[ Horizonte Tempestuoso na Rota da Seda ]

04.12.2017

Sergio Xavier Ferolla

Enquanto os brasileiros acompanham, estupefatos, o degradante espetáculo político doméstico, no cenário internacional os países ocidentais têm a atenção voltada parao complexo cenário asiático, com seu histórico de relacionamentos conflituosos.

É nesse ambiente de incredulidade e apreensão que nosso país anseia pela firme atuação do Ministério Público e da Polícia Federal, para que as severas punições a tão abjetos homens públicos e seus comparsas criminosos possam viabilizar a necessária renovação política a partir de 2019.

No entanto, tão logo seja superada nossa crise institucional e o Brasil possa retomar o caminho do desenvolvimento industrial e social, ampliar parcerias e oferecer produtos competitivos no diversificado mercado mundial, a estabilidade no contexto das nações também será condição essencial.

Por essa razão os brasileiros também acompanham com preocupação o que vem ocorrendo nos países do Leste e Oriente Médio. Desestabilizados, em sua maioria, por políticas de dominação associadas a erráticas estratégias comerciais e militares, tais regiões reavivam ódios históricos.

Há décadas tornou-se lugar comum, no Ocidente, versões baseadas em infundadas divulgações pela mídia, as quais, avalizadas pela academia, acabaram influenciando na formação cultural e ideológica de muitas gerações. Uma visão retrospectiva da história nos revela textos valorizando glórias e interesses dos poderosos e, assim sendo, para se extrair uma correta versão dos fatos, inclusive da era moderna, será essencial analisá-los com isenção e espírito crítico.

Desde épocas remotas, como não poderia haver história sem escritos registrando acontecimentos e manifestações culturais, os estudiosos buscaram referências no Antigo Testamento da Bíblia, considerado como o livro mais antigo do mundo. Mas limitados a tão respeitada fonte de informação e absortos com a expansão do cristianismo no espaço dominado pelo Império Romano, os historiadores se ativeram aos épicos acontecimentos no continente europeu e os gloriosos feitos nas regiões subjugadas.

Como ao poder central interessava, principalmente, conquistas para exploração e segurança das fronteiras, os povos da periferia eram genericamente referidos como bárbaros. Essa míope visão imperial se consagrou, à época, com a designação de Mar Mediterrâneo ao oceano que os separava da África negra ao Sul e da perigosa região do Oriente Médio. Para os senhores imperiais, o “Mediterranean” era o “meio do mundo”, no literal significado latino.

Numa segunda etapa, as conquistas militares possibilitaram a expansão dos estudos para o Norte da África. Com a decifração dos hieróglifos os pesquisadores se extasiaram com a história dos faraós e seus deslumbrantes monumentos. Posteriormente, as descobertas dos navegadores Cristóvão Colombo e Vasco da Gama, no Século XV, ampliaram aquela falsa concepção de ser o território europeu o centro do mundo civilizado, restando aos povos a Oeste e a Leste a condição de futuras colônias a serem exploradas.

Ainda na Idade Média, o grande deserto sírio árabe, que se interpunha na marcha dos conquistadores vindos do continente europeu, também fez com que fossem relegados ao segundo plano os territórios ali situados. Sobre a “Mesopotâmia”, no entanto, região irrigada pelos rios Eufrates e Tigre, os escritos gregos e a própria Bíblia já citavam a grande Torre de Babel e faziam referência aos implacáveis “assírios”, tão amaldiçoados pelos profetas da Palestina.

No Século XVIII, com o desenvolvimento das máquinas a vapor pelo inglês James Watt, em 1769, mola propulsora da “Primeira Revolução Industrial”, iniciou-se a dinâmica da era moderna. Com navios insuperáveis em eficiência, nas batalhas e no transporte de cargas, o Império Inglês pode se expandir pela Ásia e Oriente Médio, despertando a curiosidade dos conquistadores pelas ruínas de monumentais edificações.

     As conquistas também abriram caminho para exploradores que, a partir do Século XIX, já identificavam esparsos registros e relíquias arqueológicas. Inicialmente, estimulados por simples motivação de posse, eles coletaram na topografia predominantemente baixa da Mesopotâmia, tijolos e placas de argila com estranhas ranhuras. Grande parte desse curioso acervo foi levado para um museu britânico.

