[ MONIZ BANDEIRA, O ACADÊMICO ]

04.11.2016

Regina Maria d’Aquino Fonseca Gadelha[1]

Quero agradecer o convite do amigo, Dr. Durval Noronha Goyos Jr., para participar deste Seminário comemorativo dos 80 anos de Moniz Bandeira. Honrosa e prazerosa é esta homenagem, não só por ser Moniz um querido amigo, mas, sobretudo, por se tratar de um dos maiores intelectuais que influenciaram minha geração. Porém, o que mais me inspira nesta homenagem é se tratar de um intelectual engajado, coerência e de honestidade extremas, comprovadas ao longo de sua larga trajetória de quase 60 anos de trabalhos ininterruptos.

A monumental obra que nos legou revela, por si só, a importância deste grande historiador. Espero estar à altura da tarefa que me foi confiada pelo Dr. Durval Noronha, de traçar o perfil intelectual e acadêmico do Professor Luiz Alberto de Moniz Bandeira.

Conheci Moniz Bandeira nos anos setenta, ainda estudante na Universidade de São Paulo e, depois, ao iniciar o magistério como professora regente das cadeiras de História Geral do Brasil e História Geral Mundial, em 1976, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Aplaudi Moniz durante a palestra que proferiu no Simpósio “Repensando o Nacionalismo: Desenvolvimento Econômico e Superestrutura Política. O impacto do modelo econômico sobre as estruturas políticas (10/06/1977), na célebre 29ª Reunião da SBPC realizada na PUC/SP em 06 a 13 de Julho de 1977, diante da proibição da maior reunião de cientistas no Brasil levantada pelo governo militar de João Batista Figueiredo, nos estertores da ditadura.

Na ocasião, a palestra de Moniz foi assistida no TUCA por mais de 2.000 pessoas, que no final o aplaudiram de pé.[2] Mas somente estreitei laços de amizade com o Professor em 2002 quando, a convite do saudoso colega Paulo Edgar de Almeida Resende, ele realizou uma palestra na PUC/SP, dentro das atividades do NACI – Núcleo de Análise de Conjuntura Econômica da PUC/SP, grupo de pesquisa do qual sou atual coordenadora. Moniz nos brindou com instigante palestra sobre “Globalização e o ‘ultra-imperialismo’”, conceito elaborado pelo filósofo, economista e marxista alemão, Karl Johann Kautsky (18541938).

O tema fora objeto de análise aprofundada em seu livro A reunificação da Alemanha: do ideal socialista ao socialismo real, publicado em 1ª edição em 1992 e, em 2ª edição, em 2001. Contrariando o entendimento dos marxistas, Moniz recupera no livro a interpretação de Kautsky, o qual, ao refletir sobre a I Guerra Mundial em artigos datados de 1915, discorda das interpretações de Lênin sobre o ‘imperialismo’ e declara ser aquela Grande Guerra prenúncio de novo estágio na evolução do sistema capitalista, por ele denominada “ultraimperialismo”. Estágio já atingido pela acumulação mundial. A Guerra, afirmava Kautsky, não era simplesmente manifestação do “imperialismo”, conforme analisado por Rudolf Hilferding (1910) e por Lênin (1915, 1. ed.1917). Atrevimento teórico que lhe custou a expulsão da III Internacional sob a pecha de “traidor da classe proletária”, ditada pelo próprio Lênin em 1919 (o renegado Kautsky)[3].

No entanto, observa Moniz, a reflexão de Kautsky sobre a Primeira Guerra Mundial se apoiara nas observações de Karl Marx sobre o processo de concentração e centralização do capital, desdobrado pelos meios militares em consequência do acirramento da concorrência econômica e comercial entre as potências industriais da Europa.

“As grandes potências, escreve, formaram um grande cartel, o G7, para ajustar os problemas econômicos, e têm na OTAN seu instrumento bélico. E o ultra imperialismo configurou-se com a supremacia dos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.[4]

Diante da glasnost (1986) promulgada pelo então líder soviético Mikhail S. Gorbachev, liberalizando politica e economicamente a URSS, o livro de Moniz de 1992 responde assim ao suposto fim da História, nos brindando com a atualização do ultra imperialismo como modelo explicativo da insurgência da globalização neoliberal em seu estágio financeiro mais avançado, na evolução do sistema capitalista global.

