Escuta poética

Severino Antônio discute a educação e a crise da leitura

17/10/2012

O texto a seguir é a íntegra da palestra ministrada pelo nosso associado Severino Antônio durante o Congresso Brasileiro de Escritores de 2011.

 

A EDUCAÇÃO E A CRISE DA LEITURA: UMA ESCUTA POÉTICA

 

 

                                                                                                              Severino Antônio

 

 

Ler o que nunca foi escrito.

Tal leitura é a mais antiga, anterior a toda língua – a leitura das vísceras, das estrelas, ou das danças. Mais tarde se constituíram anéis intermediários de uma nova leitura, runas e hieróglifos.

 

É possível perceber o mundo como livro, e perceber esse livro não somente como criptograma a ser decifrado, o que supõe a inalterabilidade dos conteúdos, mas como texto a ser escrito – uma escrita que é no fundo uma reescrita, um reencontro que supõe a ação histórica do homem.

Walter Benjamin

 

A poesia, que faz parte da literatura e, ao mesmo tempo,

é mais que a literatura, leva-nos à dimensão poética da

existência humana.

                                                                              Revela que habitamos a Terra não só prosaicamente – sujeitos à utilidade e à funcionalidade –, mas também

                                                                                                       poeticamente, destinados ao deslumbramento,

ao amor, ao êxtase.

Edgar Morin 

 

 

                    A literatura é a Terra Prometida em que a linguagem

 se torna  aquilo que na verdade deveria ser.

Ítalo Calvino

 

Foi mais a ausência de poesia que tornou Auschwitz possível. Diante da falta de sentido, que gera grande desesperança, o poeta, por meio do sentimento poético, poderá persuadir os homens a viver em novo céu e em nova terra.

Yves Bonnefoy

 

Será uma quimera pensar numa sociedade que reconcilie o poema e o ato, que seja palavra viva e palavra vivida, criação

de comunidade e comunidade criadora?

Octávio Paz

 

 

INTRODUÇÃO

 

 

            Constelarmente, as epígrafes falam umas com as outras e com o texto em vir a ser. Anunciam as questões que movem esta conversa – no sentido etimológico de con-versar, dar voltas com os outros – em torno do tema da crise da leitura, principalmente da leitura literária.

            Neste diálogo, fazemos algumas considerações sobre a necessidade de despertar o desejo de ler – como criação de sentido, em religação com a vida. Em especial, considerações sobre a necessária redescoberta da poesia – raiz da linguagem, utopia da palavra – como educação da sensibilidade, da inteligência, da imaginação. A convivência com a poesia revela-se também redescoberta da dimensão poética de nossas vidas.

 

 

A NECESSIDADE DA POESIA

 

 

                                                                       Vida toda linguagem

                                                                                 Mário Faustino

 

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono.

Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária

por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior.

A poesia revela este mundo; cria outro.

Octavio Paz

 

 

 

            Como a filosofia para Merleau-Ponty, a experiência poética revela-se um reaprender a ver. Também nos aproxima dos sentidos nascentes, do nascimento do mundo para o homem e do nascimento do homem para o mundo, que não se separam da origem e do destino das palavras.

            A experiência poética traz iluminações sobre a natureza da linguagem. Leva-nos a recordar que as palavras são uma das características diferenciadoras de nossa espécie, e que elas têm múltiplas dimensões, para além da função de transmitir informações. As palavras nomeiam o mundo. Nomear é ato de descoberta e criação de sentido. Muito mais do que um rótulo, os nomes são desígnios, e, desse modo, elaboração de conhecimento.

            Como representação simbólica, as palavras tornam presente o ausente, possibilitando o pensar e exprimir as coisas e a nós mesmos. São também diálogo, interlocução em que os sujeitos se constituem, e se reconhecem uns aos outros, uns nos outros. Representam forma de ação e interação, dos sujeitos entre si, e deles com a realidade.

Além disso, as palavras são formas de criação. Produzidas social e historicamente, também produzem a sociedade e a história. São, ao mesmo tempo, produto da cultura e produção da cultura. A dimensão criadora se revela mais visivelmente na literatura, de modo singular na poesia, que é o campo mais concentrado de sentido, de sentidos, símbolos que geram símbolos.

