[ Graciliano Ramos – PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – XVII ]

11.04.2018

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, Alagoas, em 27/10/1892. Escritor, cronista, jornalista e tradutor. Aos dois anos, a família mudou-se para Buique  (PE), onde realiza os primeiros estudos. Em 1904, muda-se para Viçosa (AL), continua os estudos e cria um jornalzinho “O Díluculo”, dedicado às crianças. Em seguida passa a redigir outro jornal “Echo Viçosense”. No ano seguinte, a família mudou-se para Maceió, onde foi estudar no Colégio 15 de Março. Em 1909, passou a colaborar no “Jornal de Alagoas” usando alguns pseudônimos para a poesia e outros para a prosa. Em 1910, muda-se para Palmeira dos Índios (AL) e continua suas colaborações com o “Correio de Maceió” e a revista “O Malho”, do Rio de Janeiro.

 

Concluído o 2º grau, em 1914, mudou-se para o Rio de Janeiro, e passa a trabalhar como revisor nos jornais “Correio da Manhã”, “A Tarde” e “O Século”. Ao mesmo tempo mantém uma colaboração com o “Jornal de Alagoas” sob as iniciais R.A (Ramos de Oliveira). Como se vê, era uma pessoa que não gostava de aparecer. Em setembro de 1915, ocorreu uma epidemia de peste bubônica em Palmeira dos Índios e vitimou 3 de seus irmãos e um sobrinho. O fato fez com que voltasse àquela cidade, onde passou a viver como jornalista e comerciante junto com o pai. No mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que veio a falecer 5 anos depois, deixando-lhe 4 filhos.

 

Na condição de jornalista e filho de um comerciante conhecido na cidade, entrou para a política e foi eleito prefeito em 1927. Empossado no ano seguinte, exerceu o cargo por 2 anos, até abril de 1930. Em sua administração, realizou uma profunda reforma no sistema de ensino público e soltava os presos para construírem estradas.  Tendo que prestar contas de suas atividades, enviou ao governador Álvaro Paes um “Resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928”, que foi publicado pela Imprensa Oficial de Alagoas. O texto do relatório revela a verve do escritor ao abordar assuntos rotineiros de sua administração. No ano seguinte, envia outro relatório com a verve literária ainda mais aguçada. Tais relatórios  chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar seu primeiro romance,  Caetés (1933), um livro que vinha escrevendo desde 1925. Em seguida, renunciou ao cargo e passa a viver em Maceió, onde é nomeado diretor da Imprensa Oficial. Aí encontrou mais tempo para se dedicar a literatura e também para namorar e casar com Heloisa Medeiros.

 

O “Mestre Graça”, como era conhecido entre os amigos, não era de “esquentar cadeira”. Logo depois do segundo casamento; pediu demissão da diretoria da Imprensa Oficial;  voltou a morar em Palmeira dos índios; criou uma escola no interior da sacristia da Igreja Matriz e iniciou os primeiros capítulos do segundo romance – São Bernardo -, publicado em 1934. Mas, quando estava para sair o terceiro, foi preso em março de 1936, acusado de participar do movimento “Intentona Comunista de 1935”.   A prisão, que durou 10 meses, foi bastante profícua em termos literários. Nesse período foram gestados o romance Angústia, que, segundo alguns críticos é seu romance mais profundo; o conto Baleia, que daria origem ao romance Vidas Secas, em 1938, seu livro mais conhecido do grande público e sua conhecida obra autobiográfica Memórias do cárcere, publicado postumamente em outubro de 1953. Trata-se do mais contundente relato das violências ocorridas nas prisões da ditadura Vargas.

 

Nelson Pereira dos Santos, que já havia filmado Vidas secas em 1963, fez um levantamento de nada menos que 237 personagens, com os quais ele dividiu celas no navio-prisão “Manaus”, com destino ao Rio de Janeiro; na Colônia Correcional de Ilha Grande e na Casa de Detenção. O levantamento foi utilizado para a filmagem de Memórias do cárcere, em 1984, uma das obras primas do cineasta. São 237 nomes de presos políticos e comuns retirados do anonimato. O livro, em 4 volumes, chegou a causar problemas com a cúpula do Partido Comunista, cujo relato expunha alguns procedimentos não recomendados praticados pelo “partidão” e teve a interferência da família para manter a obra tal como foi escrita pelo autor.

 

Solto em 1937, passou a viver no Rio de Janeiro, publicou Vidas secas (1938) e voltou ao magistério como inspetor federal de ensino. Trabalhou também como copidesque em alguns jornais do Rio de Janeiro. Em maio a “Revista Acadêmica” dedicou-lhe uma em edição especial (ano 3, nº 27) com 13 artigos. No mesmo ano recebeu o prêmio “Literatura Infantil”, do Ministério da Educação, pelo livro A terra dos meninos pelados. Em 1940, começou a entrar em contato com o Partido Comunista, através da revista “Diretrizes”, junto com Álvaro Moreira, Joel Silveira, José Lins do Rego. A ficha de afiliação seria assinada em 1945. Na comemoração de seus anos, em 1942, o romance Brandão entre o mar e o amor, escrito em parceria com Jorge Amado, José Lins do Rego, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, foi publicado pela Livraria Martins. No mesmo ano, reaparece o memorialista com o lançamento do livro Infância. Por essa época, recebeu um aporte crítico de peso. Antonio Cândido publicou uma série de 5 artigos sobre sua obra no jornal “Diário de São Paulo”, obtendo uma resposta do autor. O material transformou-se no livro Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos.

 

Em 1951 foi eleito presidente da UBE-União Brasileira de Escritores e, no ano seguinte, junto com a esposa, empreende uma viagem pela Europa, que se estende até a Rússia. Tais viagens foram relatadas no livro de crônicas:  Viagem, publicação póstuma da Ed. José Olympio em 1954. Em seguida viajou até Buenos Aires, onde foi submetido a um tratamento de pulmão. Foi operado, mas os médicos não ficaram otimistas com o resultado. O aniversário de 60 anos foi lembrado em sessão solene da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde foi representado por sua filha Clara Ramos. Em janeiro de 1953, foi internado na Casa de Saúde São Vitor, onde vem a falecer vitimado por um câncer, em 20 de março.  Mestre Graça teve alguns livros publicados e muitas homenagens e prêmios postumamente. Vale destacar: Prêmio da Fundação William Faulkner (EUA), tendo o Vidas secas, como livro representativo da literatura brasileira contemporânea (1962); Prêmios “Catholique International du Cinema” (Paris) e “Ciudad de Valladolid (Espanha), concedidos a Nelson Pereira dos Santos, pela adaptação para o cinema de Vidas Secas (1964); Personalidade Alagoana do Século XX (2000);  Prêmio Nossa Gente, Nossas Letras (2003) e em 2013 foi escolhido pelo Governo Federal para O PNBE-Programa Nacional Biblioteca da Escola, com o lifo Memórias do cárcere.

 

Ainda em 2013, em comemoração os 120 anos de seu nascimento, a Editora Record publicou toda sua obra e um livro inédito: Garranchos, com mais de 80 textos produzidos entre 1910-1950. Ao mesmo tempo, a editora realizou, em São Paulo, Belo Horizonte e Recife, seminários sobre o autor. No ano seguinte, a mesma editora publicou o livro Conversas, com 45 entrevistas, enquetes, ”causos” e depoimentos do autor, permitindo a visão de outro Graciliano Ramos, para além da imagem de um homem calado e avesso ao convívio social. No mesmo ano, foi o autor homenageado na FLIP-Festa Literária Internacional de Parati.

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