Autor Wilson Luques Costa

DO LIVRO INÉDITO DE POESIA - NO PRELO - REFLEXÕES DE UM HOMEM DOENTE

A quem estou a falar agora? será que falo nesse meu calar?

 


Quando a cidade acorda

o homem doente dorme

mas quando a cidade dorme

o homem doente também dorme

 

 

A dor é o sinal vital

do homem doente.

 

 

Basta de louros!

O homem doente

já é reconhecido

pela sua própria dor

 

 

O homem sadio inveja

a saúde do homem doente

mas

o homem doente

não inveja

a doença

do homem sadio

 

 

Quem inventou o infinito

foi o homem doente

 

 

Não há placebo

drágea

o homem doente é

assintomático

sofre de ausência de vida

 

 

o homem sadio é

muitas vezes

solidário

ao solitário homem doente

porque não se deve contrariar

o Princípio da Identidade

 

 

o homem doente

caminha lentamente

porque sabe

aonde não quer chegar

 

 

 

o homem doente inventa vocábulos

para suportar a dor

distorce a sintaxe da vida

 

 

O homem sadio aspira

à eternidade

já o homem doente

a rejeita

mesmo

estando

junto a ela

 

 

o mundo do homem doente

é um outro mundo

 



O homem doente olha, olha, olha...
E por fim não nos diz nada.

 

 

A reflexão de um

homem doente

é um pensamento

sadio

 

 

 

O homem sadio faz greve

Para comer

o homem doente faz

Greve para viver

 

 

O homem sadio faz greve

Vez em quando

O homem doente está consigo

E com os outros em greve constante

 

 

O homem sadio

possui desígnios

O homem doente

aceita os seus

 

 

Para o homem sadio

a sua cidade

é o seu nosocômio

Para o homem doente

o seu nosocômio

é a sua cidade

 

 

O homem sadio

corre atrás da fortuna

O homem doente

lamenta a sua

 

 

O homem sadio

quer mudar

o mundo

O homem doente quer do mundo

mudar

 

 

 

O homem sadio é

guloso

O homem doente é

generoso

 

 

 


O homem doente

Não tem curador.

 

 

No olhar do homem doente há uma névoa

Um tipo de catarata anêmica

Um verde azul

Glauco

Em seus ouvidos brotam tufos de pêlos

lembrando Ulisses diante do perigo

O homem doente é uma espécie de Odisseu encapelado

Um Borges

Tirésias

Milton

Soçobra em mares estranhos o homem doente

Poeta da morte

Poeta da vida

O homem doente

 

 

o homem sadio é racional

o homem doente é cordial

só não o é

com a sua própria morte.

 

 

 

no hospital

o homem doente

vê o seu destino

cavalgar sobre

os outros ombros

dos outros

homens doentes.

 

 

 


Trair-nos com os homens sadios

é uma característica

das cortesãs, bem como

das enfermidades.

 

 

A vida só pode ser amada

por um homem

doente,

mas também

desprezada.

 

 

O homem doente é aquele

que tem uma esperança

desesperada.

 

 

A diferença entre um homem doente

e um homem sadio

é o homem.

 

 

A verdadeira filosofia

necessita da solidão

dos enfermos.

 

 

 

É necessário ser um homem doente

para se tornar um filósofo.

Só a um homem doente

é permitido

o silêncio filosófico.

 

 

 

O homem doente

não tem passado

nem futuro.

 



O homem doente
é contemporâneo

da sua própria dor.

 

 

O futuro do homem doente

é o hoje.

O homem doente transcende

a lei

de espaço e

tempo.

 

 

 

O homem sadio

é um homem doente,

portanto

o homem doente

é um homem

sadio

 

 

Veja outras obras de Wilson Luques Costa:

 
Voltar Imprimir Enviar para um amigo
 
PUBLICIDADE
 
Imprensa Oficial
Escola Paulista de Direito
Academia Paulista de Letras

Tel: (11) 3231-4447
Telefax: (11) 3231-3669
E-mail: ube@ube.org.br