Dentre inúmeras vozes que reconhecem a necessidade da poesia e da literatura e, assim, a necessária leitura poética e literária, escolho mais algumas, em breve constelação. No século XIX, em A defesa da poesia , uma poética fundamental do Romantismo e do mundo moderno, Percy Shelley faz considerações sobre a função vital da poesia: música planetária para ouvidos mortais, a poesia transforma tudo o que toca,  sua secreta alquimia transmuta em ouro potável as águas letais que escorrem da morte para a vida. Em um ensaio sobre Brecht, na obra Homens em tempos sombrios, Hannah Arendt conceitua o fazer poético: a tarefa do poeta é cunhar as palavras pelas quais vivemos. (1987, p.212)

Octavio Paz, em O arco e a lira, faz uma síntese conceitual, com linguagem poética:

                                                          A palavra é um símbolo que emite símbolos.

O homem é homem graças à linguagem, graças à metáfora original que o fez ser outro e o separou do mundo natural. O homem é um ser que se criou ao criar uma linguagem. Pela palavra, o homem é uma metáfora de si mesmo. (1985, p. 41-42)

 

 

Ivonne Bordelois, em A palavra ameaçada, discorre poeticamente sobre a convivência com a linguagem e a poesia:

 

Cada vez que abrimos espaços para a reflexão sobre o sentido escondido das palavras ou para a ponderação da sábia arquitetura da sintaxe, cada vez que celebramos a graça de uma piada verbal ou de uma adivinha, uma estrofe, uma frase ouvida por aí, cada vez que incorremos no luxo desse passeio arqueológico entre as ruínas maravilhosas que é a etimologia, estamos revivendo a felicidade da linguagem e a possibilidade da poesia, que é a criatura mais excelsa da linguagem, sua coroa de estrelas. (2005, p.26)

Mais que milenarmente, os poemas têm-nos chamado à leitura e à escuta poética, assim como ao canto e ao corpo que dança. Este é um dos trabalhos que a literatura realiza para humanidade, trabalho simbólico, criador de cultura.

            Em tempos de crise – de sociedade, de cultura, de civilização – a convivência com os poemas é ainda mais necessária.

            Este é um dos poemas que escolhi para compor a obra O visível e o invisível:

 

 

A NECESSIDADE DA POESIA

 

  1. o amor está escasso

nestes dias.

 

o cerco das misérias quase desnatura

as formas novas.

 

muitas mãos

ainda não se reconhecem.

 

 

  1.   a cota de sonhos em nossa boca

anda quieta.

 

entre os dentes e o céu

pouco se move a língua.

 

o ar se oculta

abaixo da garganta.

 

mas os nascimentos precisam de palavras.

os que nascem, precisam de poemas.

(2008, p. 61)

A PERDA DA POESIA E DA PALAVRA

 

 

 

As grandes obras de arte e as construções filosóficas

permanecem incompreendidas não por sua distância

grande demais do âmago da experiência humana,

mas pela razão contrária.

Adorno

 

O desprezo que cerca os melhores poetas é o mesmo

desprezo que cerca e impede a escuta profunda da

linguagem: de fato, esse desprezo não julga os poetas,

mas confirma e condena a surdez e a mediocridade

de sua época.

Ivonne Bordelois

 

 

 

            Apesar de a poesia ser vitalmente necessária para a humanização da história, a leitura de poemas tem sido abandonada. Na chamada “era da informação”, da “sociedade do conhecimento”, a poesia tem sido cada vez mais exilada – pelos poderes do mercado, pelas lógicas do entretenimento e do consumo descartável, assim como pelas maquinarias de seduções de propaganda e marketing.

            A indiferença com relação ao texto poético está relacionada com a desconsideração da literatura, das artes , da filosofia, não reconhecidas como forma legítima e fecunda de conhecimento.

            O desprezo pela poesia – simultâneo à espoliação dos processos poéticos, instrumentalizados nos textos publicitários – expõe claramente a supremacia do conhecimento técno-científico e seu uso instrumental, utilitário e acumulador de poderes.

