foi homenageado, em 1997, com um congresso internacional em Paris, organizado pela Maison des Sciences de l’Homme e a UNESCO, intitulado “A contribuição de Celso Furtado para os estudos do desenvolvimento”, reunindo especialistas do Brasil, Estados Unidos, França e outros países. No mesmo ano foi criado pela Academia de Ciências do Terceiro Mundo, com sede em Trieste (Itália), o Prêmio Internacional Celso Furtado, conferido a cada dois anos ao melhor trabalho de um cientista do Terceiro Mundo no campo da economia política. O reconhecimento pelo seu trabalho é seguido pela outorga do título de Doutor Honoris Causa pelas universidades Lisboa, Brasília, Campinas, Rio Grande do Sul, Paraíba e Grenoble, na França. Junto a estes títulos, junta-se a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada de Portugal, outorgada em 1986.

Com tantos livros publicados e o gosto pela Literatura, tinha um lugar reservado na Academia Brasileira de Letras, que veio ocorrer em 1997. No discurso de posse, declarou “O fundador desta Cadeira número 11 foi um antepassado meu, Lúcio Furtado de Mendonça , de quem possivelmente herdei os pendores memorialísticos, o gosto mal sucedido pela ficção literária e uma irreprimível sensibilidade social. Esse socialista declarado empenhou-se na criação desta Academia e certamente a ele mais do que a ninguém devemos a existência desta nobre Instituição.” Anos depois, em 2009, a ABL inaugurou a “Biblioteca Celso Furtado”, contendo os 7542 livros que lhe pertenceram.

Celso Furtado faz parte dos pensadores brasileiros que consideram o subdesenvolvimento como uma forma de organização social no interior do sistema capitalista, sendo contrário à ideia de que seja uma etapa para o desenvolvimento, como podem sugerir os termos de país “emergente” e “em desenvolvimento”. Na verdade, o subdesenvolvimento é um processo estrutural específico e não uma fase pela qual tenham passado os países hoje considerados desenvolvidos. Publicou mais de 40 livros, além de inúmeros artigos. Seu último livro é uma profunda análise do subdesenvolvimento, um tema que a que dedicou toda sua vida, intitulado justamente de Raízes do subdesenvolvimento (2003). Pouco antes de falecer, foi homenageado durante a abertura oficial da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), em junho de 2004. No mês em que faleceu, foi surpreendido com uma distinção que o comoveu: comenda “Casa Avelino de Queiroga Cavalcante”. Outorgada pela Câmara Municipal de Pombal pelos relevantes serviços prestados a humanidade. Pode falecer tranquilo, em 20/11/2004, reconhecido em sua terra natal.