Autor Jean Pierre Chauvin

Dialética do autoritarismo burocrático

Dialectic in the bureaucratic authoritarianism
 
 
 
E se meu país gozava de paz e prosperidade era porque meu povo, mais inteligente, talvez, que outros do Continente, havia sabido reeleger-me três, quatro – quantas vezes? – sabendo que a continuidade do poder era garantia de bem-estar material e equilíbrio político. (Alejo Carpentier. O recurso do método, p. 23)
 
Jean Pierre Chauvin[1]
 
Resumo: A palavra “personalidade” abrange diversos significados, entre a Antiguidade e a Modernidade. Particularmente no Brasil, o conceito de “personalidade autoritária” se liga diretamente à nossa História - da Colônia à Nova República. Atualmente, o discurso autoritário se manifesta na maior parte dos setores de âmbito corporativo, como sintoma da postura ambígua de determinados líderes e respectivos subordinados.
Palavras-chave: Brasil; burocracia; autoritarismo; personalidade.
 
Abstract: “Personality” it’s a word which encloses diverse meanings, between Antiquity and Modernity. Particularly in Brazil, the “authoritarian personality” concept is directly related to our History - since Colony to the New Republic. Currently, the authoritarian speech is realized in most part of the corporative sectors, as symptom of the ambiguous position of determined leader and respective subordinated individuals.
Keywords: Brazil; bureaucracy; authoritarianism; personality.
 
De maneira geral e como pressuposto didático, aceitam-se algumas definições de teor cultural e artístico, relacionadas à etimologia da palavra “personalidade”. A primeira explicação é relativamente simples. Na Antiguidade greco-latina, “persona”[2] era a máscara de madeira utilizada pelos atores – em tragédias e comédias – de modo a encobrir o seu rosto; enfatizar determinadas características das personagens representadas pelas pessoas; e amplificar-lhes a expressão e a voz, perante o grande público – este, acomodado à longa distância, nos anfiteatros - a céu e vinho abertos, e propenso à catarse.
Transcorridos os longos séculos de contato entre Grécia e Roma, as violentas guerras para a expansão do Império romano aproximaram definitivamente o universo latino da cultura grega. Vocábulo herdado do mundo helênico recém-conquistado, o termo “persona” se consolidaria entre os romanos como o principal significado de “personagem” – estreitamente vinculado aos “papéis” desempenhados pelos atores do gênero dramático.
Ao final da Idade Média, e com o advento do romance, gênero favorecido pela invenção da prensa, por Gutenberg - em meados do século XV - o conceito de “personagem” seria irremediavelmente associado a figuras literárias, de um modo mais genérico.
No início do século XX, o significado do termo foi ampliado pelo conceito de homo fictus (expressão cunhada pelo estudioso inglês Edward Morgan Forster, em 1927)[3] e, em sentido figurado, ao caráter fictício, postiço ou afetado de uma pessoa - indivíduo de artifícios, portanto -, em oposição à naturalidade e espontaneidade de outrem.
Substancialmente, e caso seja aceita uma acepção mais rasteira, poderíamos compreender “personalidade” como um conjunto de traços mais ou menos marcados e marcantes, que se vinculam à pessoa[4]: daí o seu caráter eminentemente individual (in-diviso, in-divisí-vel), por princípio.[5]
É também por essa razão que frequentemente referimo-nos a determinadas pessoas mediante a recorrência de certas atitudes específicas, que supomos ser decorrências imediatas da sua personalidade. O “gênio forte” é considerado inflexível e de difícil trato; o “maria-vai-com-as-outras” é mais fácil de ser logrado; o “autoritário” tem o perfil de chefe; o “competitivo” é o funcionário com sede de ambição; o “empreendedor” é aquele que não se acomoda – e assim por diante.
As hipóteses, fundamentadas em juízos de valor, seguem em acordo com o respectivo grau de imaginação, apropriação de ideias prontas ou reprodução do senso comum.
 
