[ Manuel Bandeira – ILUSTRES PERNAMBUCANOS – LIX ]

12.12.2017

Por José Domingos Brito
Esclarecimento: O painel dos ilustres pernambucanos está chegando ao final junto com o ano do Bicentenário da Revolução de 1817. Para isso, decidi iniciar o encerramento com poesia e bandeira, como manda o costume de encerrar-se as boas comemorações. Para o ato final, na próxima 3ª feira, será convidado um freire para fechar a solenidade.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no Recife em 19/4/1886. Crítico literário, professor, tradutor e um dos grandes poetas da língua portuguesa. Originário de uma tradicional família pernambucana. Aos 4 anos a família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ele passa a estudar no Colégio Pedro II. Ao concluir o curso de Humanidades, em 1903, a família foi morar em São Paulo, onde iniciou o curso de arquitetura na Escola Politécnica.

Interrompeu o curso em 1904, devido a tuberculose, e procurou tratamento em Campanha, Quixeramobim, Uruquê, Maranguape, Teresópolis e Petrópolis. Não conseguindo a cura por aqui, foi para a Suíça e ficou internado no Sanatório de Clavadel, onde permaneceu de junho de 1913 a outubro de 1914. Lá manteve contatos com o poeta Paul Éluard, também internado, e sua mulher Gala, que depois se casaria com Salvador Dali. Com o início da I Guerra Mundial, retornou ao Brasil e passou a residir no Rio de Janeiro. Em 1916 faleceu sua mãe, Francelina e no mesmo ano passou a escrever seu primeiro livro de poesias A Cinza das Horas, publicado em 1917, numa edição de 200 exemplares, com seus próprios recursos. Dois anos depois, publicou seu segundo livro, Carnaval, que despertou interesse nos paulistas que vieram a fazer a Semana de Arte Moderna, cujo verso diz: “Quero beber! Cantar asneiras / No esto brutal das bebedeiras / Que tudo emborca e faz em caco… / Evoé Baco!”. Um crítico do Recife escreveu no Diário de Pernambuco: “O sr. Bandeira conseguiu plenamente o que queria”. O comentário do crítico arrancou gargalhadas do poeta.

A partir de 1920, com o falecimento de seu pai, Manuel Carneiro, passou a levar uma vida social mais intensa. Numa reunião na casa de Ronald de Carvalho, em Copacabana, em 1921, conheceu Mário de Andrade e estavam presentes, entre outros, Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Osvaldo Orico. Passou a se corresponder com Mario de Andrade, foi convidado para participar da Semana de Arte Moderna de 1922, mas não pode ir. Na ocasião, Ronald de Carvalho lê seu poema Os Sapos, do livro Carnaval. No mesmo ano viajou a São Paulo e mantém contato com os principais participantes da “Semana”: Paulo Prado, Couto de Barros, Tácito de Almeida, Menotti Del Picchia, Luís Aranha, Rubens Borba de Morais e Yan de Almeida Prado. No Rio de Janeiro, seus contatos permanentes são com Jaime Ovalle, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Prudente de Morais, neto, Dante Milano.

Em 1924 publica, de novo às suas expensas, o livro Poesias, que reúne A Cinza das Horas, Carnaval e um novo livro, O Ritmo Dissoluto. Precisando trabalhar, colabora no “Mês Modernista”, série de trabalhos de modernistas publicado pelo jornal A Noite, em 1925, e escreve crítica musical para a revista “A Ideia Ilustrada”. Escreve também sobre música para a Ariel, de São Paulo, uma revista de cultura musical. Em seguida, a serviço de uma empresa jornalística, passou a viajar pelo Brasil. Em Pouso Alto (MG) conheceu Carlos Drummond de Andrade; viaja para os estados do Norte e Nordeste e passeia pelas cidades de Salvador, João Pessoa, Belém e São Luís. No ano seguinte visita Belo Horizonte e as cidades históricas de Minas Gerais. Ainda em busca de novos trabalhos, inicia uma colaboração semanal de crônicas no “Diário Nacional” e na “Revista de Antropofagia” (São Paulo), e em “A Província” (Recife), dirigido por Gilberto Freyre.

