[ João Cabral de Melo Neto – PERNAMBUCANOS ILUSTRES – LV ]

16.11.2017

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife, em 9/1/1920. Diplomata e um dos maiores poetas da língua portuguesa. Oriundo de uma aristocrática família pernambucana, é primo de Manuel Bandeira e de Gilberto Freyre. Passou toda a infância em engenhos de açúcar nas cidades de São Lourenço da Mata e Moreno. Com a mudança da família para Recife, em 1930, iniciou o curso primário no Colégio Marista.

Aos 15 anos seu talento não despontou na poesia e sim no futebol. Foi campeão juvenil pelo Santa Cruz. Trabalhou na Associação Comercial de Pernambuco e no Departamento de Estatística do Estado. O talento para a literatura viria aos 18 anos, quando começou a frequentar as tertúlias do Café Lafayette, famoso “point” de intelectuais do Recife. Lá fez bons amigos, como o pintor Vicente do Rego Monteiro, que regressara de Paris, devido a eclosão da II Guerra Mundial; o poeta e crítico Willy Lewin, dono de uma grande biblioteca literária e o poeta e engenheiro Joaquim Cardoso, que exerceram forte influência em sua carreira.     

Aos 20 anos foi morar no Rio de Janeiro, e logo se integra ao círculo de intelectuais que se reunia no consultório do médico e poeta Jorge de Lima junto com Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e outros poetas.  No ano seguinte, voltou ao Recife para participar do Congresso de Poesia, onde apresentou suas Considerações sobre o poeta dormindo. Em 1942 publicou seu primeiro livro, Pedra do Sono, com forte teor surrealista. Foi convocado para servir à  FEB-Força Expedicionária Brasileira, mas é dispensado por motivo de saúde. Em seguida foi aprovado em concurso e nomeado Assistente de Seleção do DASP-Departamento de Administração do Serviço Público. Passou a frequentar a roda de intelectuais, agora alargada no “Café Amarelinho” e “Café Vermelhinho”, no Centro do Rio e publica o segundo livro  Os três mal-amados, em 1943.

Dois anos após, seu estilo poético vai se afirmando naquilo que viria a ser sua marca registrada: uma poesia concisa e precisa, demonstrada no livro  O engenheiro numa edição custeada por seu amigo Augusto Frederico Schmidt. Necessitando de emprego, fez concurso para a carreira diplomática e foi nomeado em 1945 para trabalhar no Departamento Cultural do Itamaraty, depois no Departamento Político e, posteriormente, na comissão de Organismos Internacionais. Em fevereiro de 1946, casou-se com Stella Maria Barbosa de Oliveira e em dezembro, nasce seu primeiro filho, Rodrigo. Em 1947 foi transferido para o Consulado Geral em Barcelona, como vice-cônsul. 

Em paralelo a função diplomática, passou a editar  numa pequena tipografia artesanal alguns livros de poetas brasileiros e espanhóis. Nessa prensa manual imprime Psicologia da composição. Nos dois anos seguintes ganhou mais dois filhos: Inês e Luiz. Tornou-se amigo de Miró e escreveu um ensaio sobre o pintor, publicado em sua tipografia. Em 1950, foi transferido para o Consulado Geral, em Londres, e publica O cão sem plumas. Dois anos depois retorna ao Brasil para responder ao inquérito, onde é acusado de subversão. O PCB-Partido Comunista estava na ilegalidade e ele foi acusado de criar uma “célula” no MRE-Ministério das Relações Exteriores, junto com mais quatro diplomatas. Foram afastados do Itamaraty em 20/3/1953, mas retornaram em 1954 após recorrerem ao STF-Supremo Tribunal Federal.

Em 1954 recebeu o Prêmio José de Anchieta do IV Centenário de São Paulo, com o livro O Rio, escrito no ano anterior. Em seguida volta a residir no Recife, onde é recebido em sessão solene pela Câmara Municipal. No mesmo ano a Editora Orfeu lançou seus Poemas Reunidos.. Por esta época já integrava a plêiade dos poetas brasileiros, com a publicação do livro Duas águas, publicado pela José Olympio Editora em 1956. O livro reúne seus livros anteriores e os inéditos: Paisagens com figuras, Uma faca só lâmina Morte e vida Severina, “um auto de natal” solicitado pela dramaturga Maria Clara Machado, do teatro “O Tablado”. Ela achou o auto muito triste e não encenou. Mais tarde, Roberto Freire, diretor do TUCA-Teatro de Universidade Católica(SP), pediu para Chico Buarque de Holanda  musicar o texto. A peça foi encenada em diversas cidades brasileiras e correu o mundo, tornando-se sua obra mais conhecida. Representou o Brasil no Festival de Nancy, onde ganhou o prêmio de Melhor Autor Vivo do Festival. Posteriormente a peça foi transposta para disco (LP), cinema e série especial de TV.

Pouco depois foi removido, de novo, para Barcelona na condição de cônsul adjunto e com a missão de fazer pesquisas históricas no Arquivo das Índias de Sevilha, onde passa a residir. É o lugar onde se deu melhor, devido as semelhanças com o Recife. Em 1958 foi removido para o Consulado Geral em Marselha, na França. Recebeu o prêmio de melhor autor no Festival de Teatro do Estudante, no Recife. Em 1960, seu livro Quaderna foi publicado em Lisboa, quando ocorreu nova remoção. Agora para Madrid, como secretário da Embaixada. A vida de diplomata é compartilhada com o lançamento de livros. Em Madrid foi publicado Dois parlamentos.   