 
 
 
II
 
Em nosso país, o mandonismo tanto gerou o coronel latifundiário quanto o chefe espaçoso e autoritário das corporações: este, um fã (quase nunca confesso) do poderio que manipula e veicula, com o amparo de sua própria voz - proclamada invariavelmente nas alturas – e sempre com o respaldo do emaranhado pseudo-legal em que baseia a maior parte de suas arbitrariedades e contradições.
As formas com que o senhor supremo da burocracia abusa dos poderes de que dispõe revela-o um ser tanto mais mesquinho, anti-ético e injusto, quanto maior sua crença e temor frente aos espaços vagos para a mobilidade de seus pares, digo, inferiores. Até que ponto a manutenção de seu posto, poses e posses contam com a personalidade supostamente pacífica dos colegas que eganana, co-opta ou subjuga?[6]
O que talvez mais importe, neste comentário, será refletir a respeito de algumas características da personalidade autoritária,[7] percebida especialmente nos ambientes coporativos: empresas, academias, associações e ambientes burocráticos[8] afins. Ela ganha maior ou menor realce, de acordo com a dinâmica envolvida em um “processo social” e reside no pressuposto de que: “Cooperação e oposição constituem os dois processo básicos da vida em grupo.” (OGBURN; NIMKOFF, 1980, p. 236)
Historicamente, afirma-se que o autoritarismo é um termo algo recente. O conceito implicava, no início do século XX, a estreita vinculação de alguns líderes e seus asseclas a regimes francamente totalitários, que primavam por manter o poder pelo exercício da dominação em todos os níveis e esferas, ao alcance do ser “superior”.
De fato, se levarmos em conta as contribuições de Sigmund Freud e dos pensadores da Escola de Frankfurt – Theodor Adorno e Herbert Marcuse, em especial – depararemos com três características fundamentais do ser autoritário: 1) narcisismo/megalomania (pessoa); 2) caráter falacioso (discurso); 3) indistinção entre as esferas pública e privada (atuação).
O mito de Narciso (figura mitológica em que o amor-próprio é maior que o amor dos/pelos outros), na leitura de Freud, implica a recusa por parte do indivíduo em seu amadurecimento. O seu “Eu-ideal” é internalizado e não se transfere ao “ideal objetal” - processo comum nos adultos. Absolutamente subjugado à aparência exterior, que julga transmitir aos demais,  o indivíduo narcisista vivencia uma forte contradição inerente à sua personalidade:
 
O desenvolvimento do Eu consiste em um processo de distanciamento do narcisismo primário e produz um intenso anseio de recuperá-lo. Esse dinstanciamento ocorre por meio de um deslocamento da libido em direção a um ideal-de-Eu que foi imposto a partir de fora, e a satisfação é obtida agora pela realização desse ideal. (FREUD, 2004, p. 117).
 
O narcisista, portanto, combina “delírio de grandeza”, bem como o “desligamento de seu interesse pelo mundo exterior (pessoas e coisas)” (FREUD, 2004, p. 97). No universo corporativo-burocrático, é muito comum encontrarmos figuras exemplares da personalidade autoritária-narcisista.
Ela se manifesta em reuniões com determinado coletivo, quando – após ter conduzido o encontro durante a absoluta e maior parte do tempo – uma voz dissonante ousa discordar de sua postura ou orientação. Imediatamente, o líder tirânico reafirmará o gosto pelas fórmulas discursivas que exprimem seu poder inabalável, como: “passo-lhe a palavra” ou “entendi sua posição, mas isso é o melhor que posso fazer” etc.
Mas, além de defender sua imagem a todo instante e custo, o indivíduo autoritário revela muito frequentemente o desejo de se auto-promover, sempre que a ocasião, por mais inadequada ou mínima, permite.
De modo geral, o ser autoritário faz uso de um discurso que revela, ao mesmo tempo, uma falsa modéstia com trejeito de ensaio performático (“eu não teria feito tudo isso sem contar com a ajuda/o apoio de vocês”) e seu desejo de auto-afirmação, muito mal disfarçado (“sem dúvida, esta gestão trouxe bons resultados, como o grupo claramente percebe”).
Sua postura se liga ao âmbito geral, refletindo o elevado pragmatismo do coletivo social em que está inserido. Conforme assinala Theodor Adorno:
 
Aquilo que dilacera a sociedade de maneira antagônica, o princípio da dominação, é o mesmo que, espiritualizado, atualiza a diferença entre o conceito e aquilo que lhe é submetido. Essa diferença, porém, assume a forma lógica da contradição porque tudo aquilo que não se submete à unidade do princípio de dominação, segundo a medida desse princípio, não aparece como algo diverso que lhe é indiferente, mas como violação da lógica. (ADORNO, 2009, p. 49).
 
