[ JORNALISMO LITERÁRIO ]

15.05.2017

Por José Domingos Brito

Nem todos os escritores consideram o Jornalismo um gênero literário. André Gide, por exemplo, acha que jornalismo é uma coisa e literatura é outra. Entre nós, Alceu Amoroso Lima e Antônio Olinto defendem com veemência que trata-se de um gênero literário. Há, inclusive, quem acredite que Euclides da Cunha seja o pivô dessa polêmica. O crítico literário Marcelo Moraes Caetano afirma: “há quem torça o nariz para reconhecer o jornalismo como gênero literário, razão principal, aliás, pela qual muitos não dizem que ele foi jornalista, porque consideram que isso seria diminuir ou amesquinha sua grandiosidade”.

Independente dessa polêmica, o jornalismo literário é um gênero que vem se destacando desde meados do século passado. No Brasil ele aplicado exemplarmente com a revista Realidade, em 1966. Antes e depois disso, Truman Capote, Gay Talese e Tom Wolfe, entre outros, aplicaram-no com maestria nos EUA. No entanto Edvaldo Pereira Lima defende que o “New journalism” americano foi a manifestação de um momento do Jornalismo Literário. Isso quer dizer que o Jornalismo Literário, como forma narrativa, de captação do real, já existia antes e continua existindo após o New Journalism. Para confirmar esta afirmação, José Hamilton Ribeiro declarou que na redação da “Realidade” (1966) eles não tomaram conhecimento do que os norte-americanos estavam fazendo. Logo, o Jornalismo Literário no Brasil não foi influenciado pelos norte-americanos.

Quando verificamos que Os sertões (1902) foi escrito a partir das anotações de uma série de reportagens sob o título “Diário de uma expedição” publicada em agosto de 1897 n’O Estado de São Paulo, relatando os últimos dias de Canudos, veremos que Euclides da Cunha escreveu um romance de “não-ficção”, bem antes de Truman Capote, quando escreveu A sangue frio. Porém, não é um autor lembrado quando se fala de jornalismo literário, e neste sentido parece que Marcelo Moraes Caetano tem razão.

Logo após o curto período de “Realidade” surgiram diversas revistas onde as matérias eram pautadas sob a ótica do Jornalismo Literário: Ex- (1974) Versus (1975), Repórter (1978), Plural (1979), Careta (1980) entre outras. Em 1966, Marcos Faerman levou-o para o “Jornal da tarde”, um dos jornais que mais apostaram no Jornalismo Literário. Desse modo, a imprensa brasileira tem uma longa tradição nesta área, contando hoje com uma Academia Brasileira de Jornalismo Literário. No entanto e paradoxalmente, hoje temos poucas revistas e nenhum jornal que privilegia o jornalismo literário. Temos apenas algumas como a revista “Piauí” (São Paulo), “Continente” (Recife) e “Revestrés” (Teresina). O que aconteceu com o Jornalismo Literário? Com a palavra, os teóricos das comunicações.