            Boaventura de Souza Santos faz uma página síntese sobre esse silenciamento, imposto também à sabedoria prática, à arte de viver e conviver, silenciamento que é uma das causas da perda de sentido em nosso tempo:

 

“Depois de três séculos de prodigioso desenvolvimento científico, torna-se intoleravelmente alienante concluir com Wittgenstein, (...) que a acumulação de tanto conhecimento sobre o mundo se tenha traduzido em tão pouca sabedoria do mundo, do homem consigo próprio, com os outros, com a natureza. Tal fato, vê-se agora, deveu-se à hegemonia incondicional do saber científico e à conseqüente marginalização de outros saberes vigentes na sociedade, tais como o saber religioso, artístico, literário, mítico, poético e político, que em épocas anteriores tinham em conjunto sido responsáveis pela sabedoria prática (a phronesis), ainda que restrita a camadas privilegiadas da sociedade. A vocação técnica e instrumental do conhecimento científico tornou possível a sobrevivência do homem a um nível nunca antes atingido (apesar de a promessa inicial ter ficado muito aquém da promessa técnica), mas, porque concretizada sem a contribuição de outros saberes, aprendemos a sobreviver no mesmo processo e medida em que deixamos de saber viver. Um conhecimento anônimo reduziu a práxis à técnica.”

 (2003, pág. 147-148)

 

 

            Essas palavras recomeçadamente relembram o discurso de José Saramago, ao receber o prêmio Nobel de Literatura, em 1998: As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrênica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.

            No final do século XX e nesta primeira década do XXI, a supremacia da técnica instrumentalizada pelo mercado acentua-se cada vez mais. A desfiguração do humano assinala-se intensamente na perda da palavra – própria, expressiva, criadora.

            Temos falado por slogans, pensado por jargões, imaginado por estereótipos. Pouco ouvimos nossa própria voz e a voz dos outros.

Nestes dias cada vez mais vertiginosos e fragmentários, somos inundados pelas últimas novidades e últimas informações – coisas, signos, imagens – quase sempre confusas, desconexas, sem contextos e sem significação, multiplicadas pelas mídias ubíquas que não cessam.

            Em meados dos anos 80 do século passado, Ítalo Calvino escrevia:

 

Às vezes me parece que uma epidemia pestilenta tenha atingido a humanidade inteira em sua faculdade mais característica, ou seja, o uso da palavra, consistindo essa peste da linguagem numa perda de força cognoscitiva e de imediaticidade, como um automatismo que tendesse a nivelar a expressão em fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados,  a embotar os pontos expressivos, a extinguir toda centelha que crepite no encontro das palavras com novas circunstâncias.

Não me interessa aqui indagar se as origens dessa epidemia devam ser pesquisadas na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media ou na difusão acadêmica de uma cultura média. O que me interessa são as possibilidades de salvação. A literatura (e talvez somente a literatura) pode criar os anticorpos que coíbam a expansão desse flagelo lingüístico.

Gostaria de acrescentar não ser apenas a linguagem que parece atingida por essa pestilência. As imagens, por exemplo, também o foram. Vivemos sob uma chuva ininterrupta de imagens; os media todo-poderosos não fazem outra coisa senão transformar o mundo em imagens, multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de espelhos – imagens que em grande parte são destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem, como forma e como significado, como força de impor-se à atenção, como riqueza de significados possíveis. Grande parte dessa nuvem de imagens se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória; o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal estar.

Mas talvez a inconsistência não esteja somente na linguagem e nas imagens: está no próprio mundo. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações torna todas as histórias informes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim. Meu mal estar advém da perda de forma que constato na vida, à qual procuro opor a única defesa que consigo imaginar: uma idéia de literatura. (1990, p.72-73)

                                       

 

Nestas décadas que nos separam do texto de Calvino, a crise de perda de sentido tem se agravado e aprofundado em todos os campos da cultura e da existência. Precisamos de renascimentos.

 

 

 

A CRISE DA LEITURA

 

 

As coisas se desfazem,

o centro já não se sustém.

William B. Yeats

 

 

            A crise da poesia e da palavra é também crise da leitura.

O exílio poético, a peste que desfigura a linguagem, a carência da arte de viver e conviver, a perda das palavras, o abandono da leitura não são questões relativas apenas ao grande mundo, ao macro-cosmos do tempo em que vivemos. Essas questões estão presentes na história de cada dia, de cada sujeito. De um modo mais claro, presentificam-se no cotidiano de quem trabalha com as palavras. Assim, um dos campos que mais explicita a crise é a sala de aula.

            Em quarenta anos de trabalho com leitura e redação, e nas constantes conversas com professores de diferentes partes do país, nunca encontrei tanta perda de sentido como em nossos dias.

            O leitor de olhos livres, que faz leitura criadora, em diálogo com o texto, tem sido cada vez mais raro. Assim como – no ato de ler e para além dele – é raro o gosto de pensar pela própria cabeça e falar pela própria boca, assim como é rara a alegria de aprender, por paixão do conhecimento, na travessia com os livros e para além deles. Os sinais de desinteresse e desencanto estão em toda parte.

