[ José Leite Lopes – PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXV ]

28.06.2017

Por José Domingos Brito

José Leite Lopes nasceu no Recife, em 28/10/1918. Físico e renomado cientista, fundador de importantes organismos dedicado às ciências. É reconhecido internacionalmente por suas contribuições à física teórica. Filho de José Ferreira Lopes e de Beatriz Coelho Leite, perdeu a mãe três dias após o nascimento e foi criado pela avó junto com os dois irmãos. Realizou os primeiros estudos no Colégio Marista, e iniciou a formação acadêmica na Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1939, onde se graduou em Química industrial. Em 1940 ingressou no curso de Física da Faculdade Nacional de Filosofia do Rio Janeiro, concluído em 1942.

Durante o curso de Física, lecionou no Instituto Lafayette e estagiou com Carlos Chagas, no Instituto de Biofísica. Ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Zerrener, em 1943, para estudar e trabalhar no Departamento de Física da Faculdade de Filosofia da USP. No ano seguinte iniciou o doutoramento na Universidade de Princeton, USA, onde trabalhou com alguns cientistas, como Einstein, Jauch, Pauli e Reichenbach. Sua tese de doutorado foi orientada pelo Prof. Wolfgang Pauli (Prêmio Nobel de Física). Em 1946 recebeu o título de PhD e foi nomeado professor de Física Teórica e Física Superior da Faculdade Nacional de Filosofia, onde realizou pesquisas em Eletrodinâmica em 1947. Manteve-se neste cargo até 1969, quando foi cassado pelo regime militar.

Em 1949, junto com César Lattes e outros pesquisadores, criou o CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, e no mesmo ano foi convidado por Oppenheimer para trabalhar no Advanced Study Institute de Princeton. Lá, junto com Feynman, publicou um trabalho sobre a descrição do deutron, pela teoria pseudo-escalar, com tratamento adequado à singularidade da força sensorial na origem. Em seguida, foi secretário científico da 1ª Conferência Internacional sobre Aplicações Pacíficas da Energia Atômica. A partir daí ficou conhecido também como pacifista, mantendo uma participação política.

A consagração internacional viria com a publicação do seu famoso artigo A Model of the Universal Fermi Interaction (1958), onde concluiu que se as interações fracas têm esta forma e se elas são os resultados da troca de bósons vetoriais entre os férmions, então estes bósons deveriam pertencer a uma mesma família, como os fótons que são também vetoriais. Neste trabalho foi previsto e provada a existência do chamado bóson Z0, uma partícula mediadora neutra nas interações fracas no núcleo de um átomo e criou uma equação abrindo caminho para a unificação eletrofraca. Algumas hipóteses fundamentais apresentadas serviram de base para estudos posteriores e foram confirmadas pelos cientistas Abdus Salam, Steve Weinberg e Sheldon Glascow, premiados (1979) com o Nobel de Física, pela publicação de um trabalho bastante semelhante ao desenvolvido por ele 20 anos antes, o que demonstra a injustiça política que permeia a premiação da Academia Sueca.

Além de pesquisador incansável, foi também articulador, fundador e diretor de destacadas instituições, tais como: CNEN-Comissão Nacional de Energia Nuclear, CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, FINEP- Financiadora de Estudos e Projetos, SBF-Sociedade Brasileira de Física, ELAF-Escola Latino-Americana de Física no Rio de Janeiro, para onde convidou para dar cursos físicos da estatura de Feynman, Yang, Laguarrique e Puppi. Para ele, a física a “mãe das ciências” e lutou para que os países subdesenvolvidos desenvolvessem mais pesquisas. Sempre se mostrou crítico à falta de incentivos à ciência no Brasil. Devido ao senso crítico, não era bem visto pelos militares que tomaram o poder em 1964.

Com o Golpe Militar, foi acusado de manter ligações com o Partido Comunista, sendo obrigado a viver como exilado na França. Em Paris, a convite de Maurice Lévy, foi professor da Faculdade de Ciências de Orsay até 1967. No ano seguinte retornou ao Brasil e passou a organizar o Instituto de Física da UFRJ, onde foi nomeado Diretor. As condições políticas do Brasil recrudesceram e ele foi novamente perseguido pelos militares. Foi vitimado pelo famigerado AI-5, teve os direitos políticos cassado e foi aposentado compulsoriamente em 1969. Prestigiado no exterior, aceitou o convite para lecionar na Carnegie-Mellon University (1969-1970) e na Universidade de Strasbourg, onde ficou de 1970 a 1986, onde acumulou o cargo de Vice-Diretor do Centro de Recherches Nucleaires de 1975 a 1978.

Publicou vários livros adotados em universidades de todo o mundo, tais como Fondements de la physique atomique (Hermann, 1967), Lectures on symmetries (Gordon & Breach, 1969) e Gauge Field Theories (Pergamon Press, 1981, 1983), Theorie relativiste de la gravitation (Masson, 1993) e Sources et Évolution de la Physique Quantique (em colaboração com B. Escoubès, Masson, 1995). Em 1989, recebeu da UNESCO o “Science Prize”, único físico brasileiro detentor dessa prestigiada premiação. Outras condecorações: Medalha da Universidade de Strasbourg (1986), Ordem Nacional do Mérito Científico (Brasília, 1994), Medalha Nacional de Ciências, Alvaro Alberto(1989).

Seu colega Amós Troper diz que “Leite Lopes é um apóstolo do homem total concebido no iluminismo, interligando o trabalho científico, político e artístico numa atividade coerente e unificada”. Mas poucos conhecem seu lado artístico, desenvolvido a partir da década de 1950. E não se trata apenas de uma atividade de lazer destinada a descarregar as tensões da vida. “Se constitui numa parceira entre arte e ciência, visando exaltar a civilização e a vida, bradando contra a ‘desespiritualização’ moderna e a morte”. São desenhos e pinturas, onde prevalecem paisagens, casario, figura humana, madonas, cristos, catedrais e vitrais, e cujo colorido revela alguma influência de seu conterrâneo Cícero Dias. Parte de sua produção artística foi apresentada na exposição “Espaços da Catedral Imaginária”, realizada pelos seus colegas, no hall do CBPF, em outubro de 1998, com a curadoria de Miriam de Carvalho e Francisco Caruso. Outra exposição intitulada “Construção e desconstrução: o mundo cósmico de Leite Lopes”, apresentando novas obras foi realizada pela Academia Brasileira de Ciências, em novembro de 2003, com a curadoria de Celeste Nogueira Campos.

Seu retorno definitivo ao Brasil se deu em 1985, com a promulgação da Anistia. Voltou a dirigir o CBPF, onde permaneceu como Pesquisador Titular até fins de dezembro de 2005, quando foi internado no Hospital Samaritano, devido a complicações de uma endoscopia. Faleceu em 12/06/2006, após seis meses em coma, por falência múltipla dos órgãos. Seu corpo foi enviado para velório no CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que ele ajudou a fundar e foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

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(Fonte)