Autor Camilo Martins

A vitrolinha vermelha de Marlene

A casa de tia Bilá era a preferida de todos os meus primos e eu, é claro! Sempre estávamos lá pela variedade de árvores frutíferas que havia no quintal. Mangueiras, goiabeiras, cajueiros, pitombeiras, mamoeiros, entre outros coqueiros e árvores fantásticas pra gente subir e fazer tudo que era fantasia.
O casarão era enorme, com muitos quartos e salas, celeiros e depósitos de grãos e ao lado havia um pé de figueira brava, bem na entrada do curral. Eu tinha muito medo porque juntavam ali, nas raízes, que ficavam expostas pra fora da terra, muitas lagartas, pretas de fogo, bem peludas, me davam arrepios! O piso da casa era de ladrilhos enormes. Logo á saída para o quintal havia um tanque, bem na bica, para colher a água da chuva. E logo mais adiante havia um poço, eu sempre tive medo daquele poço e por muitas vezes eu acordava assustado, sonhando que estava caindo no poço. Tia Bilá, um amor de pessoa, recebia a gente sempre com muito carinho e fazia bejú, cuscuz, biscoitos de polvilho, entre outras guloseimas deliciosas. Sempre nos convidava para almoçar ou jantar, para mim era a melhor vida do mundo. Éramos crianças e criança gosta mesmo é dessas coisas todas! Sem compromisso com o tempo ou responsabilidades com coisas sérias.
Um dia fomos lá, meu primo Edivar e eu. Quando entramos, vimos na prateleira de um móvel da sala, uma vitrolinha vermelha. Parecia com uma maletinha. A parte que ficava o toca discos embaixo e a outra parte era dividida em duas, eram duas caixinhas de som. Funcionava a energia elétrica e à pilha. Nós nem sabíamos mexer naquilo, mas curiosos fomos desmontando pra ver e em minutos já tínhamos ligado a danada! Procuramos algum disco, era de vinil, claro, e encontramos um compacto de cor laranja e no meio era preto, estava escrito Erasmo Carlos. Colocamos e o disco começou a tocar, mas não saía o som. E mexe daqui e futuca dali... Até que de repente começou a funcionar e a sair o som. Era uma música muito esquisita, começava com barulho de carros e de pessoas gritando, com uma introdução de uns quarenta segundos. A música, eu me lembro chamava se “Johnny Furacão” e a letra está ainda na minha memória, era assim: “Esta é a história de Johnny Furacão, cara que bem cedo desejou ser campeão, vivia alimentando esse desejo profundo, da pista ele queria ser o melhor do mundo. Juntou dinheiro, ninguém queria, mas Johnny testava seu carro todo dia, sonhava ter um dia seu nome no jornal e o povo gritando que ele era o maioral. Vinte segundos ele conseguiu na milha, tratava sua porsche como se fosse filha, tala dez, gasolina de avião, assim era o carro de Johnny Furacão, tudo pronto, não falta nada, só a vitória e o beijo da namorada. Mas afinal chegou o grande dia, tanta gente assim há muito tempo que eu não via. Camilo, Marivaldo, os irmãos Fittipaldi, em corrida assim não se existe campeão que falte. A largada, disputada, Johnny sai na frente num pique diferente, alguém comenta na multidão, bicho esse cara ainda vai ser campeão. A vitória já vai chegando, Johnny, de alegria já está chorando. Está pensando no que vai dizer, não pode aparecer chorando na TV, falta pouco para ele ser o maioral, quando o carro quebra na curva principal.”
Sorri muito com meu primo Edivar e lamentamos o azar do cara. “Bicho, na última curva, que cara azarado!” Eu dizia. E Edivar encabulou foi com o nome do azarado: “Jonny Furacão! Isso é nome de gente?!” Se admirava e sorria até chorar. Eu falei, “primo, esse cara me conhece, ele disse o meu nome, é, eu ouvi o meu nome, Camilo, nessa música...” Rolamos pela sala e ouvimos outra vez e mais outra. Sorríamos mais porque começamos a ouvir em outras rotações... Mais lento, depois mais rápido!! Menino é fogo! Até que Tia Bilá veio ver que alvoroço era aquele e acabou a nossa festa... Disse pra guardar a “Radiola”, como ela chamava a vitrolinha, e que tivéssemos cuidado, pois era de nossa prima Marlene, que tinha muito ciúmes do aparelho e se nos pegasse mexendo... O bicho ia pegar!! Meu primo Edivar tremeu, Marlene era irmã dele [Filhos do Tio Elias] ele sabia que a mão dela era pesada e doía...
Mas tudo terminou bem. Guardamos logo a vitrolinha de Marlene.
Hoje só mesmo as recordações. Marlene ainda está lá, minha prima querida. [e nem sei se ela lembra] E a vitrolinha, não vimos nunca mais! Mas a imagem está na memória e no coração a boa lembrança da vitrolinha vermelha de Marlene.


 

 

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