Em 1961, foi nomeado chefe de gabinete do ministro da Agricultura, Romero Cabral da Costa, e passa a residir em Brasília. Com o fim do governo Jânio Quadros, poucos meses depois, é removido outra vez para a embaixada em Madri. A Editora do Autor, de Rubem Braga e Fernando Sabinopublica Terceira feira, livro que reúne Quaderna, Dois parlamentos, ainda inéditos no Brasil, e um novo livro: Serial. Com a mudança do consulado brasileiro de Cádiz para Sevilha,  mudou-se para essa cidade, onde reside pela segunda vez. Continuando seu vai-e-vem pelo mundo, em 1964 é removido como conselheiro para a Delegação do Brasil junto às Nações Unidas, em Genebra. Nesse ano nasce seu quinto filho, João.

Em seguida publicou A educação pela pedra, pelo qual recebeu três prêmios “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro; “Luisa Cláudio de Souza”, do Pen Club e o prêmio do Instituto Nacional do Livro. Em 1967 foi promovido a cônsul geral, vindo a ocupar o Consulado em Barcelona. No ano seguinte publica suas Poesias completas e é eleito para a ABL-Academia Brasileira de Letras. Uma nova transferência se deu em 1969 para a embaixada de Assunção, como ministro conselheiro. No mesmo ano Tornou-se membro da Hispania Society of América. e recebeu a comenda da As mudanças são uma constante em sua vida diplomática. Em 1970, foi nomeado embaixador em Dacar, Senegal, cargo exercido cumulativamente com o de embaixador da Mauritânia, no Mali e na Giné-Conakry.

Tão constante como as mudanças devido a carreira diplomática, são as condecorações recebidas: Grã-Cruz da Ordem de Rio Branco (1974),  Grande Oficial da Ordem do Mérito do Senegal (1976), Grã-Cruz da Ordem do Mérito de Guararapes (1980),  Grã-Cruz da Ordem Zila Mamede (1980),  Doutor Honoris Causa das Universidades Federal do Rio Grande do Norte (1982) e Federal de Pernambuco (1986)., Medalha Carneiro Vilela (1985), Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (1986), Comenda do Mérito Aeronáutico, Grande-Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada de Portugal (1987), Grã-Cruz do Equador,  Medalha de Humanidades do Nordeste, Ordem Militar de Cristo de Portugal (1998) Ordem de Mérito Pernambucano, Grã-Cruz da Ordem do Mérito Judiciário e do Trabalho.

São constantes também as premiações literárias:  Prêmio Olavo Bilac da ABL-Academia Brasileira de Letras (1955), Grande Prêmio de Crítica da APCA-Associação Paulista de Críticos de Arte (1975), Prêmio Moinho Recife (1984), Prêmio da Bienal Nestlé de Literatura (1988), Prêmio Camões, outorgado pelos governos do Brasil e  Portugal (1990), Pedro Nava (1991), Casa das Américas, pelo Governo do Estado de São Paulo (1992); Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma (1992), Prêmio Jabuti, da  Câmara Brasileira do Livro (1993).,  Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (1994), Prêmio Golfinho de Ouro do Estado do Rio de Janeiro, Criadores de Cultura, da Prefeitura do Recife. Vale lembrar que foi o autor brasileiro mais cotado para receber o Prêmio Nobel de Literatura

Continuando com as remoções diplomáticas, foi nomeado embaixador em Quito, Equador, em 1980 ano em que publica A escola das facas. Em 1982 vai para a cidade do Porto, em Portugal, como cônsul geral. Em 1986, com o falecimento de sua mulher, casou-se em segundas núpcias com a poetisa Marly de Oliveira. Em 1987 foi removido para o Rio de Janeiro e publicou  Crime na Calle Relator. Em Recife, no ano de 1988, lança sua antologia Poemas pernambucanos. Publica, também, o segundo volume de poesias completas: Museu de tudo e depois.

A década de 1990 inicia com a aposentadoria do diplomata e vai encontrar sua saúde e o ânimo fragilizados. Ao saber que sofria de uma doença degenerativa incurável, que faria sua visão desaparecer aos poucos, o poeta anunciou que ia parar de escrever. Já em 1990, com a finalidade de ajudá-lo a vencer os males físicos e a depressão, sua esposa passa a escrever alguns textos ditados pelo poeta. É assim que surgem mais dois livros: Primeiros poemas (1990) e Sevilha andando. O último livro publicado se deu no ano de seu falecimento – Tecendo a Manhã -, em 9/10/1999, aos 79 anos, reconhecido como um de seus melhores poemas. Neste mesmo ano é distinguido com uma “edição da plêiade”, publicada pela Editora Nova Aguilar: João Cabral de Melo Neto, Obra Completa, uma distinção dirigida à poucos autores brasileiros. Mais tarde, Carlos William Leite, editor da  conceituada revista (digital) “Bula”, realizou uma enquete entre seus leitores, pedindo para apontar seus poemas mais significativos, e publicou os 10 melhores poemas de João Cabral de Melo Neto.