Em 1930 publicou Libertinagem, numa edição, mais uma vez, custeada pelo poeta. Seu nome vai se estabelecendo no cenário cultural do Rio, onde novos amigos vão surgindo. Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Cultura é um deles e convida-o para assumir o cargo de inspetor de ensino secundário. Ao completar 50 anos em 1936, os amigos publicam uma Homenagem a Manuel Bandeira, livro com poemas, estudos críticos e comentários dos principais escritores brasileiros. No mesmo ano publicou Estrela da Manhã e Crônicas da Província do Brasil. De 1938 a 1943, foi professor de literatura no Colégio D. Pedro II. Em 1940 entrou para a Academia Brasileira de Letras, e publicou suas Poesias Completas, com a inclusão da Lira dos Cinquent’Anos. Publica ainda Noções de História das Literaturas e, em separata da “Revista do Brasil”, A Autoria das Cartas Chilenas

Começou a fazer crítica de artes plásticas no jornal “A Manhã”, em 1941, e no ano seguinte é nomeado membro da Sociedade Filipe de Oliveira, ao mesmo tempo em que publica a edição dos Sonetos Completos e Poemas Escolhidos de Antero de Quental. Em seguida foi nomeado professor de literatura hispano-americana da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil. A “máquina” de publicar não pára e nos anos seguintes, publica Obras Poéticas de Gonçalves Dias, numa edição crítica e comentada e Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard, seguidos de Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos. Junto com as edições surgem as reedições; em 1948 foram reeditados três de seus livros: Poesias Completas, Poesias Escolhidas e Poemas Traduzidos, além da publicação de Mafuá do Malungo, impresso em Barcelona pelo amigo João Cabral de Melo Neto.

Em 1950, a pedido de amigos e apenas para compor a chapa, candidatou-se a deputado pelo PSB-Partido Socialista Brasileiro, mesmo sabendo que não tinha chances de eleger-se. As publicações continuam: o livro de poesias Opus 10 e a biografia de Gonçalves Dias. Por esta época passou a sentir dores e foi submetido a uma operação de cálculos no ureter. Em 1954 publicou um de seus poemas mais conhecidos: Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia e num balanço de sua produção poética, publica 50 Poemas escolhidos pelo autor. No ano seguinte, inicia uma colaboração como cronista no “Jornal do Brasil” e na “Folha da Manhã”, de São Paulo. Como se sabe, o poeta não vive só de poesia. O teatro também faz parte de seu trabalho. Desse modo, traduz as peças de Schiler (Maria Stuart), Shakespeare (Macbeth) e Jean Cocteau (La Machine Infernale). Com a aposentadoria em 1956, aproveita para traduzir mais peças: Juno and the Paycock, de Sean O’Casey, e The Rainmaker, de N. Richard Nash. Mas a vida não é só trabalho, e agora aposentado fez um tour de três meses pela Europa, visitando Londres, Paris e algumas cidades da Holanda.

Na volta, continuou com as crônicas no “Jornal do Brasil”, agora bissemanais, e na “Folha de São Paulo”. Prossegue com as traduções de peças: Colóquio sinfonieta (de Jean Tardieu), A Casamenteira (de Thorton Wilder) e Dom Juan Tenorio (de Zorrilla), e passa a ser homenageado com algumas edições especiais: Pasárgada, volume de poemas escolhidos, com ilustração de Aldemir Martins e sua obra completa em dois volumes – Poesia e Prosa -, pela Editora Aguilar, as prestigiadas “edições da Plêiade”. Em Salvador são publicadas, em edição artesanal, Estrela da Tarde e uma seleção de poemas de amor intitulada Alumbramentos. Por esta época sua obra começa a ser traduzida e publicada no exterior: a editora Pierre Seghers publica, em Paris, Poèmes, uma antologia de seus poemas e na coleção “Poètes d’Aujourd’hui”, o volume Manuel Bandeira. Nos EUA, a Charles Frank Publications edita A brief history of brazilian literature. Nesse período, publicou para a Editora El Ateneo as biografias de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves.

Ao completar 80 anos, em 1966, recebeu diversas homenagens, entre as quais a festa que a Editora José Olympio realizou em sua sede. Mais de mil pessoas são convidadas para assistirem o lançamento de um volume especial de Estrela da Vida Inteira (poesias completas e traduções de poesia) e Andorinha Andorinha (seleção de textos em prosa, organizada por Carlos Drummond de Andrade). Nessa etapa da vida, junta suas economias e compra uma casa em Teresópolis, a única de sua propriedade, a cidade que conheceu na infância. Já chegou a confessar que suas raízes mais profundas estavam fincadas em Petrópolis e não no Recife. Porém, não houve tempo de usufruí-la. Surgem os problemas de saúde, ele deixa seu apartamento na Avenida Beira-Mar e se transfere para o apartamento, em Copacabana, de Maria de Lourdes Heitor de Souza, sua companheira dos últimos anos. Faleceu em 13/10/1968 e foi sepultado no Mausoléu da Academia Brasileira de Letras.

Bem sei que o leitor vai sentir aqui a falta de uma análise/crítica literária sobre sua obra. Neste verbete não disponho de espaço para isso, nem seria possível se fazer um resumo satisfatório da montanha de escritos sobre seu legado literário. O leitor poderá encontrar todos estes escritos na Internet. No entanto, gostaria de opinar sobre sua poesia discordando do próprio poeta quando escreveu:

“Criou-me, desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde…
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!”

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