Como afirma Moniz, o tempo e a história deram razão a Kautsky. O desmoronamento da União Soviética em consequência da perestroika que reestruturou a economia russa em direção à abertura da economia de mercado, seguida por uma profunda reforma monetária, no início dos anos 1990, concretizava a hegemonia norte-americana e demonstrava como o colapso do bloco soviético abrira novos mercados, concorrendo para impulsionar o processo de internacionalização ou globalização da economia. Todavia as guerras não se davam mais nos países do centro. Elas passavam a se dar nos países da periferia. É o que o autor demonstra em A Segunda Guerra Fria, obra de 2013, em que analisa os acontecimentos que desde a desintegração da União Soviética abalaram o equilíbrio e as economias dos países de todo centro leste europeu, a Eurásia, o Oriente Médio e África do Norte.

Acadêmico crítico e grande lucidez, Moniz é daqueles autores que dão luz à interpretação da realidade e fazem da história instrumento de conscientização e transformação. Em Prefácio à 4ª edição de seu livro, Presença dos Estados Unidos no Brasil, publicado em 2007, deixa depoimento marcante do engajamento de sua atuação política e ensina “qual deve ser o papel do intelectual em países subdesenvolvidos”, como escreveu Celso Furtado. Traça a trajetória enfrentada para realizar e levar a cabo suas pesquisas e as dificuldades para a publicação da primeira edição do livro, em 1967, escrito e publicado nas difíceis condições da clandestinidade e que somente havia saído ao público por ato de coragem do editor e amigo, Ênio Silveira. Na ocasião estava encarcerado e cumpria pena de dois anos, posteriormente revogada para um ano, nos calabouços do temível CENIMAR – Centro de Informação da Marinha, do Rio de Janeiro.

Diante da Repressão, nos relata Moniz, decidira não permanecer no exílio no Uruguai, em 1964, para onde havia sido enviado como jornalista credenciado dos Diários de Notícias do Rio de Janeiro, para acompanhar o Presidente João Goulart partido em exílio. Uma vez em Montevideo, recebera missão da POLOP[5] para, ao lado do governador Leonel Brizola, articular a resistência contra o golpe militar, em conjunto com o Presidente João Goulart. Porém, diante dos rumos assumidos pela direção desta Organização, em opção pela luta armada, logo divergiria da POLOP, ocasião na qual se recusou partir para o exílio no Chile, país então democrático, governado por Salvador Allende. Prefere regressar clandestinamente ao Brasil e enfrentar a ditadura com as armas nas quais acredita: seus escritos e não a luta armada.

Relata no Prefácio à 4ª edição (2007) do livro Presença dos Estados Unidos no Brasil: “Entendi [] que não podia nem devia cuidar de minha vida pessoal, abandonar a luta, enquanto muitos homens e mulheres, muitos dos quais eu pessoalmente conhecia, arrostavam com armas na mão o regime autoritário []. Para mim, que não cria que a luta armada pudesse derrocar o regime autoritário, era necessário combate-lo por outros meios: como intelectual que sempre fui”.[6]

No final deste longo Prefácio não esqueceria, entretanto, de agradecer aos amigos que o ajudaram durante a clandestinidade em São Paulo, antes da prisão, e que se haviam arriscado para lhe dar apoio. Cita nominalmente Ênio Silveira, Renato Archer, Aldo Lins e Silva, Hermínio Sachetta, Geraldo Banas, Adônias Filho, Rômulo de Almeida, Verniaud Gonçalves, Maurício Tragtemberg, de saudosa memória, e alguns mais.

Esta é a personalidade de Moniz Bandeira, sua honestidade intrínseca, seu grande coração. Porém, como historiador, não tergiversa e se mantem fiel ao rigor da crítica científica aprendido da dialética histórica hegeliana. Conhecedor da metodologia histórica demonstra domínio no ofício de historiador, no manejo das fontes primárias e também as secundárias dos textos e testemunhos. Método de resto inscrito na melhor tradição dos ensinamentos da Escola francesa dos Annales[7].

De fato, sua obra é embasada em sólidas fontes documentais e rica bibliografia sobre as quais evidencia aprofundado domínio teórico e metodológico, fundamentado na dialética histórica de Hegel, Marx, Engels, fontes das quais bebeu no método materialista crítico do conhecimento demonstrado em sua obra. Portanto, não é possível separar o Acadêmico Moniz Bandeira do intelectual político e organicamente engajado, na melhor concepção gramsciana.

Moniz é um exemplo de vida coerente, voltada às ideias e ideais mais elevados. Nascido em Salvador, de tradicional família baiana, é casado com Margot Bender, sua ex-aluna, com a qual tem um filho, motivo de seu orgulho, Egas. Após a aposentadoria, em 1996, como Professor Titular do Departamento de História da Universidade Nacional de Brasília, passou a residir na Alemanha, país natal de sua esposa, tendo sido Adido Cultural do Consulado Geral do Brasil em Frankfurt (1996-2002) e, depois, Cônsul Honorário de Heidelberg, residindo até hoje em uma pequena cidade nos arredores deste grande centro universitário.

