[ Frei Caneca – ILUSTRES PERNAMBUCANOS – XLVII ]

28.11.2017

Por José Domingos Brito

Frei Joaquim do Amor Divino Caneca nasceu no Recife, em 20/8/1779, recebendo o nome de Joaquim da Silva Rabelo. Em 1796, aos 17 anos, tomou o hábito carmelita e aos 22, com licença do Núncio Apostólico de Lisboa, ordenou-se padre e adotou o nome Joaquim do Amor Divino, acrescentando o apelido Caneca, em homenagem a seu pai, o português Domingos da Silva Rabelo. Como era “tanoeiro”, fabricante de canecas de flandres, daí o apelido de “Caneca”.

Em 1803 foi nomeado professor de Retórica e Geometria de seu convento, onde lecionou posteriormente Filosofia racional e moral. A partir de certo momento, o “seu interesse extrapolou os muros do claustro, como indica seu provimento na cadeira pública de geometria da comarca de Alagoas“. Ali permaneceu pouco tempo, dada a perspectiva de nomeação para idêntica cadeira no Recife, a qual não se concretizou devido a eclosão da Revolução de 1817. Partidário do liberalismo e ideais republicanos, frequentou a Academia do Paraíso, um dos centros de reunião daqueles que, influenciados pela Revolução Francesa e pela independência dos EUA, conspiravam contra o jugo português.

Foi um dos próceres do movimento de emancipação brasileira, que levou à independência. Muito combativo, lutava contra o despotismo e as relações de dependência que caracterizavam o período o colonial. Nessa época o Recife estava dominado pelos sentimentos liberais. Padres, militares, e maçons uniram-se pela emancipação política do Brasil. Frei Caneca, Padre Roma, Domingos José Martins, Abreu e Lima entre outros, preparavam o levante em 6 de março, que conduziu à Revolução Pernambucana de 1817. O movimento foi vitorioso apenas por 74 dias. Seus líderes foram mortos, outros presos e alguns levados para Salvador. Dentre os quais Frei Caneca e Abreu e Lima. Conta a história que “Com uma pesada corrente de ferro no pescoço o prisioneiro ia andando devagar. Estava descalço, usava uma batina suja e rasgada, vigiado por soldados bem armados. Em direção ao porto, caminhava em silêncio”. A Revolução Pernambucana tinha sido esmagada, mas a ideia de libertar a província do poder central estava cada vez mais viva. Sua atuação, segundo a acusação, teria sido como capitão de guerrilhas, o que lhe valeu quatro anos de prisão em Salvador.

Depois de quatro anos preso, obteve o perdão Real reivindicado pelo movimento constitucionalista de Portugal. Enquanto preso, dedicou-se a redação de uma Gramática da língua portuguesa. Neste período, aproveitou para traduzir o texto francês “O espelho das mulheres ou a Arte de Realizar, por meio das Graças, os Encantos da Formusura”. Consta que o Frei não aceitava o celibato e chegou a ter três filhas. Traduziu, também, o texto da Enciclopédia Britânica “História da Franco-Maçonaria”. Libertado em 1821, regressou ao Recife, onde passou a lecionar geometria elementar. Em seguida foi professor de retórica e filosofia em Pernambuco e Alagoas. Escreveu, em 1822, “Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão” e “De um cidadão e deveres deste para com a mesma pátria e, em 1823, O caçador atirando à arara pernambucana” e as “Cartas de Pítia a Damão, Tratado de eloquência e História da Província de Pernambuco“.

Além de professor e escritor, exerceu a função de jornalista. Em 1823, fundou o jornal semanal “Typhis Pernambucano”, um veículo usado para criticar a situação política e atingir as massas, esclarecendo-as sobre a defesa dos seus direitos. É sabido que a Independência do Brasil, proclamada em 1822, não foi aquela preconizada pelos revoltosos de Pernambuco. A outorga da constituição de 1824 e a demissão de Manuel de Carvalho Pais de Andrade, chefe da Junta Governativa Provincial (de Pernambuco), foi o estopim da revolução conhecida como “Confederação do Equador” e que obteve apoios setoriais na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Para muitos historiadores, esta rebelião foi um prolongamento da Revolução Pernambucana.