            De modo semelhante, no ato de escrever raramente se encontra um texto escrito com alegria de pensar, alegria de dizer, um texto com rosto, com singularidade, com sinais de autoria de palavras e de pensamento.

            A convivência com a criação poética, a leitura de poemas, é um grande antídoto para a crise de linguagem, de leitura, de escrita, mas a poesia nunca foi tão ignorada.

            Existe a argumentação de que em nenhuma outra época se leu e escreveu tanto, como hoje. Argumentam que milhões de mensagens de texto são trocadas cotidianamente, a todo instante, principalmente pelos jovens. No entanto, é preciso perguntar: o que está sendo escrito e lido? Como tem sido a escrita e a leitura? Na maioria das vezes, trata-se de mensagens consumíveis, esquecidas em segundos, em meio a muitas outras, igualmente descartáveis. À banalização se segue a indiferença. Essa dispersão se agrava com outra marca do nosso tempo: a avalanche de informações a que estamos submetidos todos os dias.

            Saturados de estímulos e solicitações, sob poderosas forças centrífugas de dispersão, vamos ficando ao mesmo tempo excitados e entediados.

Por um lado, abrem-se novas possibilidade de conexão, de convivência com a multiplicidade de referências. Por outro lado, e ainda mais, multiplicam-se novos processos de desagregação, perda reflexiva e confusão.

            Uma questão: que quadro sinóptico poderia representar essas leituras superficiais, fragmentadas, corridas, dispersivas? Nelas não há arborização, nem rizomas. Demasiadamente descontínuas, elas se enveredam por ligações quase aleatórias, por laços metonímicos com um elemento de outros textos. Muitas vezes essas leituras se dispersam e não retornam à questão principal, ao tema motivador, ao fluxo do raciocínio, à tessitura das imagens e dos sentidos. Não raro, elas se esquecem de si mesmas, do seu próprio motivo de sua realização.

            Uma ressalva: ler de modo descontínuo, nômade, passeando com os olhos, em enumeração livre – e até mesmo caótica – pode ser um processo criativo, como momento de um processo de criação, com algum grau de consciência ou intencionalidade. No entanto, se feita de modo irrefletido e indiferente, essa leitura tende a tornar-se dispersão, ruído e insignificação.

            Assim, nas leituras e nas redações escolares tenho constatado que é cada vez maior a dificuldade de o aluno se concentrar mais profundamente em uma questão, de modo não apressado nem superficial. Também se evidenciam outras dificuldades,  como a de estabelecer ou reconhecer conexões sintáticas mais elaboradas, e a de compreender ou arquitetar raciocínios mais complexos. A teia de interações e o tecido de interdependências, que caracterizam tanto a linguagem como a realidade, vão se tornando inacessíveis. 

Principalmente no campo semântico, cada vez é mais evidente a dificuldade de interpretar ou construir textos simbólicos, em que é necessário ler e pensar nas entrelinhas. Etimologicamente, inteligência é inte-legere: ler dentre as linhas. Legere, por sua vez, vem de recolher, originariamente recolher frutas e frutos. A recolha pressupõe percepção, análise, seleção, inter-relação, formação de conjuntos. O exercício de ler, dessa maneira, é um processo de educação da inteligência, assim como da sensibilidade. A crise da leitura – do mundo e dos textos – é também crise da capacidade de pensar e de sentir.

            Estes são alguns sinais de que se aprofunda e se expande a crise de perda de sentido, com as palavras, com a leitura, com a existência. Muitos sinais de desencanto.

            Em outro texto, Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento, ao escrever sobre a necessidade de poetizar o pedagógico, faço algumas considerações que tem ressonâncias:

 

 

A perda do poético desnuda a perda de sentido, em todos os campos da existência.

A solidão, e o desenraizamento: já não sentimos o nosso pertencimento a uma família, uma comunidade, uma classe social, um povo. Nem nosso pertencimento à humanidade, à Terra, ao Cosmos.

A desfiguração, e as dilacerações: sem voz própria, partidos, perdemos a imagem do mundo e a nossa própria imagem; esquecemos nossa história, quem realmente somos, o que genuinamente desejamos, o que precisamos vir-a-ser.

