[ Maurício de Nassau – PERNAMBUCANOS HONORÁRIOS – IX ]

29.01.2018

João Maurício de Nassau-Siegen nasceu em 17/6/1604, em Dilemburg, cidade do condado de Nassau, do Sacro Império Romano-Germânico, (Alemanha). Oriundo de uma família de nobres neerlandeses, sua mãe Margaretha van Holstein, foi a princesa do Holstein-Sanderburg. Aos dois anos, a família mudou-se para Siegen, onde passou a infância. Os primeiros estudos se deram com seu pai, o conde João VII de Nassau. Aos 10 anos passou a receber uma sólida formação na escola que viria a ser a famosa Universidade da Basileia, Suíça. Dois anos após ingressou no Collegium Mauritianum, criado pelo seu cunhado Maurício de Hesse-Kassel, para os filhos da nobreza protestante. Além dos estudos básicos de retórica, história, filosofia, teologia astronomia, matemática e línguas (francês, italiano e espanhol), os alunos tinham aulas de montaria, música, dança e esgrima.

Ingressou na vida militar em 1621, a serviço dos Países Baixos e teve atuação destacada na Guerra dos Trinta Anos, contra a Espanha. Ainda jovem foi elevado ao posto de alferes de cavalaria. Em 1626 foi promovido a capitão e três anos depois a coronel. A partir de 1632 distinguiu-se em batalhas como a tomada de Maastricht e Schenckenschaus, confirmando seu prestígio e experiência militar, até se tornar cavaleiro da Ordem de São João, ligada à Reforma Protestante. Pouco depois iniciou a construção de um palácio em Haia, a Mauritshuis, ou “Casa de Maurício”, uma joia da arquitetura flamenga transformada em museu, em 1822, abriga hoje uma grande coleção de obras de arte. A construção da Mauritshuis deixou-o endividado, obrigando-o a aceitar o convite da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) para assumir o governo do Brasil holandês, mediante uma boa remuneração, além de participação nos lucros da Companhia.

Chegou ao Recife em 23/1/1637 e ficou encantado com as belezas do “novo mundo”. Trouxe consigo uma comitiva de artistas, entre os quais Franz Post e Albert Eckout, e cientistas, sendo bem recebido pelo holandeses que já ocupavam a cidade desde 1630, bem como pelo luso-brasileiros descontentes com a desordem e corrupção. No mês seguinte atacou o povoado de Porto Calvo e derrotou o último foco de resistência contra a ocupação holandesa. Em seguida, incorporou Sergipe, Paraiba, Rio Grande do Norte, Ceará e Maranhão aos domínios da WIC. Tratou de desbravar o interior e projetou, no Recife, a cidade Maurícia; promoveu melhorias urbanas; calçou ruas com pedras, proibiu o tráfego de carros de boi para não destruir as vias; criou um corpo de bombeiros voluntário; implantou o imposto territorial urbano; construiu casas e pontes, e palácios suntuosos como o Palácio de Friburgo, que lhe serviu de residência, contando com um aviário, jardim zoológico e um jardim botânico e implantou um serviço de coleta de lixo. Tais empreendimentos levam a crer que veio ao Brasil para ficar e construir uma nova civilização nos trópicos. Segundo o historiador Marcos Galindo, “Pernambuco nunca viveu outro momento com tanta importância no cenário universal”

Como governador até 1644, sua administração foi marcada pela construção de canais para evitar inundações, pontes, escolas, teatros, hospitais, asilos, estradas e fortes. Fundou uma imprensa, criou bibliotecas, museus e um observatório astronômico, transformando o Recife, de pequeno povoado de pescadores, numa cidade diferenciada no mundo naquela época. No plano econômico obteve grande sucesso com empréstimos para o restabelecimento de engenhos de açúcar e financiou a compra de novos escravos. Também protegeu os índios e proibiu o trabalho dos negros aos domingos e a separação dos casais na hora da venda. Proibiu, também, que os escravos fossem marcados a ferro e castigados com crueldade. Costumava dizer que “pode-se tosquiar a ovelha, mas não pode-se atingir a pele”. No plano social determinou que a justiça fosse igual para todos, holandeses e moradores da terra e respeitou as diferentes crenças religiosas. No plano político, fez uma reforma radical. Trocou as câmaras municipais que, no passado, eram controladas pelos grandes proprietários, por novas câmaras de “escabinos”, nas quais os artesãos, os comerciantes etc., também ganharam voz ativa.