Apesar de viver distante da pátria, vivencia como poucos, de forma engajada, a realidade da política brasileira. Intelectual, comprometido com a ciência e seu tempo, destacou-se na Universidade de Brasília no exercício da profissão. Como acadêmico, revela sólida formação histórica e sociológica, aliada à meticulosidade jurídica de um diplomata. É exemplo de intelectual orgânico, sempre a demonstrar espírito provocativo de ideias e a coragem de livre pensar, em constante labor de pesquisa e produção intelectual desde os tempos adversos de perseguições e prisões durante o regime militar até a luta por sua saúde, na superação das adversidades. Sua grande capacidade de disciplina lhe permite conciliar família, trabalho, pesquisas e estudos voltados à interpretação do momento contemporâneo, testemunhado pela constante publicação de textos, livros e artigos marcantes. São mais de 30 livros, alguns dos quais traduzidos em vários idiomas, incluindo o mandarim, e centenas de artigos publicados em jornais e revistas, no Brasil e exterior.

Como ele próprio afirma, “Ao longo de minha vida, não me limitei a ser mero observador”. Historiador comprometido com seu país e o destino de nossa América, sua obra é essencial para a compreensão das relações do Brasil e Estados Unidos, dentro do jogo geopolítico mundial, bem como de suas relações com os países vizinhos pertencentes à interlândia sul-americana, em especial Argentina, Uruguai, Paraguai. Seus livros permitem o leitor compreender a unidade e integração existentes entre os fatos econômicos, políticos e sociais que marcaram nossos países, e as relações internacionais que permeiam nossas histórias, as ações políticas e externas possíveis desenvolvidas no continente, responsáveis pela preservação da nossa independência e a liberdade de nossos povos.

Se o conjunto de sua obra, todavia, não oferece todas as respostas (nenhuma obra é seminal), sem ela estaríamos menos esclarecidos. Poucos autores souberam traçar de forma tão bem documentada o panorama de nosso continente, desvendando e interpretando sua história desde a formação aos dias atuais. Como assinala o historiador uruguaio Héctor Valle, na busca da totalidade a obra de Moniz Bandeira preenche o vazio sobre as relações do Brasil e a América Meridional e pode ser desdobrada em cinco tempos:

  • Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de História), livro escrito e publicado durante o período militar quando o autor cumpria pena de prisão entre 1972 e 1973, hoje em 4ª edição ampliada, publicada em 2007.
  • Brasil, Argentina e Estados Unidos – Conflito e integração na América do Sul. (Da Tríplice Aliança ao MERCOSUL), livro publicado em 2010. Obra que reflete a fase de maturidade do autor e de suas pesquisas iniciadas nos idos dos anos oitenta, e dá continuidade às interpretações por ele realizadas em o Expansionismo Brasileiro e a Formação dos Estados do Prata – Da colonização à Guerra da Tríplice Aliança (1ª edição de 1985). Em Brasil, Argentina e Estados Unidos, todavia, o autor atualiza a análise da formação à crise do MERCOSUL e procura desvendar “as contradições intrínsecas do processo histórico das relações internacionais na Bacia do Prata”[8].
  • De Martí a Fidel. A Revolução Cubana e a América Latina (1998) – analisa as causas e consequências desta Revolução, da qual o autor foi testemunho indireto contemporâneo[9]. O livro transmite a visão política do autor sobre o caráter da revolução cubana e vai adiante ao captar a essência do processo histórico de evolução desta Revolução, realizada dentro das condições da América Latina. Processo que expressa, de forma nítida, as contradições criadas pelo “sufocante predomínio dos Estados Unidos” (são suas as palavras), todavia ainda não resolvidas;

(iv) As relações perigosas: Brasil-Estados Unidos (de Collor a Lula, 1990-2004), obra publicada em 2004, na qual revisita e expande as ideias esboçadas no livro Presença dos Estados Unidos no Brasil (Dois séculos de História) e em Relações Brasil-Estados Unidos no contexto da globalização (volumes publicados respectivamente em 1998 e 1999 pelo SENAI de São Paulo).

  • Finalmente, Formação do Império Americano: Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque, livro premiado, com o qual conquistou o bem merecido prêmio Juca Pato, em 2005.