Errantes em nós mesmos e no mundo errante, precisamos de renascimentos. Precisamos de recriação poética. (2009, p.121)

 

 

 

 

           

A REDESCOBERTA DA PALAVRA POÉTICA

 

 

Não existe nada morto

de uma maneira absoluta:

cada sentido terá sua festa de ressurreição.

Problema do grande tempo.

 Bakhtin

 

E, sempre e antes de tudo, nos aproximarmos da poesia

como a zona mais alta e misteriosa da linguagem,

a comprovação mais certeira de sua força mágica

e dos mundos de energia e liberdade

que através dela nos habitam.

Ivonne Bordelois

           

 

           

Cada poema é um campo de produção de sentido, um campo de possíveis, um mundo de imagens, ritmos, emoções, idéias, nunca um objeto de consumo. Não se reduz à mercadoria, não tem finalidade utilitária imediata. O poema faz sentir, pensar, imaginar, viver. Isso não pode ser vendido, nem comprado. Esta é uma das razões do exílio: sua recusa da lógica do entretenimento e do consumismo. Outras razões vêm do próprio mundo da criação de literatura, de concepções que reduzem o poema a apenas uma de suas dimensões, como por exemplo a sua dimensão empírica de sonoridade, com decomposição de palavras, trocadilhos, parônimos, com o abandono da teia de interações sintáticas e semânticas. Outras razões, ainda, vêm de análises que desnaturam a linguagem e sua dimensão poética, tratando o texto mecanicamente.

O poema não pode ser tratado de modo instrumental, reduzido a procedimentos técnicos, de fabricação literária, seja de fórmulas beletristas ou de modismos modernistas. Também não pode ser tratado como um corpo morto, a ser autopsiado. Além disso, é necessário fazer a religação do que não pode ser separado, o som e o sentido, assim como não pode ser dissociado o cognitivo do sensitivo, nem estes dissociados das imagens e dos ritmos. A cisão da unidade concreta do poema desfigura as palavras e sua natureza poética.

Em meados do século XX e nas duas décadas seguintes, circulava muito a idéia de que a obra de arte falava apenas de si mesma, remetia-se apenas a si mesma.

Muitas vezes, essa concepção estava relacionada com a idéia de que o significado de uma palavra é apenas outra palavra.  A essa espécie de autismo das obras e a esses jogos de espelho da linguagem, sem conexão com a vida, a cultura, a história, acrescentava-se também a tese, muito comum em vários grupos de vanguarda, de que “só o incomunicável comunica”: a medida de valor de uma obra era apenas a sua novidade em termos formais, com o desprezo do campo dos sentidos, o que levou muitos artistas e movimentos a uma luta incessante de todos contra todos, cada um se pretendendo o proprietário da última novidade do mercado da criação e, assim, figurando como a última – e única – possibilidade criativa, com o silenciamento de todas as outras vozes. Com isso, não raro os textos  passaram a ser lidos somente por especialistas, reduzindo dramaticamente a abrangência da leitura e o continente dos leitores.

Todorov, que era um dos principais pensadores do Formalismo e do Estruturalismo, a partir dos anos 80, tem repensado a literatura e a linguagem, em várias obras. Em A literatura em perigo, faz considerações vitais para nosso tempo de crise da leitura e de necessidade de renascimento:

           

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloqüente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e belo.

Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano. (2009, p. 23-24)

 

 

Como escrevia poeticamente Höderlin, onde mora o perigo, mora também o que salva. A devastadora perda de sentido torna-se necessidade vital de redescoberta e recriação de sentido. Com isso, engendra novas considerações sobre a poesia, tanto na compreensão do processo criativo e da obra, como da sua convivência com os leitores.

            Trata-se, também, de religação com a vida, de reconhecer a poesia como forma de conhecimento, de sensibilidade, de pensamento, de imaginação. Forma de interpretar e transformar a existência. Esta concepção transfigura a experiência da leitura, que se reconhece como criação de sentido.

 

 

 

 

 

DESPERTAR O DESEJO DE LER

 

 

Uma forma de felicidade é a leitura.

Jorge Luiz Borges

 

Ler significa aproximar-se de algo

que acaba de ganhar existência.

Ítalo Calvino

 

 

            Ao discorrer sobre direitos humanos e literatura, Antônio Cândido fez considerações que se tornaram, de imediato, referência para pensarmos a necessidade do acesso à leitura literária ou à sua escuta, como dimensão do processo histórico de humanização:

 

Entendo aqui por humanização (...) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. (1995, p.249)

Portanto, a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes níveis da cultura. A distinção entre cultura popular e cultura erudita não deve servir para justificar e manter uma separação iníqua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunicáveis, dando lugar a dois tipos incomunicáveis de fruidores. Uma sociedade justa pressupõe o respeito dos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável.