Frei Caneca foi seu principal líder. Seu jornal, que circulou de dezembro de 1823 até agosto de 1824, foi sua arma que alimentava as ideias revolucionárias. “Quem bebe da minha caneca tem sede de Liberdade” dizia Caneca. É preciso salientar que ele depositava alguma confiança no império constitucional, conforme pode ser verificado no Sermão de aclamação de D. Pedro I. Porém a partir do momento em que o imperador convoca o exército, fecha a Assembleia Constituinte e impõe o seu próprio projeto de Constituição, seus ideais libertários são feridos e ele passa a exercer, sobretudo através de sua pena, todo o seu poder combativo. Irritou-se quando dom Pedro, na fala do trono à Constituinte, depois da separação, prometeu defender a pátria e a Constituição, caso esta seja “digna do Brasil e de mim”. Com o fracasso da rebelião, retirou-se para o interior, na companhia de parte das tropas. Nesta ocasião escreveu o “Intinerário de uma viagem ao Ceará”.

Ainda em 1824, foi preso no Ceará e submetido a julgamento pela Comissão Militar, sendo condenado à morte por enforcamento. Os carrascos designados se recusaram a executá-lo e a pena foi modificada para fuzilamento, que veio a ocorrer no Forte das Cinco Pontas, em 13/1/1825. Sua execução foi realizada por um pelotão comandado pelo brigadeiro Lima e Silva, pai do futuro Duque de Caxias, patrono do Exército Brasileiro. Na ocasião, demonstrou grande serenidade e coragem e sua morte foi cercada de uma auréola mística e heroísmo pelo povo pernambucano. Sua história e legado foram reconstituídos pelo historiador Evaldo Cabral de Melo, no livro Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, publicado pela Editora 34, em 2001. O livro integra a coleção “Formadores do Brasil”, dirigida por Jorge Caldeira, e que tem por objetivo resgatar obras fundamentais do pensamento sobre a Nação brasileira. Trata-se de uma figura pouco estudada na historiografia brasileira, mas que foi, além de importante revolucionário, um dos pensadores políticos mais consistentes de seu tempo.

Muito antes, entre 1875 e 1876 ocorreu a publicação póstuma das Obras Políticas e Literárias de Frei do Amor Divino Caneca, organizadas por Antonio Joaquim de Melo. A bibliografia sobre Frei Caneca é tão vasta quanto seu desconhecimento público. Agora há pouco, um programa de TV de São Paulo, fez uma enquete na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping do mesmo nome, para saber se as pessoas sabiam quem era o dito cujo. Ninguém sabia. Em Pernambuco, claro, ele é mais conhecido. Em 1982, o governo do estado encarregou Cícero Dias da execução de uma pintura sobre sua vida. A encomenda requer que o artista traduza em imagens a saga de um dos mais respeitados heróis pernambucanos. Cícero decidiu contá-la através de dois painéis, cada um deles contendo 12 telas expostas na Casa de Cultura do Recife, as quais podem ser vistas abaixo.

Em 1984, João Cabral de Melo Neto escreveu O Auto do Frade, contando a história do último dia de Frei Caneca. No auto, temos seu cortejo por toda a cidade de Recife, como numa procissão, até ser fuzilado, finalmente, longe dos olhos do povo. Segue abaixo, alguns trechos do poema:

Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.
Por que será que ele não fala,
nem diz nada sua boca muda?
Senhor que ele foi das palavras,
não há uma só que hoje acuda.
– Parecia que estava bêbado.
Era álcool ou sua desrazão?
– Bêbado da luz do Recife:
fez esquercer sua aflição.
– Mas pareceu falar em versos.
É isso estar bêbado ou não?
– Mesmo sem querer fala em verso
quem fala a partir do coração.
– Eu era um ponto qualquer
na planície sem medida,
em que as coisas recortadas
pareciam mais precisas,
mais lavadas, mais dispostas
segundo clara justiça.
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida.
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma folha
de papel, receptiva:
o mundo tem alma autônoma,
é de alma inquieta e explosiva.

Risco nesse papel praia,
em sua brancura crítica,
que exige sempre a justeza
em qualquer caligrafia;
que exige que as coisas nele
sejam de linhas precisas;
e que não faz diferença
entre a justeza e a justiça. (p. 37)

– Veio andando calmo e sem medo,
ar aberto de amigo, e brando.
– Não veio desafiando a morte
nem indiferença ostentando.
– Veio como se num passeio,
mas onde o esperasse um estranho. 
– É um homem como qualquer um,
e profeta não se pretende.
– É um homem e isso não chegou:
um homem plantado e terrestre.
(…)
Viveu bem plantado na vida,
coisa que a gente nunca esquece.

– Esperar é viver num tempo
em que o tempo foi suspendido.
– Mesmo sabendo o que se espera,
na espera tensa ele é abolido.
– Se se quer que chegue ou que não,
numa espera o tempo é abolido.
– E o tempo longo mais encurta
o da vida, é como um suicídio.