O terceiro rastro identificador do sujeito autoritário, detentor de todos os segredos da instituição e guardião das fofocas, reside na explícita indistinção que promove (somente em benefício próprio) entre as tarefas e compromissos de âmbito público e privado.[9]
Como obseva Maria Sylvia de Carvalho Franco: “(...) a diferenciação pública entre função oficial e vida privada permitiu a extensão do poder oriundo do cargo público para dominação com fins estritamente particulares.” (FRANCO, 1983, p. 128)
Nas situações desse tipo, é muito comum o líder autoritário dirigir-se, na surdina, a determinados subordinados, solicitando-lhes – sem qualquer pudor - favores notoriamente pessoais, quase sempre constrangedores (“você poderia buscar um lanche para mim?”), quase sempre contrabalançados por frases-prontas de pseudo-gratidão ou sinal de renovada confiança, reafirmando um explícito intercâmbio de interesses (“é por essas e outras que você é meu braço direito”).
III
 
Em 1946, Charles Wright Mills publicou um breve e incisivo estudo a respeito da “personalidade competitiva” (MILLS, 1965, p. 137-48), no qual sustentava a coerente hipótese de que nos anos imediatamente anteriores à publicação de seu livro, a sociedade estadunidense assistia ao nascimento de um “mercado da personalidade”, caracterizado pelo novo tipo de competitividade naquele meio.
Frente ao empreendedor clássico (o “heróico capitão industrial”, nos Estados Unidos), e em contraposição ao burocrata médio, que sonhava dia e noite com uma promoção - vagarosa e diminuta, mas contínua - em sua carreira, o “novo empresário” moldaria a sua personalidade como uma habilidade-mestra, na tentativa de obter os préstimos, quando não manter privilégios já concedidos por seus superiores hierárquicos (sob a forma de promoções, conquistas pessoais imediatas e gratificações).
Segundo o pensador estadunidense, a competitividade se arraiga à personalidade dos indivíduos, levando-os a agir de um mesmo modo generalizante, embora convictos de que atuam segundo critérios individuais. Coletivamente instaurada, a competição passa a ser compreendida como algo inerente a determinados estágios vivenciados pela humanidade.
Uma postura que justificaria, desse modo, as ferrenhas disputas entre vencedor e derrotado, por ser a própria contenda um traço supostamente inerente ao homem ambicioso. Ao mesmo tempo, este pseudo-argumento servirá como aval à sociedade dita neo-liberal, que sempre permitiu (melhor diríamos: autorizou) a livre-concorrência entre os indivíduos: sinal de democracia, ainda que sabidamente equivocada.
Esse e outros capítulos de Poder e política possivelmente foram lidos pelos pensadores da Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno e Herbert Marcuse[10]. Tanto é que algumas dentre as hipóteses de Wright Mills ecoariam, apenas quatro anos depois da edição de seu estudo, em A personalidade autoritária, denso e longo ensaio escrito por Adorno, em rara parceria com outros três colaboradores.
O livro, fruto de uma série de livros, organizados e editados por Max Horkheimer e Samuel Flowerman[11], em 1950, trazia detidas reflexões a respeito dos traumas e sintomas sociais especialmente vivenciados por parte dos povos de origem judaica e crença mosaica. Não custa lembrar que o nazismo fora dura e longamente instilado na Europa, pelo menos durante os doze anos que separaram ascensão e declínio de Adolf Hitler, entre 1933 e 1945.
Ora, parece haver uma estreita correlação entre a personalidade autoritária e a competitiva, mesmo porque a competição – dentro ou fora do âmbito corporativo - sinaliza para um comportamento ora de agressividade abrupta, ora de defesa cínica, com vistas à (auto)promoção de cunho hierárquico e benefício sócio-econômico.
Natural ou artificiosamente, a personalidade autoritária combina-se ao caráter competitivo, francamente estimulado pelos sistemas em que predomina o lucro ou acumulação de capital, como resultado imediato do poderio, disputado aos tapas, na cada vez mais íngrime e estreita pirâmide corporativa. Recupere-se o irônico panorama de Herbert Marcuse, a respeito dos anos de 1950:
 