(1995, p.262,263)

 

 

            O longo e complexo trabalho de humanizar o homem tem muitas faces. Dentre elas, duas das mais significativas são o educar a inteligência e o educar a sensibilidade – inseparáveis.

Entre nós, em nossa sociedade, essa educação está ligada à formação do leitor. Um leitor capaz de leitura sensível e crítica, tanto dos textos como da vida. Capaz de questionamento e de criatividade, não somente no ler, mas também no expressar-se.

Para essa formação, é imprescindível despertar o desejo de ler.

Existem diversos modos, muitos movimentos que podem ajudar a despertar esse desejo de leitura. Um passo primordial é a religação com a existência, trazer a leitura para a vida, trazendo a vida para a leitura. Dentre as diferentes possibilidades de despertar, enumero algumas.

Contar histórias para as crianças. Ler para elas, ler junto com elas. Igualmente, ler poemas. A leitura em voz alta é fundamental: cultiva a escuta poética dos textos, assim como a escuta da natureza e da vida humana.

Buscar textos que tenham ressonância nas pessoas que estão sendo iniciadas à leitura. Ressonância quanto aos temas ou quanto à linguagem. Um exemplo claro: procurar narrativas com personagens e  enredos que tenham capacidade de despertar empatia, identificação, pertencimento. Podemos propor exercícios de imaginação, como os clássicos, de entrar na pele de uma personagem, recriar o narrador, mudar o desfecho, criar outros tempos e espaços, fazer outros diálogos etc.

É preciso também aproximar as  pessoas de textos  que inquietem a sensibilidade e o pensamento com questões existenciais, do sentido da vida, nos vários significados da palavra sentido: sensação, sentimento, rumo, significação.

Textos com a percepção corpo a corpo com o mundo, suas descobertas, seus ocultamentos. Os campos sensoriais e suas possibilidades de admiração.

Textos com enredos  que ressoem emocionalmente, como por exemplo com a questão do desejo de amar e o desejo de ser amado.

Textos com indagações: de onde viemos, para onde vamos. Como fazemos as travessias. Os companheiros de viagem. Assim também, indagações sobre quem realmente somos, o que significa nossa existência. Nessas questões, uma das permanentes é o conhece-te a ti mesmo, inscrito nos pórticos do templo, em Delfos, que atravessávamos para a escuta da voz do oráculo que indicaria sinais do que temos sido, do que precisamos vir a ser.

Além da leitura como criação e recriação de sentido para a vida, outro movimento é trazer textos com experiências lúdicas, que possibilitem o ato de ler como alegria, como jogo, como liberdade. Ler com olhos leves. Como aventura. Como descoberta e invenção.

Muitos exercícios podem ser feitos a partir da leitura. Podemos ler e reescrever o texto, criar um novo título, reconhecer palavras-chave e frases-síntese, mudar a sequência dos parágrafos, fazer um desenho, desenvolver uma dramatização, relacionar à fotografia ou a filmes, produzir um vídeo etc. Podemos também fazer uma antologia: de textos semelhantes, complementares ou opostos, tanto a partir do tema como da linguagem. São inúmeras as possibilidades.

Outro campo fecundo é o de pesquisar sobre as relações entre texto e contexto: a vida do autor, seu tempo histórico, a sociedade em que vive, o chão de onde escreve etc.

São apenas algumas sugestões. Em todas, a convivência com livros é necessária, em casa, na escola, em espaços comunitários, em bibliotecas públicas. Também é necessário conversar sobre as experiências de leitura, como por exemplo criando círculos de leitores, em que cada um fala dos livros lidos, sugere leituras que façam sentido, que despertem o gosto de imaginar, de sentir, de viver.

É imprescindível conversar sobre os livros. Relacionar as leituras com as histórias de vida. De modo especial, falar dos textos mais amados, os que não esquecemos, os que fazem parte de nós.

A convivência com os livros é encontro humano. Esses círculos de leitura – nas casas, nas escolas, nas comunidades, nos movimentos sociais – possibilitam o reencontro da alegria de conviver, tantas vezes esquecida.

É verdade que aprendemos a ler, lendo; aprendemos a escrever, escrevendo. No entanto, é preciso o encontro humano, a conversa, a circulação das vozes, o compartilhar as histórias.