     Os arranjos em baixo relevo e com o formato de cunhas despertavam especial interesse dos historiadores, ao considerarem a possibilidade de representarem uma forma rudimentar de escrita. Por isso, desde 1802 um jovem professor alemão da Universidade de Göttingen, Georg Friedrich Grotefend, buscava decifrar o significado daquela sequência de símbolos. Em 1830, vinte anos antes da famosa decifração dos hieróglifos egípcios por Champollion, Grotefend acabou por identificar a escrita “cuneiforme”, criada por uma civilização que ali havia florescido e brilhado por cerca de trinta séculos. Incompreensivelmente, nomes de nobres, fatos históricos e princípios religiosos não mereceram a necessária atenção dos doutores em ciências da sua Universidade.

     Mas tudo mudou setenta anos depois quando, em 1872, o inglês George Smith, devotado ao estudo dos “assírios” e seu domínio na Mesopotâmia, valendo-se da descoberta de Grotefend, identificou num dos tijolos relatos sobre o Dilúvio, idênticos ao da Bíblia. A partir daí abriu-se um vasto e, até então, inexplorado horizonte para os historiadores, pela confirmação de primitivos atores na história da humanidade, milênios antes da era cristã.

     Aqueles milhares de blocos, guardados no Museu Britânico, passaram a compor extensa biblioteca sobre povos e culturas, com informações minuciosas de portentosas civilizações como a Babilônia e a Pérsia. Também esclareceram que, durante seus longos períodos de conquistas e dominação, esses impérios desbravaram estratégicos caminhos, não só para ações militares como para a circulação de mercadorias com os povos ao Norte.

     Daquela região nas estepes, de gente que circulava como andarilhos e se protegia em simples tendas, recebiam, além dos produtos agrícolas de interesse das sociedades urbanizadas, grande quantidade de cavalos domesticados, componente essencial para o transporte e as forças militares. Nesse intercâmbio, muito longe das referências como bárbaros, em regiões como o baixo Volga, a Criméia e no entorno do Mar Cáspio constatavam haver organização, imperavam regras e uma primitiva economia.

     Grandes eventos se sucederam no complexo ambiente das estepes, sendo importante destacar a atuação dos “mongóis”, também tratados como “tártaros”. Na segunda metade do Século XII, o antigo pastor “Temudjin” acabou se consagrando Imperador, após subjugar e unificar as demais tribos da sua etnia. Autodenominando-se “Genghis Khan”, o “Grão-Cã” dos mongóis notabilizou-se como vitorioso e sanguinário guerreiro. No ano de 1221, sob o comando de seus dois filhos, os mongóis avançaram como um raio através do Afeganistão e da Pérsia, deixando um rastro de destruição e a execução de 90 % da população. “Gêngis-Cã”, na grafia em português, morreu em 1227, tendo seu filho “Ogodai”, a partir de 1230, se tornado o novo “Supremo Líder”.

     Sob sua liderança foram intensificados os ataques na Ásia Central, ocasião em que superou, inclusive, os feitos do Grande Alexandre da Pérsia em termos de escala e velocidade nas conquistas avassaladoras. Avançando pelas estepes, conquistaram territórios da atual Federação Russa, onde saquearam cidades e destruíram templos, queimando-os com seus ocupantes.

     Em 1241 os guerreiros mongóis prosseguiram avançando na direção do continente europeu. Dividiram suas forças em duas frentes e levaram o terror aos atuais países Polônia e Hungria, o que motivou o Papa Inocente IV a enviar um emissário propondo acordos de paz, para que não atacassem as regiões da cristandade. Por razões diversas os avanços para Oeste foram atenuados e com o falecimento de Ogodai em 1241 e do seu sucessor em 1248, arrefeceu-se a avalanche mongol.

     Nesse longo período, os conquistadores mongóis tiveram a oportunidade de conhecer técnicas e copiar desenhos das catapultas empregadas pelos Cruzados na Terra Santa. A absorção dessas tecnologias pioneiras lhes capacitou utilizá-las com sucesso na conquista de objetivos existentes milhares de quilômetros a Leste, quando submeteram a península Coreana, o Tibete, o Paquistão e a parte Setentrional da Índia. Na mesma ocasião desfecharam destruidor ataque a Bagdá, sede do Califado Árabe, cidade considerada, na época, como a mais rica e culta do mundo.

     No Século XIII, após consolidado o domínio sobre a China, Kublai Khan”, o quinto Grande Khan, fundou a “Dinastia Mongol”, que adotou o “Imperial Título de Yuan”. Como sede selecionou o ponto estratégico onde está edificada a atual cidade de Pequim.