Sua administração foi bem recebida pela população local, mas a partir de determinado momento, com tantos investimentos na cidade, ficou demonstrado que tinha planos de um governo pessoal, pretensões de se tornar príncipe e uma visão colonizadora diferenciada. A WIC percebeu que tinham interesses conflitantes, e chamou-o de volta à Holanda. A próspera colônia judaica estabelecida no Recife procurou-o com a finalidade de mantê-lo aqui e acenou com a possibilidade de cobrir o salário pago pela WIC, mas não houve jeito. Outro fator decisivo para seu retorno e o fim do domínio holandês no Brasil, foi a independência de Portugal do domínio espanhol, iniciado em 1580. Com isso, Nassau não pode mais capturar os navios que partiam carregados de açúcar do Rio de Janeiro e da Bahia para a Europa, que se constituía numa grande fonte de renda da WIC.

Sua viagem de volta foi marcada por uma festa de despedida apoteótica. No dia 11/5/1644, Nassau partiu do Recife, a cavalo, com destino à Paraíba, sendo saudado e aclamado por tropas perfiladas, autoridades e pelos povos habitantes daquele trajeto, inclusive os índios tapuias, que cuidaram de levá-lo nos ombros até a caravela com destino à Holanda no dia 23. Partiu numa esquadra de treze naus transportando uma carga avaliada em 2,6 milhões de florins. Sua bagagem pessoal ocupava duas naus: nela seguiam coleções de obras de arte, barris de conchas e seixos, botijas de farinha de mandioca, dentes de elefante, toras de jacarandá, pranchas de pau-santo, de pau-violeta, trinta cavalos pernambucanos, cem barris de frutas confeitadas. Seu aniversário de 40 anos durante a viagem dever ter sido uma grande festa. Em julho de 1644, chegou no porto de Texel.

Na Holanda, voltou à vida social e refinada da qual se afastara nos últimos sete anos. Ocupou vários postos civis e militares importantes. Retomou o relacionamento com amigos, grandes artistas e intelectuais: Descartes, Huygens, Bacon, Corneille, Donne e Rubens, entre outros, além de príncipes, como rei Carlos I da Inglaterra. Encarregou o famoso escritor Barlaeus de contar a história do seu governo no Brasil, em latim, a língua das pessoas cultas; e, em 1647, foi publicada a Rerum in Brasilian Gestarun Historia. Também patrocinou, em 1648, a edição da Historia Naturalis Brasiliae, escrita por Piso e Marcgrave e ilustrada por Eckout, em onze belíssimos livros sobre a fauna, a flora e os povos brasileiros. É o primeiro livro sobre o Brasil mostrando e descrevendo a fauna, flora, gente e a terra.

Enquanto publicava os livros, foi novamente convidado pela WIC para governar o Brasil, mas como exigiu plenos poderes, um exército maior e melhor remuneração, a Companhia não concordou. Ainda no ano de 1647, foi dirigir os governos de Kleve, Mark e Ravensburg, o que lhe valeu a condecoração de grão-mestre da Ordem Teotônica. Em 1652, foi eleito grão-mestre da Ordem de São João da Alemanha. Três anos depois, foi nomeado comandante-em-chefe do exército dos Países Baixos em 1665. Em seguida, voltou a pegar em armas contra os franceses (1667), como marechal de campo e contra os espanhóis, em 1671. Ao completar 70 anos em 1674, tomou parte na Companhia dos Países Baixos Espanhóis (atual Bélgica), lutando na Batalha de Senef. No mesmo ano foi nomeado governador de Utrecht e o último título que recebeu foi o de Príncipe de Nassau-Siegen. Doente, na velhice, dormia numa rede bordada e guarnecida de franjas amarelas que trouxera de Pernambuco. E morreu em 1679, no Mauritshuis, o palácio que construiu em Haia com o dinheiro ganho no Brasil, hoje transformado em museu.