Esta é uma idéia matriz: despertar o desejo de ler, que não se separa do desejo de pensar, de sentir, de viver, de conviver. Essa reaproximação com a vida é essencial. Sem essa religação, a leitura raramente floresce, a não ser quando os livros substituem o mundo, e o ato de ler pretende ocupar o vazio do que é deixado de viver. Não é essa a nossa proposta, mas a da leitura como uma das dimensões da vida.

            Assim, reitero: uma questão fundamental é despertar o desejo e religar a leitura com o sentido da vida. Não se pode impor a leitura, nem desfigurá-la em uma atividade mecânica, nem reduzi-la a fins imediatamente utilitários, nem desnaturá-la em questionários com perguntas burocráticas, sem sensibilidade nem imaginação.

            Daniel Pennac, em Como um romance (2008), faz um decálogo com os direitos de leitor, exposto na contra capa de seu livro:  

 

                                                              Direitos do leitor

1. O direito de não ler.

2. O direito de pular páginas.

3. O direito de não terminar um livro.

4. O direito de reler.

5. O direito de ler qualquer coisa.

6. O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível).

7. O direito de ler em qualquer lugar.

8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.

9. O direito de ler em voz alta.

10.O direito de se calar.

 

                           

 

            A leitura é uma experiência de liberdade. Uma forma de viver, de criar e recriar a vida.         

            Despertado o desejo de ler, muitas vezes inicia-se uma longa convivência, um duradouro amor, uma travessia de existência inteira.

            Alberto Manguel, em História da Leitura(1997), faz uma celebração do amor aos livros e ao ato de ler. Na contra-capa, são enumerados alguns exemplos:

 

Leitor voraz e ciumento, um grão-vizir da Pérsia carregava sua biblioteca quando viajava, acomodando-a em quatrocentos camelos treinados para andar em ordem alfabética. Em 1536, a Lista de preços das prostitutas de Veneza anunciava uma profissional que se dizia amante da poesia e tinha sempre à mão algum livrete de Petrarca, Virgílio ou Homero. Na 2ª metade do século XIX, em Cuba, os operários de algumas fábricas de charuto pagavam um lector, um leitor que se sentava junto às bancadas de trabalho e lia alto enquanto eles manuseavam o fumo. Lia, por exemplo, romances didáticos, compêndios históricos e manuais de economia política. A ditadura de Pinochet baniu o Dom Quixote, identificando ali apelos à liberdade individual e ataques à autoridade instituída.

  A leitura é a mais civilizada das paixões. Mesmo quando registra atos de barbarismos, sua história é uma celebração da alegria e da liberdade.

 

 

O LEITOR COMO CO-AUTOR

 

 

O poema não é uma forma literária,

mas o lugar de encontro

entre a poesia e o homem.

 

 

O leitor procura algo no poema,

e não é insólito que o encontre:

já o trazia dentro de si.

                                                                                                   Octavio Paz

            O texto é um campo de possíveis significações, especialmente o poético, tessitura de muitos sentidos.

            A idéia do leitor como co-autor, uma vez que ele descobre e estabelece relações, a partir do conjunto de possibilidades propiciadas pelo texto, está presente em muitas abordagens teóricas que reconhecem a elaboração ativa do sujeito que lê e, ao ler faz escolhas, analisa, inter- relaciona, dialoga, entretece novas conexões entre o texto e a vida.

            Uma das vertentes que reconhece o papel ativo do leitor na produção de sentidos é o pensamento de Bakhtin. A partir dele, Wanderlei Geraldi escreve, em Portos de Passagem, sobre a atividade dialógica presente na leitura:

 

O produto do trabalho de produção se oferece ao leitor, e nele se realiza a cada leitura, num processo dialógico cuja trama toma as pontas dos fios do bordado tecido para tecer sempre o mesmo e outro bordado, pois as mãos que agora tecem trazem e traçam outra história. Não são mãos amarradas – se o fossem, a leitura seria reconhecimento de sentidos e não produção de sentidos; não são mãos livres que produzem seu bordado apenas com os fios que trazem nas veias de sua história – se o fossem, a leitura seria um outro bordado que se sobrepõe ao bordado que se lê, ocultando-o, apagando-o, substituindo-o. São mãos carregadas de fios, que retomam e tomam os fios que no que se disse pelas estratégias de dizer se oferecem para tecedura do mesmo e outro bordado. É o encontro destes fios que produz a cadeia de leituras construindo os sentidos de um texto. (1997, p.166)

 

 

 

A leitura poética desperta e intensifica essa atividade do leitor, porque vai muito além da esfera das idéias, do pensar por conceitos. O poema pensa por imagens, ritmos, sentimentos – indissociáveis das idéias.