     Paralelamente a tantos trágicos eventos na Rota da Seda, por aqueles caminhos, partindo do Oriente Médio em direção ao Nordeste, bem como seguindo do Cáucaso para o Mar Cáspio, também circularam destemidos comerciantes e missionários. Cruzando as exóticas e conturbadas regiões, onde atualmente  encontramos países como o Uzbequistão, Quirguistão e Turcomenistão, esses pioneiros viabilizaram a propagação das mais influentes correntes religiosas, como o Hinduísmo, o Budismo, o Judaísmo, o nascente Cristianismo e alguns séculos após, o Islamismo.

     Ainda na “Idade Média”, visando a China como objetivo final, os mercadores se interessavam por tecidos como a seda e especiarias luxuosas destinadas aos abastados da elite do continente europeu. A primeira divulgação dessas jornadas, no seio do decadente Império Romano, ocorreu na fase em que as poderosas cidades costeiras Pisa, Veneza e Genova se digladiavam por predomínio nas rotas marítimas.

     Em 1282 Genova havia  destruído a frota de Pisa e entre seus prisioneiros se encontrava um tal Rustichello. Após uma década de isolamento, ele acabou se tornando amigo de um novo prisioneiro dos genoveses, que dessa vez haviam sobrepujado Veneza no Mar Adriático. Na prisão Rustichello registrou as memórias do companheiro Marco, aventureiro e comerciante veneziano. Tendo residido na China por 17 anos, seu companheiro lhe revelou ter conhecido o fundador da dinastia Yuan, que dominou grande parte da Ásia Oriental.

     Sob a forma de um manuscrito intitulado “As Aventuras de Marco Polo”, o livro rapidamente se espalhou entre as elites do continente. Ao retratar as jornadas de Marco, o manuscrito fornecia, aos ocidentais, o primeiro relato sobre o Extremo Oriente, a China, a Índia e o Japão. No Século XIX, o geólogo alemão Ferdinand von Richthofen, tio do famoso piloto da Primeira Grande Guerra que recebeu o cognome de “Barão Vermelho”, criou a expressão “Rota da Seda” para identificar as estradas do Leste.

     Nos dias atuais, na “Rota da Seda”, a meio caminho em direção à China, destaca-se a riqueza da indústria petrolífera no Mar Cáspio, sendo a cidade de Baku, capital do Azerbaijão, proeminente polo cultural e empresarial. Partem dessa região os importantes dutos da indústria petrolífera, principal supridora de energia para o continente europeu. No entorno, porém, a região é palco de regimes instáveis e violentos que desafiam a paz regional, como o Afeganistão.

     Complexas questões geopolíticas levam as potências militares do Ocidente a observarem o Oriente com admiração e receio. A República Popular da  Índia, com a segunda maior população do mundo, hinduísta e budista, surpreende pela evolução social e tecnológica,inclusive na área nuclear. Mas são constantes as tensões fronteiriças com o vizinho Paquistão, muçulmano e, também, potência nuclear.

     Nos confins a Leste, a China, com a maior população do planeta, surpreende ao assumir a posição de segunda maior economia no mercado internacional, aliada a sólido desenvolvimento tecnológico e respeitável poderio militar. Sua relevância, no entanto, longe de constituir fator de estabilidade, estimula tensões no complexo cenário asiático, pelas disputas territoriais com a Índia, Vietnam e Japão.

     Nesse ano de 2017, no Congresso do Partido Comunista da China, o Presidente Xi Jinping, após citar por várias vezes a expressão “grande potência”, afirmou que o país “se tornará potência global líder” e “terá posição de destaque entre as nações”. Para ganhar influência e buscar ocupar o vácuo aberto pelo atual governo norte americano, a China, usando opoder do dinheiro, criou o “Banco de Investimento em infraestrutura da Ásia” e o “Novo Banco de Desenvolvimento”, conhecido como “Banco dos BRICS”.

     Numa ousada expansão pela “Nova Rota da Seda”, também designada “Beltand Road Iniciative”, foram reservados 100 bilhões de dólares através dos bancos chineses para o financiamento de pontes, estradas, portos e projetos energéticos em mais de 60 países.

     Buscando manter dinâmico seu intercâmbio com os aliados, a China tem investido em estradas e portos em países como Paquistão, Sri Lanka, Myanmar e Bangladesh. Tal estratégia geopolítica, cognominada “Cordão de Pérolas”, insere-se na ambição da China em desenvolver um colar de facilidades portuárias através do Oceano Índico, até a África. Sob o ponto de vista de Pequim, no entanto, seuverdadeiro motivo é assegurar um caminho crucial paraa exportação de manufaturas e importação de insumos energéticos. Mas a história jádemonstrouque essas rotas alternativas, como no Império Persa, também podem atender à logística militar.