A relação destas obras, porém, não estaria completa sem assinalar seu mais recente livro A Desordem Mundial (2016). Livro que traz como subtítulo: O espectro da total dominação: Guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanas, publicado pela Civilização Brasileira. Nesta obra, que segundo o autor, deve ser vista como parte da trilogia constituída por Formação do Império Americano (2005) e A Segunda Guerra Fria (2013), Moniz traça a visão panorâmica do ultra imperialismo global das potências mundiais, os Estados Unidos, bem como o reerguimento da Rússia sob a presidência de Vladimir Putin, após a catástrofe entreguista dos dois governos de Boris Yeltsin nos anos noventa, e a emergência da China como nova potência mundial dentro do mosaico de disputa das grandes nações.  

A obra dá sequencia às reflexões do autor acerca dos conflitos na Ucrânia, Síria e Oriente Médio e denuncia a influência dos grandes trustes monopolistas em rede, manipulando e dominando governos e economias dos estados nacionais, desde o século XIX até os dias atuais – trata-se do chamado “shadow-banking sector”, forma avançada dos “Corporate Caesars”, “industrial Caesars” e “comercial Caesars” do século XX, ao mesmo tempo em que a corrupção se tornava inevitavelmente “inerente à república presidencialista inspirada no modelo americano”, modificando os fundamentos das democracias dos estados modernos e seu objetivo.  “’Legalized corruption’, o que significa que os ricos, bilionários, com maiores recursos, podiam subornar os políticos, e era o que geralmente faziam. […] as firmas de lobbying, que se concentram na K Street, em Nova York, sempre puderam afetar a legislação com dinheiro dado aos políticos e por isso os que possuem recursos financeiros têm maior impacto no sistema político do que aqueles que não o possuem”, escreve. (Moniz Bandeira. A desordem mundial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. p.57.

Como parte da análise do desvelamento das hodiernas democracias, constata-se que o sistema capitalista conduziu o mundo a uma gigantesca concentração de renda, cuja desigualdade atingiu, em 2013, “o nível mais elevado desde 1928: 1.645 homens e mulheres controlavam maciça parte do acervo financeiro global, um montante de US$ 6,5 trilhões. Desses 1.645 bilionários afirma, 492 viviam nos Estados Unidos, cujo PIB era da ordem de US$ 16,72 trilhões (2013 est.), e controlavam mais de US$ 2 trilhões”. (Idem, pp.55-6). É que a desigualdade recrudesceu a partir dos anos 1980, passando para 6 a 1: “A partir de 1982 […] as famílias mais ricas, 1% da população [mundial] que em 1982 recebiam 10,8% de todos os rendimentos antes da incidência de impostos (pretax), e 90%, com 64,7%, passaram a receber 22,5%, em 2012, enquanto a participação das demais caiu de 90% para 49%”. (Id. p.55). Em decorrência, demonstra o autor, as ações da “free enterprise santificada engendrou, inevitavelmente, a acumulação de riqueza e a desigualdade estrutural de poder, assim como o free Market, que os presidentes dos Estados Unidos tanto se empenharam em impor a outros países, mormente àqueles com níveis salariais mais baixos e ricos e matérias primas”. (Idem. p.55-6).

O livro denuncia o recrudescimento da segunda “guerra fria” em que Estados Unidos e seus aliados – países liderados por cartel controlado por apenas oito famílias[10], das quais quatro sitiadas nos Estados Unidos que manipulam não apenas as políticas do FED e FMI, como influenciam as atividades e operações da OTAN, da Special Operations Forces/Navy Seal Team 6 da CIA e dos ataques de drones, as guerras assimétricas ocorridas no Afeganistão, na Líbia, no Iraque, na Somália e no Iêmen. Estas ações, afirma, transcenderam todos os níveis das operações políticas, táticas e estratégicas até então conhecidas, graças à rápida expansão da tecnologia e o advento do extremismo islâmico, pois “a difusão do poder tornava muito mais duro o avanço da causa regional e governança global”, conforme reconhece Strobe Talbott, ex-secretário de Estado Assistente de Bill Cliton. (Id. p.146).  