Uma falta de liberdade confortável, suave, razoável e democrática prevalaece na civilização industrial desenvolvida, um testemunho do progresso técnico. De fato o que poderia ser mais racional do que a supressão da individualidade na mecanização de desempenhos socialmente necessários, mas penosos; a concentração de empreendimentos individuais em organizações mais eficazes e mais produtivas; a regulamentação da livre competição entre sujeitos econômicos desigualmente equipados (...) ?” (MARCUSE, 1973, p. 23)
 
De fato, um papel tipicamente dúplice se manifesta em líderes autoritários que, apesar de terem galgado os postos de sua carreira, continuam a destratar os seus pares e demais funcionários subalternos, revelando uma alta dose de sadismo, em sua reta, seca, desnecessária, mas ininterrupta, reafirmação de poder.
Na síntese de Erich Fromm: “A autoridade racional baseia-se na competência, e ajuda a pessoa que nela se ampara a crescer. A autoridade irracional baseia-se na força e serve para explorar a pessoa sujeita a ela.” (FROMM, 1977, p. 53)
Quase sempre, trata-se de pessoas que, por se julgarem superiores – graças a critérios mal definidos, em meio a uma intrincada ascensão por entre a rígida hierarquia – defendem a meritocracia e a desigualdade a ela inerente. Invariavelmente, são espécimes que ordenam, orientam, determinam, supervisionam, policiam a si mesmos e os outros – mas burlam ou modificam as próprias regras convencionadas perante o grupo, sem aviso prévio.
Quando se espera por sua contraparte, ela não acontece tranquilamente; ou é realizada sem qualquer demonstração de vontade, educação e respeito; ou, o que é ainda pior, não se cumpre. O discurso do chefe vigora mediante a resposta sumária, a negação constante. É que o líder autoritário sempre está extremamente ocupado e não dispõe de tempo para atender a qualquer sorte de reivindicação – especialmente as mais justas e procedentes – de seus pares-subalternos-que-são.
Porém, conforme as contigências se manifestam, o discurso abranda-se provisória e ligeiramente: em lugar de mandar, “sugere”; em vez de ordenar, “solicita um especial favor” – transformando uma real necessidade em teste raso de mérito (ou grau de fidelidade e personalismo) por parte dos seres que considera inferiores.
 
 
IV
 
Em um recente estudo despretensioso, Marilena Chauí credita o autoritarismo brasileiro à histórica manutenção do “mito fundador”, embutido no discurso positivista de nossos principais historiadores – que registraram suas impressões ufanistas e alheias às vicissitudes inerentes aos dramas enfrentados por nossa sociedade, especialmente entre meados do século XIX e primeira metade do século XX. O argumento da pensadora, a respeito de nossa historiografia de cunho ideológico, é esclarecedor:
 
Aprendemos também que nossa história foi escrita sem derramamento de sangue, com exceção de nosso Mártir da Independência, Tiradentes; que a grandeza do território foi um feito da bravura heróica do Bandeirante, da nobreza de caráter moral do Pacificador, Caxias, e da agudeza fina do Barão do Rio Branco; e que, forçados pelos inimigos a entrar em guerras, jamais passamos por derrotas militares. (CHAUÍ, 2010, p. 6)
 
