imagem ilustrativa

Autor Alaor Barbosa

Grande e estranho mundo, por Ronaldo Cagiano

 

   A reconstituição da experiência pessoal na literatura tem sido a obsessão de muitos escritores, e na íntima necessidade de se realizar uma catarse de seus testemunhos de vida, culmina num profundo mergulho existencial. Se “a literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta”, como vislumbrou Fernando Pessoa, a transfiguração da realidade e a tentativa de entendê-la têm sido a preocupação literária de Alaor Barbosa.
   Nascido em Morrinhos e há cerca de três décadas radicado em Brasília, autor de numerosa e premiada obra, que inclui ficção, ensaio e crítica, iniciou sua carreira como jornalista no Rio de Janeiro, trabalhando no extinto Jornal do Brasil, nos áureos tempos do Suplemento Dominical, do qual foi colaborador. Premido pelas circunstâncias políticas da época, que lhe forçou a um retorno às suas raízes no Brasil central, abandonou o jornalismo para dedicar-se à advocacia. Nesse exílio involuntário, inicia sua carreira literária, na qual o homem e a geografia do cerrado constituem sua matéria primordial, sem abandonar a consciência de uma reflexão critica sobre o país e o mundo em seus livros.
   Desde sua estréia com A espantosa realidade (1964), passando pel’A morte de Cornélio Tabajara (Prêmio Cora Coralina 1997) até Eu, Peter Porfírio, o maioral – livro que recebeu menção especial no Prêmio Leya de Literatura, publicado em Portugal em 2008, recebido com entusiasmo por Pepetela , são mais de 20 títulos, aí incluindo ensaios sobre a obra de Monteiro Lobato e Guimarães Rosa, autores sobre os quais também vem se dedicando com grande afinco desde a juventude.
Sua trajetória agora se robustece com a publicação de Vasto mundo, vencedor do Prêmio Cidade de Conselheiro Lafaiete-2008, obra que também traça um painel sincero da vida brasileira. Nessa densa narrativa, estão presentes elementos memorialísticos e invenção, com ressonâncias da tragédia social, humana e política das últimas décadas. Vasto mundo consiste numa epifania, em que o autor e personagem se fundem numa relação ética e estética entre dois mundos, o vivido e o criado, conferindo à história individual e coletiva uma inflexão critica e uma oportunidade de catarse e apaziguamento. Na voz de Rafael Santoro Noronha, personagem que frequenta toda a bibliografia de Alaor Barbosa, e que se estabelece como um alter ego do autor, um vasto mundo de acontecimentos íntimos e ambiências trágicas vai se delineando, espelho fiel da trajetória de um homem e da vida do próprio país e do mundo.
 

A mítica Imbaúbas
 

   A exemplo da Macondo, de García Marquez; da Komala, de Juan Rulfo; da Santa Rita, de Autran Dourado; da Yoknaupatawa, de Faulkner; ou da Santa María, de Onetti, Alaor Barbosa criou a mítica Imbaúbas, cidade típica do interior goiano, de onde (re)colhe rico material para sua prosa. Vasto mundo atravessa tempos geográficos, cronológicos, históricos e psicológicos, biografando alguém que deixa a vida se ênfase dos grotões para fixar-se no Rio em busca do crescimento intelectual e realização literária, assumindo pretensões de um dia ganhar o prêmio Nobel. Rafael Noronha metaforiza perplexidades, desafios, dramas, frustrações, lutas e dilemas de qualquer indivíduo e as pretensões de um escritor in progress, simbolizando as metamorfoses por que passam o homem e o país.
   O autor extrapola o mero registro da vida de um protagonista atormentado e desejoso de ascensão, em combate idealista e utópico com esse estranho e canino mundo, para instaurar uma obra de investigação sobre o Brasil. Rafael passa em revista as mazelas do seu tempo, pontuando sua recusa ao apequenamento e à falta de perspectivas da vida medíocre, provinciana e alienada do interior.
   Vasto mundo é um típico romance de formação, obra caudalosa e torrencial, cuja arquitetura e dicção peculiares reverberam a linguagem da gente comum e tange em questões universais da natureza humana, extraindo a delicada poesia do cotidiano, dos cenários, dos costumes e das relações, apreendendo as contradições, os paradoxos e as possibilidades do homem.
   Alaor Barbosa constrói uma literatura sintonizada com as demandas psicológicas, as angústias e a crueza da realidade contemporânea e universal. E como Machado de Assis, em Dom Casmurro, também compreendeu que “só há um modo de escrever a própria essência, é contá-la toda, o bem e o mal”. E é com vasto sentimento do mundo, percorrendo os caminhos e os descaminhos de Rafael, que Alaor faz uma expedição à verdade, como diria Kafka sobre o papel da genuína literatura.

Publicado no Correio Braziliense, 27 de agosto de 20
 

 

Veja outras obras de Alaor Barbosa :

 
Voltar Imprimir Enviar para um amigo
 
PUBLICIDADE
 
Imprensa Oficial
Escola Paulista de Direito
Academia Paulista de Letras

Tel: (11) 3231-4447
Telefax: (11) 3231-3669
E-mail: ube@ube.org.br