Por sua vez, conclui Moniz Bandeira, o Presidente Barack Obama não teve êxito no combate ao terrorismo, pois os ataques dos jihadistas recrudesceram no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Nigéria. De mesmo, recrudesceram os atentados terroristas no mundo. Portanto, sob vários aspectos, a política exterior de Obama foi desastrosa: “Os bombardeios da OTAN, por ele autorizados, devastaram a Líbia, uma das mais ricas nações da África” e o país “precipitou-se no caos econômico e político” após a queda do regime de Muammar Gaddafi. O golpe da Ucrânia, articulado pela secretária assistente de Estado, Victoria Nuland, e pelo embaixador ucraniano de Kiev, Geoffrey R. Pyatt, resultou em outro fiasco: o presidente Putin reincorporou a Crimeia, assegurando a importante base naval de Sebastopol, no mar Negro, à Rússia. A Ucrânia é hoje um país falido, com a moeda desvalorizada perante o dólar desde 2014 e uma dívida externa superior a 94,4% do PIB (2015), com queda prevista pelo FMI em mais de 12% do PIB. A intervenção na Síria serviria para evidenciar, por sua vez, o enorme e avançado poderio militar da Rússia e para restabelecer o prestígio qualitativo deste país no game da geopolítica mundial. (Id. p.488). A Turquia, por outros motivos também, entre os quais cultura e poder, volta a regredir em termos de democracia. A crise em todo o Oriente Médio se agrava.

O balanço desta era, já detalhada em A Segunda Guerra Fria, em que o autor demonstra as características do ultra imperialismo, tendo por base o cartel das potências industriais, ademais do incomparável poderio militar e financeiro dos Estados Unidos e seus aliados, indica, no entanto, que a política iniciada com Obama está a deixar um rastro sangrento de milhões de mortos e exilados sem pátria, igual ou maior do que os de seus antecessores. Moniz Bandeira conclui A Desordem Mundial relembrando a frase do historiador e filósofo alemão Oswald Spengler (1880-1936), para quem “não há ideais, mas somente fatos, nem verdades, mas somente fatos, não há razão nem honestidade, nem equidade etc., mas somente fatos”. (Id. p.513). E são os fatos que explicam a história.

O conjunto da obra de Moniz Bandeira, portanto, dá razão às observações também feitas pelo professor chileno Raúl Bernal-Meza, especialista das Relações Externas, indicando a contribuição relevante da obra de Moniz Bandeira ao reescrever a história das relações internacionais e nos propor o abandono dos mitos, a não aceitar percepções e versões preestabelecidas, a levantar hipóteses que permitem refletir sobre as forças objetivas (e as subjetivas) que determinam as ações dos interesses das classes sociais, dos partidos políticos e dos governos, inclusive os de nossos países, em suas relações externas.[11]

Resta-nos resgatar, nesta palestra, parte da larga trajetória de vida e contribuições outras do Acadêmico, Professor Moniz Bandeira. Bacharel formado em Direito pela Faculdade Brasileira de Ciências Jurídicas do Rio de Janeiro, em 1960, obteve o título de Doutor em Ciências Humanas, área de concentração em Ciência Política, em 1982, pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, com a tese “O papel do Brasil na Bacia do Prata”, pesquisa que originaria a obra O expansionismo brasileiro (A formação dos Estados na Bacia do Prata – Argentina, Uruguai e Paraguai. Da colonização ao Império), publicada em 1985.

Porém Moniz não se contentou apenas em buscar conhecer as origens, relações e conflitos dos países latino-americanos face à predominância hegemônica americana. Seu compromisso com a verdade dos fatos e sua constante luta pela redemocratização do Brasil o levaram a escrever uma “versão dos vencidos”, com a qual desafiava mais uma vez o autoritarismo militar, conforme relata em seu Memorial para Concurso de Professor Titular ao Instituto de Humanidades da Universidade de Brasília”, em 1989. Esclarece os motivos: “até a década dos 70 somente a versão dos que venceram em 1964, a apresentarem aquele período como de caos, desordem, inflação, corrupção, demagogia, manipulação de massas, circulava, a fim de justificar o golpe de Estado, a ruptura da Constituição de 1946 e o fim da democracia, quando, na verdade, os esforços de Goulart para promover reformas de base e sua solidariedade com o movimento sindical constituíram os verdadeiros motivos que os levaram a derrubá-lo”.

Assim, o livro sob o título “O Governo João Goulart. As lutas sociais do Brasil – 1961-1964”, veio à luz em dezembro de 1977, publicado pela editora Civilização Brasileira do amigo Ênio Silveira, tendo sido vendido mais de 40 mil exemplares em suas várias edições (8ª edição, 2010). De acordo com a crítica de Michael Löwy, professor do CNRS de Paris e outrora amigo e companheiro da POLOP, testemunha dos acontecimentos de 1964, o livro, embora simpático a João Goulart e seu governo não é apologético e ressalta “a atitude da burguesia nacional, o papel das Forças Armadas, os dilemas e a importância do nacional-reformismo e as trágicas ilusões da esquerda”.