 
Mas, recuemos a questão para um período anterior a esta mais recente vinculação forjada entre nacionalismo de fachada e corporativismo embrutecido. Para tanto, há que se resgatar o precioso estudo de Maria Isaura Pereira de Queiroz, a respeito do mandonismo brasileiro, que nasceu por aqui a reboque das arbitrariedades promovidas pelos portugueses - missionários, bandeirantes, burocratas e políticos - e coronéis luso-brasileiros, entre a época de nossa invasão, por volta de 1500, e as Repúblicas do Caos, em nossos dias.
De acordo com a historiadora, durante o Brasil-Colônia a legislação portuguesa era frequentemente confundida com os poderes executivo e judiciário, fomentando tanto a centralização do poder nas vilas ou pequenas cidades, quanto justificando a aliança entre políticos locais e coronéis de mando regional. Em suas palavras:
 
O desenvolvimento interno do país foi se processando por acomodações sucessivas com este poder de fato – poder municipal nas mãos dos proprietários rurais – que podemos dizer “grosso modo”, se impôs à Metrópole durante a colônia, governou sob o manto do parlamentarismo durante o Império e abertamente dirigiu os destinos do país durante a Primeira República. (QUEIROZ, 1976, p. 20-1)
 
Será oportuno lembrar a clássica tipologia proposta por Max Weber, ao final de sua vida, em atenção à dominação legítima: a legal, a tradicional e a carismática. Não resta dúvida de que, nas corporações em que as diferenças entre os graus da sempre sinuosa hierarquia são menos evidentes, impera a dominação de primeiro tipo, tendo em vista que se fundamenta “em virtude de estatuto”, sendo o “tipo mais puro” o da “dominação burocrática”. Neste caso: “Obedece-se não à pessoa em virtude de seu direito próprio, mas à regra estatuída” (WEBER, 1986, p. 128-9)
Eis, portanto, o tripé que infelizmente ampara a dominação praticada pelo sujeito autoritário, por aqui: o conchavo (contra-parte do favor de quem lhe deve), a lei (ou o regulamento instituído com brechas favoráveis ao próprio dominador e detrimento dos demais) e a hipocrisia (como drama perfidamente representado diante de seus oponentes).
 
 
V
 
Não se pode esquecer que a linguagem ambígua do mando constitui uma das ferramentas prediletas do ser autoritário. Quando é mais conveniente, o líder totalitário relembra aos subalternos seu apertado (mas sempre justo e meritório) lugar na hierarquia; também recorda quão limitado é o poder de voto, veto ou sanção de seus pares – ainda mais quando frente às arbitrariedades e mudanças das regras orquestradas pelo dominador.
Por outro lado, se o assunto diz respeito à própria empresa, firma, associação, entidade ou grupo – que o sujeito autoritário afirma tão bem e melhor representar – o chefe se identifica com os objetivos de uma coletividade arbitrária, convertendo ambições particulares (incluindo a presunção oriunda de seu status na severa hierarquia que finge flexibilizar) em metas... institucionais. Para Theodor Adorno: “(…) people in general tend to accept political and social programs which they believe will serve their economic interest. What these interests are depends in each case upon the individual’s position in society as defined in economic and sociologic terms.” (ADORNO et al. 1982, p. 8)[12]
A noção de coletividade cai em maniqueísmos perversos e simplistas. De acordo com Mary Douglas:
 
Ao viver em conjunto, tomamos a responsabilidade individual e colocamo-la sobre uma outra. Tomamos responsabilidade pelas nossas ações, mais ainda mais voluntariamente pelos nossos pensamentos. A nossa interação social consiste muito em dizer uns aos outros o que é o pensamento correcto e em culpar o pensamento errado. (DOUGLAS, 1986, p. 125)
 
Nessas ocasiões, o discurso vencedor, repleto de lugares-comuns, costuma vincular habilmente a responsabilidade dos subalternos à autoridade de quem os representa e reconhece, ainda que de maneira ambígua ou excusa: “O que é bom para a nossa instituição? É a produtividade e a qualidade do nosso trabalho.”
Evidentemente, o cenário não se restringe à esfera particular, nem diz respeito apenas ao âmbito nacional. Talvez reflita um contexto muito maior e tanto ou mais persistente. Vale o recente alerta de Gilberto Dupas:
 
O paradoxo está em toda parte. A capacidade de produzir mais e melhor não cessa de crescer. Paciência que tal progresso traga consigo regressões, desemprego, exclusão, pauperização, subdesenvolvimento. A distribuição de renda piora, a exclusão social aumenta, o trabalho se torna mais precário nesse mundo de poder, produção e mercadoria. (DUPAS, 2001, p. 49-50)
 
