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Autor Sônia Essabbá

Áqua-Zônia II

Sônia Essabbá, vê-se claramente, aborda a região amazônica, da sua biodiversidade a sua degradação compulsiva e quase demoníaca, numa sincronia, para não dizer “sinfonia”, da prosa de ficção, com linguagem pessoal e vívida, à poesia de encanto sedutor, buscando uma integração com o leitor, que o leve à alma da região e mostre esse presente único dos deuses que vem sendo degradado a olhos vistos. Como a autora fornece ainda dados precisos sobre a tragédia, o toque mágico da sua arte escrita dói muito mais.

Aqua-Zônia e Aqua-Zônia II se completam, de tal maneira que um é suporte do outro, embora sejam obras independentes para se ler, apreciar, palpitar e sofrer. No primeiro, a parte poética conclui o livro; no segundo, poemas navegam ao correr do texto, em voleios líricos, livres, aproximando-os da prosa poética, quase preces da floresta, na floresta e pela floresta. A autora, na prosa e na poesia, voltamos a afirmar, dá vida e humaniza tudo da região, tão bem a conhece, tão bem nela se integrou, dando-lhe espiritualidade completa e imorredoura.
 

 

Texto do livro

"O sol era uma enorme gema de ovo frito. Caramba!, fazia um calor infernal. Eu levava, amarrada à camiseta, uma dúzia de tucumãs. Naquele momento a alegria pulava junto aos meus pés, foi aí que ele apareceu. Era a segunda vez que eu via o cabelo de fogo cara a cara. A primeira me assustei, o bicho era feio como o cão. Ele foi logo tirando um sarro de mim...

– Sabe quem eu sou?

Fiquei calado. Eu tremia igual vara verde, o bicho louco dava voltas na forma de uma bola de fogo. Num momento, ficava parado – era quando eu podia ver a sua figura – segundos depois virava uma bola de fogo novamente, dando voltas no mesmo lugar.

De repente parou e disse:

– Tu tá cagado? Tá cheirando à merda, seu cagão!

Na verdade estava todo borrado, a merda descia igual água pelas minhas pernas.

– Vai te lavar!

Corri pra dentro do rio e tomei aquele banho. Ele ficou na beirada. Curupira rolava na margem do rio, rindo da minha cara.

Quando ele se levantou, tinha barro por todo o corpo, o cabelo estava grudado. A cara dele parecia uma massa de barro com duas enormes pupilas arregaladas.

– Olha, disse ele, tu só sai daí se tiver com o rabo limpo.

Eu mal podia acreditar no que era aquilo. Diabo feio!

– Sai daí! Anda, já! – gritou o mal-querido.

Acatei a ordem; afinal, não conhecia o cabelo de fogo e não me ocorreu que ele era o cara da lenda, o tal do Curupira falado.

– Vem cá, curumim!

Cheguei bem perto dele. O desgraçado era feio como a infelicidade.

– Te perguntei quem sou eu?

– Num sei, não – respondi com a voz trêmula.

– Não sabe, não, seu porcaria?

– Não...

Estava pálido, lívido, a ponto de um desmaio.

– Guarda bem o meu nome e a minha figura. Sou o CURUPIRA!"

Informações:

http://www.webaguia.com.br/pdf_livros/pdf_livros.htm#AQUAZONIA2

 

 

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