Anteriormente já publicara o provocativo livro, O ano vermelho. A revolução russa e seus reflexos no Brasil, em que analisa os reflexos da revolução russa de 1917 sobre intelectuais e anarquistas no Brasil e a fundação do Partido Comunista Brasileiro em 1922. O livro, cuja pesquisa Moniz realiza em difíceis condições em 1965, é assinado também por Clóvis Melo e A. T. Andrade que haviam inicialmente planejado a obra com o autor. É, porém, necessário indicar as pesquisas complementares realizadas por Moniz, como parte do resgate necessário ao restabelecimento da veracidade histórica do período, esclarecedor para se conhecer as raízes do golpe militar de 1964. Escreverá dois livros mais, ambos publicados em 1979: A renúncia de Jânio Quadros e a crise pré-64, pela Editora Brasiliense de São Paulo, e Brizola e o Trabalhismo, pela Civilização Brasileira, este último sendo um ensaio mais breve. No entanto, a obra que marcaria muitos de minha geração seria Cartéis e Desnacionalização. (A experiência brasileira – 1964-1974), publicada em 1975 pela editora Civilização Brasileira, propriedade de seu amigo e corajoso editor, Ênio Silveira.

Como professor acadêmico, Moniz iniciou suas atividades no Magistério Superior regendo a cadeira de Ciências Políticas da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, onde lecionou em 1974 e 1975, em substituição ao amigo Maurício Tragtemberg. Logo foi eleito Coordenador do Departamento de Política daquela instituição, então Instituto complementar da Universidade de São Paulo. Entrementes, nos anos 1975 e 1976 exerceria intensa atividade política, em contato com Leonel Brizola, no exílio do Uruguai, reaproximando-o de João Goulart, em diálogo constante com este líder, no preparo de seu retorno para o Brasil e na tarefa de resgatar e reorganizar, clandestina ou semiclandestinamente o PTB.  

Ao mesmo tempo, preparava-se para realizar pesquisa de um ano nos Estados Unidos (1977-1978), sobre “O papel do Brasil na Bacia do Prata”, patrocinado através de uma bolsa de estudos pós-doutoral concedida pelo Social Science Research Council e Joint Commitee on Latin American Studies of the American Council of Learned Societies, daquele país. Esclarece no Memorial, “A opção de Brizola de ir para os Estados Unidos, lance político de profundas consequências no Brasil, possibilitou que eu continuasse a cooperar com ele no empreendimento de reorganizar o PTB, em vinculação com a Internacional Socialista, a fim de forçar, segundo meu entendimento, o processo de liberalização do regime autoritário, como caminho para a restauração da democracia no Brasil”. (sic).

A ida de Moniz Bandeira aos Estados Unidos lhe permitia estagiar também na França, com a finalidade de desenvolver pesquisa nos Arquivos do Quai d’Orsay (Ministério de Relações Exteriores da França). Entrementes, Brizola através de Moniz, estabelecia os primeiros contatos na Europa com Mário Soares, em Portugal, e com lideranças sociais democratas na Alemanha e Holanda, enquanto Moniz estabelecia contatos na França através do cientista político e seu amigo, Alain Rouquié, assessor do então Presidente do Partido Socialista francês, François Mitterand, para assuntos sobre América Latina. Em viagem para a Itália, em Roma, estabeleceria contatos para Brizola com membros do Partido Socialista Italiano.

De volta ao Brasil, no segundo semestre de 1978, Moniz teve ainda ocasião para entrar na carreira política, mas felizmente para nós, optou pela continuidade de suas pesquisas nos Arquivos dos Estados Unidos, França e Alemanha. O que explica ter recusado os inúmeros convites feitos por Darcy Ribeiro e por Leonel Brizola para se candidatar a cargos eletivos, preferindo optar pelo trabalho acadêmico. É que, conforme seu depoimento, “a carreira política propriamente dita, com seus conchavos eleitorais e disputas de cargos legislativos ou executivos, jamais me seduziu”.

Desta maneira explica-se sua curta passagem na administração brizolista durante o primeiro governo de Brizola no Rio de Janeiro. Nomeado Diretor Superintendente do Instituto Nacional de Comunicação, permaneceu neste cargo de 1982 a 1984. Na ocasião, e sem abandonar as pesquisas sobre a Bacia do Prata, reúne textos já escritos sobre as tendências políticas e ideológicas de Vargas, de Goulart e de Brizola, que foram publicados em um pequeno livro intitulado Trabalhismo e socialismo no Brasil. A Internacional Socialista e a América Latina, pela Editora Global, 1985, mesmo ano em que publica seu grande trabalho sobre O Expansionismo Brasileiro (A formação dos Estados na Bacia do Prata – Argentina, Uruguai e Paraguai. Da colonização ao Império).