Sob a ótica pragmática e progressista dos chefes desta natureza e quilate, não há lugar ou momento para recuos. Tanto em sua própria carreira – sempre ascendente – quanto nas posturas que adota e impinge, sua atitude é, praticamente todo o tempo, reacionária e paranóica, amparada por um discurso mesquinho e nitidamente refratário a qualquer cota ou migalha de sucesso alheio – especialmente quando obtido por um de seus pares.
Uma gestão democrática deveria internalizar a convicção de que é necessária uma “luta constante dos sujeitos contra a lógica dominante dos sistemas” (DUPAS, 2003, p. 11). O ser autoritário, que em tudo e todos vê ou subserviência, ou contraposição aos seus caprichos (para ele, um evidente sinal de ingratidão), julga os demais ora como frágeis e derrotados, ora como francos competidores. Ou seja, sedentos por uma nesga dos privilégios que o seu posto supremo,  agem como seres famintos por uma tacanha liderança qualquer, das alturas de sua mesquinhez de indivíduo subordinado.
Como se trata de um ser essencialmente ambicioso, o líder autoritário crê, sem margem de erro, que todos que o cercam pertencem a dois diferentes tipos: nível A - bajuladores e covardes; nível B - concorrentes e desafiadores que, portanto, precisam ser dura e constantemente enfrentandos.
Assim, perfilado o primeiro pelotão de burocratas subalternos – quando calha um dia de má-disposição, conta de luz vencida, ou frustração profissional – o chefe os humilha, critica rigorosamente e quase nunca reconhece seu eventual bom trabalho; menos ainda, uma boa causa, uma intenção honesta, ou um sincero pedido de desculpas.
Ora, cabe ao chefe coibir seus bajuladores, quando manifestam qualquer sinal de autonomia; ou desmoralizar os colegas que não se adequam ao esquema pró-ativo (mas subserviente), com a tenção de reafirmar um poderio de arame. Aí está uma artimanha de duas faces, que serve a disfarçar sua insegurança perante à alegria, a criatividade, a competência ou a eficiência de seus pares – volta e meia tratados como inimigos, súditos, vassalos ou servos sem voz, destituídos de opinião ou personalidade própria.
Seria relevante investigar até que ponto o autoritarismo é, ou não, um dentre os sintomas mais ou menos tipicamente brasileiros. Reitera-se, por ora, a opinião de Sérgio Buarde Holanda, com quase oitenta anos de triste validade: “Cada indivíduo (...) afirma-se ante os seus semelhantes indiferente à lei geral, onde esta lei contrarie suas afinidades emotivas, e atento apenas ao que o distingue dos demais, do resto do mundo.” (HOLANDA, 1999, p. 155)
O sujeito autoritário faz pouco caso de quem não se coaduna com o seu perfil carreirista-pragmático; despreza violentamente quem manifesta a mesma sede de poder que a sua. Há momentos, no entanto, em que este ser supremo cede parte de seu imenso poderio. É quando delega funções – missões a serem resolvidas perante a comunidade ou tarefas intestinas - para as quais não tem competência, disposição ou coragem de realizar.
Por isso, nas raras oportunidades em que o seu vasto poder é descentralizado - durante um breve período – secretamente, o superior torce para que o subalterno escolhido a dedo – sujeito desacostumado com as artimanhas inerentes aos meandros e metas do poder – fracasse, falhe e esmoreça; que descumpra os prazos estipulados: que se revele um ser humano.
A vantagem perversa, para o autoritário, é tripla: 1) mostrar ao coletivo que o seu poder centralizado é a única postura plenamente justificável de conduzir “seus” funcionários e colaboradores; 2) anunciar aos demais, arauto que é, a franca inabilidade do subalterno; 3) demonstrar seu notável elevado grau de (cínica) comiseração paternalista, ao conceber nova oportunidade de acerto (e erro) ao seu subordinado de mãos trêmulas e a auto-estima rebaixada. A linguagem reafirma o poder de quem está à frente da instituição. Segundo a hipótese de Michel Foucault:
 