     Nesse contexto, uma estratégica posição para as rotas marítimas é a cidade de Singapura. Mesmo sendo um Estado independente e tendo a maioria da população constituída de chineses, seu governo costuma aplicar um jogo pendular entre Oriente e Ocidente. Com indiscutível controle sobre o Estreito de Málaga, ligação estratégica entre o Oceano Índico e o Pacífico, qualquer forma de bloqueio, num eventual conflito,inviabilizaria a importação de petróleo e outras “commodities” pela China.

     Ciente dessa vulnerabilidade, na última década a China tem investido em linhas de dutos capazes de suprir a importação de óleo e gás de fornecedores na Rússia, Cazaquistão e Paquistão. Também a Noroeste do seu território, na remota província autônoma de “Sinkiang”, próxima do Tadjiquistão, a China poderá dispor de alternativa terrestre numa das entradas da antiga “Rota da Seda”.

     Frente ao Japão, enfrentamentos históricos criaram cicatrizes difíceis de serem sanadas. Por certos caprichos que o destino nos reserva, na primeira década do Século XXI, aos carismáticos e então mandatários dos dois países, “Shinzo Abe” e “Xi Jinping”, foram reservadas recordações nada amistosas, em meio às tensas negociações diplomáticas que culminaram com pedidos de perdão da parte dos japoneses.

    Testemunhos de vítimas civis e registros formais no seio da ONU confirmaram atos criminosos envolvendo seus parentes mais próximos, em lados opostos na guerra de 1930. Enquanto o pai de Xi, subordinado a “MaoTse-tung”, era derrotado na luta em defesa da Manchúria, ao avô de Abe, “Nobusuke Kishi”, chefe dos vitoriosos combatentes japoneses, coube a missão de administrar uma ocupação territorial considerada violadora de princípios éticos e direitos humanos.

     É nesse contexto que o Japão, juntamente com os Estados Unidos, seu importante e essencial aliado, acompanha as confrontações decorrentes do interesse chinês pelo maior domínio do mar entre os dois países. Os conflitos em torno das ilhas “Senkaku-Diaoyu” levaram o governo chinês a criar uma “ADIZ”, “Zona de Identificação de Defesa Aérea”, para quaisquer aeronaves que pretendam sobrevoar o setor do Mar da China Oriental, onde se localizam as disputadas ilhas.

     Tal pretensão geopolítica provocou exacerbada reação norte-americana, por limitar o livre acesso a uma área estratégica para seu poderio militar aquartelado e operante na região. As possíveis consequências do desrespeito norte-americano à determinação de prévia autorização para suas aeronaves militares, foram claramente demonstradas em agosto de 2014. Naquele dia, um avião de Caça chinês interceptou uma aeronave americana a 135 milhas da ilha “Hainan”, numa operação classificada pelo Departamento de Defesa  como “muito próxima e muito perigosa”.

     A mídia tem destacado as provocações belicistas da Coréia do Norte contra a Coréia do Sul e o Japão. Como aliada da China, tais ações agravam as históricas tensões no cenário asiático. Independente dos reais motivos do conflito e possíveis argumentos dos contendores, as grosseiras declarações do Presidente Americano, num bate boca irresponsável com o agressivo e imprevisível ditador norte coreano, tem estimulado a ação de grupos, nada éticos, no submundo da geopolítica.

     Nesse final de 2017, em visita à China e à Coréia do Sul, o Presidente americano deve ter constatado a desaprovação, oficial e pública, para sua inadequada verborragia. Como posicionamento derradeiro, no último dia 15 de novembro o líder do partido governista sul-coreano, “Choo Mi-ae”, declarou que os EEUU não deve, “sob nenhuma circunstância”, adotar ações militares sem o consentimento da Coréia do Sul.

     Por estar a Península Coreana inserida numa sensível fronteira entre a China e a Federação Russa, eventual conflito na região, além das incontáveis vítimas humanas e prejuízos materiais, poderá desarticular toda uma infraestrutura produtiva e comercial, em detrimento da humanidade. Essa sombria possibilidade impõe redobrada cautela à diplomacia internacional, na busca de caminhos capazes de minimizar iniciativas unilaterais danosas e seus consequentes reflexos no contexto das nações pacíficas e soberanas.

     A diversidade de posicionamento entre as potências militares, especialmente as equipadas com armamento nuclear, reflete um consenso de não aceitação ao superado conceito de poder hegemônico unilateral, que já causou tantos malefícios à humanidade. A grande incógnita nessa complexa equação do momento será encontrar um almejado ponto de equilíbrio no contexto do nebulosoe ameaçador cenário do mundo moderno.