No entanto, Moniz tão pouco abandonaria as atividades de ensino. Entre 1979 e 1981 foi Professor Agregado do Departamento de Comunicação da PUC/RJ. Em 1981 viaja para a Alemanha, nomeado Membro Associado do Instituto de Ciência Política da Universidade de Heidelberg e promovido um ano depois a Pesquisador Científico convidado (1982). Regressando ao Brasil, atua como Professor de Estudos de Problemas Brasileiros da Fundação Escola de Serviço Público (FESP) do Rio de Janeiro e, ainda, Professor Visitante da UNESP-Universidade Estadual do Rio de Janeiro, de 1986 a 1987. Desde 1987 passa a exercer a função de Professor Titular, primeiro como professor convidado do Departamento de História da Universidade Nacional de Brasília-UnB e dois anos depois é efetivado no cargo por concurso público prestado em 1989.

Professor Titular da UnB estabeleceria Convênio com o Instituto de Ciência Política da Universidade de Heidelberg, como Pesquisador e Membro Associado desta Instituição desde 1988, aonde coordenaria e desenvolveria o projeto “Redemocratização e Política Externa na Argentina, Brasil e Uruguai”. No mesmo ano, como Pesquisador Associado, inicia o projeto “Relações Brasil-Suécia” a convite do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Estocolmo (Suécia), estabelecendo convênio com o Departamento de História da UnB. Aposenta-se em 1996 da carreira docente na Universidade de Brasília, tendo sido grande inspirador dos cursos de Relações Internacionais daquela Universidade, ao lado de colegas como Amado Cervo, e marcado presença, como professor de pós-graduação, à frente das disciplinas “Teoria das Relações Internacionais” e “Relações Brasil-Estados Unidos” no Mestrado de História, e de “Política Exterior da América do Norte”, no Mestrado em Relações Internacionais da UnB.

Ainda, como professor visitante, marcaria presença em várias Universidades no Brasil e Exterior, entre as quais a Faculdade de Direito da UFMG e a Universidade Federal de Uberlândia (MG).  Como Conferencista foi Professor convidado da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro; UNESP de Rio Claro-SP; São Carlos da Federal de São Paulo; PUC/SP; UNICAMP; FEA-USP; FGV-SP; UFJF-MG; PUC/PR; UFSC; IUPERJ-RJ, entre outras grandes universidades brasileiras.

No exterior realizou Cursos e Conferências em grandes universidades, entre as quais a Universidade de Roma, Itália; Instituto Superior de Economia, da Universidade Técnica de Lisboa; Institute of Latin American Studies, da Universidade de Glasgow; Institute of Latin American Studies, da Universidade de Londres; Universidade de Amsterdam, Holanda; Latinamerika Institute de Stockholm, Universidade de Estocolmo, Suécia; Center for Latin American Studies da Universidade de Stanford, Califórnia-USA; Latin American Institute da Universidade de New Mexico, Albuquerque-USA; Universidade de Washington-USA; Universidade de Heidelberg; Universidade de Colônia, Alemanha; Universidade Livre de Berlim-Berlim Ocidental; Universidade Wilhelm-Piek de Rostock, República Democrática Alemã; Universidade de Puerto Iguazu; Universidade de Buenos Aires; Universidade de Córdoba, Argentina; Universidade de la República, de Montevideo.

Em 2006 foi agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pelas Faculdades Integradas do Brasil-UniBrasil do Paraná e, novamente, em 2009 recebe o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia, Estado em que nasceu.

Seria longa a relação dos títulos, prêmios e homenagens prestadas e concedidas a este grande intelectual brasileiro. Cabe, no entanto, destacar aqui o Prêmio Juca Pato e que lhe foi concedido por esta Casa em 2006. De mesmo, a indicação de seu nome feita pela União Brasileira de Escritores para o Prêmio Nobel da Suécia, em 2015, merecida pelo conjunto de sua obra e contribuições relevantes às relações internacionais do Brasil, América do Sul e Alemanha.

Espero ter podido expressar um pouco da pujança, energia e dinamismo da obra sempre presente do grande acadêmico, intelectual e amigo, Luiz Alberto de Moniz Bandeira. Obrigada.