O desejo diz: ‘Eu não queria ter de entrar nesta ordem arriscada do discurso; não queria ter de me haver com o que tem de categórico e decisivo; gostaria que fosse ao meu redor como uma transparência calma, profunda, indefinidamente aberta, em que os outros respondessem à minha expectativa (...) E a instituição responde: ‘Você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis (....) e que, se se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele lhe advém. (FOUCAULT, 2009, p. 7)
 
Talvez o método mais eficaz e imediato de se eliminar as diferenças de opinião se dê pela imposição da ideia de que elas (as divergências) não existem (ou não teriam lugar, ainda que houvesse motivo para tanto). Como se vê, nem tudo está perdido: ainda resta a contestação fundamentada; a medida paliativa do sarcasmo perante a fraude mascarada; ou o pedido de demissão.

Bibliografia
 
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[1] Professor de Ficção Interativa, Comunicação e Expressão e Língua Portuguesa da Fatec São Caetano do Sul. Membro da UBE (União Brasileira de Escritores).
[2] Uma contextualização mais completa está em Análise literária, de Raúl H. Castagnino (1968, p. 125-6).
[3] Aspectos do romance (FORSTER, 2005, p. 69 - 104).
[4] Recorde-se que a evolução da palavra “persona”, nas línguas neo-latinas, redundou em versões diversas. O Português (pessoa) distingue-se na fonética e na grafia do Francês (personne), do Italiano (persona) e do Espanhol (persona).
[5] “O latim personalitas tinha dois sentidos, particularmente no desenvolvimento medieval: a qualidade geral e não uma coisa (termo complexo nos debates escolásticos sobre a Trindade, mas também um termo de generalização para a humanidade), e o sentido de pertences pessoais.” (WILLIAMS, 2007, p. 315).
[6] Leitor de Maria Isaura Pereira de Queiroz e de Raymundo Faoro, entre outros, André Heráclio do Rêgo (2008) atualiza a ideia de que o nosso mandonismo redundou no coronelismo, que, por sua vez, permanece, sob outras formas e classes, na sociedade brasileira contemporânea.
[7] Segundo Nicola Abbagnano: “Em geral, Autoridade é, portanto, qualquer poder de controle das opiniões e dos comportamentos individuais e coletivos, a quem quer que pertença este poder.” (ABBAGNANO, 2007, p. 113).
[8] A palavra “burocracia” recebeu diversas conotações, desde sua assimilação pelo jargão econômico-administrativo, provavelmente no século XIX. O sentido que lhe confere o presente texto se aproxima bastante da definição proposta por Raymond Williams: “havia um uso mais geral de burocracia que indicava, de maneira desfavorável, não simplesmente a classe de funcionários, mas certos tipos de ordem social centralizada, de uma espécie organizada moderna, distinta não apenas das sociedades artistocráticas mais antigas, mas da democracia popular.” (WILLIAMS, 2007, p. 68)
[9] No Brasil, essa questão, inicialmente apresentada por Gilberto Freyre (1933), foi definitivamente ampliada, mediante um ponto de vista contraposto à visão aristocrática freyreana, a exemplo de Sérgio Buarque de Holanda (1936); Dante Moreira Leite, nos anos 50; Roberto da Matta, Marilena Chauí, Raymundo Faoro, Francisco de Oliveira e Roberto Schwarz, a partir dos anos 70; e, mais recentemente, Evaldo Cabral de Mello, Evaldo Vieira e Gilberto Dupas – para citar alguns nomes.
[10] As referências a Charles Wright Mills constam de Introdução à Sociologia (2008, p. 321-2), de Theodor Adorno; e em A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional (1973, p. 20), de Herbert Marcuse.
[11] A coleção intitulava-se “Studies in Prejudice Series”, sendo The authoritarian personality o volume 1.
[12] “(...) as pessoas em geral tendem a aceitar os programas políticos e sociais que julgam servir aos seus interesses econômicos. Interesses esses que dependem, em cada caso, da posição do indivíduo na sociedade, econômica e sociologicamente falando.” (tradução minha).

 

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