Mais intensamente do que nas outras leituras, a poética conjuga distanciamento e pertencimento.

Distanciamento, porque é um ver com outro olhar, ver o ainda não visto, ver o já visto – mas com olhos novos, como escrevia T.S.Eliot .

Pertencimento, porque desperta identificações, semelhanças, convergências, ressonâncias, empatias.

Muitas vezes nos reconhecemos em um texto: ele parece falar diretamente a nós. Assim, na alquimia da leitura poética, descobrimos a nós mesmos e aos outros, descoberta que é também um ampliar as margens da consciência, um alargar possibilidades de vir a ser.

Com os poemas, com a leitura sensível e criadora, o leitor se reconhece como co-autor: revive as imagens.

Mais algumas considerações de Todorov:

 

A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos fazer compreender melhor o mundo e nos ajudar a viver. Não que ela seja, antes de tudo, uma técnica de cuidados para com a alma; porém, revelação do mundo, ela pode também, em seu percurso, nos transformar a cada um de nós a partir de dentro. A literatura tem um papel vital a cumprir; mas por isso é preciso tomá-la no sentido amplo e intenso que prevaleceu na Europa até fins do século XIX e que hoje é marginalizado, quando triunfa uma concepção absurdamente reduzida do literário. O leitor comum, que continua a procurar nas obras que lê aquilo que pode dar sentido à sua vida, tem razão contra professores, críticos e escritores que lhe dizem que a literatura só fala de si mesma ou que apenas pode ensinar o desespero. Se esse leitor não tivesse razão, a leitura estaria condenada a desaparecer num curto prazo. (2009, p. 76-77)

 

 

 

Em nosso tempo, convivemos cotidianamente com a crise da palavra, da leitura, da literatura e da poesia. Convivemos também com muitos sinais de resistência e renascimento. Disseminam-se por toda a parte contadores de histórias. Disseminam-se grupos de leitores, rodas de leitura, saraus, encontros literários.

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

 

Tudo se torna poesia quando olhamos de dentro...

porque poesia é ciência, é o sopro do mesmo

espírito pelo qual a natureza vive.

Emerson

 

Viver a poesia é muito mais necessário

e importante do que escrevê-la.

Murilo Mendes

 

 

            A convivência com a poesia desperta e desenvolve a leitura nas entrelinhas, a escuta de outros sentidos, no texto e para além dele, na vida – a de cada um e a de todos.

Educa a sensibilidade, a inteligência, a imaginação. Possibilita a redescoberta da experiência, de muitos milênios, de ler o que nunca foi escrito, ler o mundo – essa metáfora antiqüíssima.

            Nesta concepção, a poesia possibilita reconhecer o mundo como texto – sempre inacabado, em movimento, entretecido por múltiplas vozes. A poesia também nos educa a escrever o mundo, que é sempre um reescrever.

Nessa leitura e nessa escrita, podemos nos reconhecer uns aos outros, uns nos outros. Esta é a utopia poética, o que ainda não existe, mas precisa existir: a existência como um poema, entretecido com os fios que ligam história e poesia, ligam o que foi e o que poderia ter sido, assim como evocam e invocam o que pode vir a ser – cotidianamente, constelarmente.       

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ANTÔNIO, Severino. O visível e o invisível. Campinas, SP: Verus editora, 2008.

________________Uma nova escuta poética da educação e do conhecimento.São

                                       Paulo: Paulus, 2009.

BORDELOIS, Ivonne. A palavra ameaçada. Rio de Janeiro: Vieira et Lent, 2005.

CANDIDO, Antonio.Vários Escritos. 3ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

 

GERALDI, João Wanderlei. Portos de passagem. 4ªed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

MANGUEL, Alberto. Uma História da Leitura.  São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PAZ, Octavio. O arco e a lira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

PENNAC, Daniel. Como um romance. Rio de Janeiro: Rocco/L&PM, 2008.

TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo.  Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

 

 

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Severino Antônio ( Moreira Barbosa), Doutor em Educação, professor do Programa de Mestrado em Educação Sociocomunitária, UNISAL.

  

 
 
 
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