 

[1] Historiadora. Professora Titular do Departamento de Economia-FEA-PUC/SP; é Coordenadora do NACI – Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional da PUC/SP e Vice Coordenadora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Economia Política-PUC/SP. Palestra realizada no Seminário dos 80 Anos de Moniz Bandeira – União Brasileira de Escritores-UBE, 14/06/2016.

[2] A Conferência mostra a evolução do nacionalismo no Brasil e os diversos fatores que o condicionaram ao longo do século XX, bem como as contradições econômicas, sociais e politicas que determinavam o esgotamento do governo militar autoritário. O texto integral, “Repensando o Nacionalismo”, foi publicado nos Cadernos de Debate, nº 5, da Editora Brasiliense (1978), dedicado ao tema “Nacionalismo” e que traz também as contribuições de outros intelectuais: Darcy Ribeiro, Flavio Aguiar, Rômulo de Almeida, Fernando Gasparian, Joviano Carvalho.

[3] Vide, Lênin. “A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky”. In: Obras Escolhidas. Lisboa: Edições Avante, 1977. 3 t. v.1.

[4] Moniz Bandeira. “Globalização e ultra-imperialismo”. Revista Espaço Acadêmico. Maringá-PR: UEM, Ano 2, n. 23, Abril 2003.

[5] A POLOP-Organização Revolucionária Marxista-Política Operária foi uma organização de esquerda radical organizada em 1961 com setores ligados a Juventude Socialista do Partido Socialista Brasileiro do Rio de Janeiro, estudantes da Mocidade Trabalhista de Minas Gerais e da Liga Socialista Internacional de São Paulo, em contraposição à Juventude do Partido Comunista Brasileiro. Entre seus fundadores, intelectuais simpatizantes de Rosa Luxemburgo, trotskistas e dissidentes do PCB e trabalhistas (PTB), tais Ruy Mauro Marini, Luiz Alberto de Moniz Bandeira, Theotonio dos Santos, Vânia Bambirra, Michael Lowy, Eder Sader e Emir Sader.

[6] Moniz Bandeira. Presença dos Estados Unidos no Brasil. 4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. pp.10-1. (Grifos nosso). Para maiores detalhes, recomendo a leitura integral do testemunho de Moniz Bandeira aos leitores, do “Prefácio” desta edição.

[7] A chamada Escola francesa dos Annales constitui uma corrente histórica fundada por Lucien Febvre (1878-1956) e Marc Bloch (1886-1994) em fins dos anos 1920. Entre os grandes historiadores herdeiros desta corrente, Fernand Braudel (1902-1985) é considerado um dos maiores historiadores do século XX.

 

[8] Moniz Bandeira, Luiz Alberto. Brasil, Argentina e Estados Unidos. Conflito e integração na América do Sul (Da Tríplice Aliança ao Mercosul). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p.40. Primeira versão publicada em 1985 sob título O Expansionismo Brasileiro (A formação dos Estados na Bacia do Prata – Argentina, Uruguai e Paraguai, Da Colonização ao Império). Rio de Janeiro: Editora Philobiblion. 2.ed. 1995, Editoras Ensaio e UnB; 3.ed. 1998, Editoras Revan/UnB.

[9] Em abril de 1960, Moniz Bandeira integrou a comitiva do então Presidente Jânio Quadros em sua visita à Havana, na condição de jornalista credenciado junto ao Ministério de Relações Exteriores, à Câmara dos Deputados e Assembleia Legislativa do antigo Estado da Guanabara. Na ocasião participou e pôde testemunhar as diversas reuniões ocorridas entre os Presidentes Jânio Quadros e Fidel Castro, Che Guevara e outros líderes da Revolução de 1959.

[10] Cf. Dean Henderson. Apud Moniz Bandeira: trata-se do cartel controlado pelo Bank of America, JPMorgan Chase, Citigroup e Wells Fargo, entrelaçados com as companhias de petróleo Exxon Mobil, Royal Dutch/Shell, British Petroleum e Chevron Texaco, em conjunto com Deutsche Bank, BNP, Barclays e outros colossos financeiros da Europa. Estes bancos e empresas são de comando de apenas oito famílias: Goldman Sachs; Rockefeller; Lehman e Kuhn Loeb, dos Estados Unidos; Rothschild, de Paris e Londres; Warburg, de Hamburgo; Lazard, de Paris; e Israel Moses Seif, de Roma. (Id. Id. p.140).

[11] Ver Bernal-Meza, Raúl. “El pensamiento latino-americano y la teoría de relaciones internacionales”. La Onda Digital. Uruguay: n. 285, 01/05/2006 e 25/04/2006.