[ Nada a temer; depois de privatizar, lave as mãos. ]

28.05.2018

Adhemar Bahadian

A economia brasileira  desce a ladeira e os caminhões de frete fazem um “ponto fora da curva”.  A politica de correção de preços  da Petrobras é um modelo perfeito do privativismo neoliberal, aplicado a uma empresa de economia mista. O  preço do combustível ,referenciado ao dólar, sobre o qual não temos como interferir ,mas de cujas oscilações  somos sempre vitimas,  torna irrelevante  qualquer planilha de custos em reais.   Episódio semelhante de capitalismo selvagem ocorreu com o gás de botijão. Muitas famílias passaram a cozinhar com lenha. O governo, preso na armadilha que se auto impôs , se defronta com a greve e com o desmonte do pilar sacrossanto do ajuste fiscal. E a sociedade se vê sitiada pela escassez e pelo oportunismo. O acordo provisório fechado na noite de quinta, data em que escrevo, deverá resolver temporariamente o problema. Duas conclusões se impõem: o Brasil necessita urgentemente de investimentos para diversificar sua rede de distribuição de mercadorias e o custo para a solução do problema dos grevistas recairá sobre o orçamento e portanto em maiores cortes de gastos.

De positivo, a retirada da privatização da Eletrobrás  da pauta de votações . Ponto para o Congresso. Privatizar a rede de energia elétrica do país seria um negócio da china. Ou da China. Difícil encontrar um país desenvolvido ou emergente que tenha entregado a mãos privadas, estrangeiras ou nacionais, um instrumento tão óbvio da segurança  nacional, quanto o sistema elétrico interligado do país. Estados Unidos ,não. França, não . Alemanha, não. Quem dá mais? Cartas para a portaria do Jornal.

Antes que os” Chicago  boys’ me chamem de energúmeno , sugiro que revejam o que aconteceu com a privatização da rede ferroviária do Reino Unido. Após poucos meses,  a rede se tornou deficitária e recorreu aos cofres públicos com a ameaça de suprimir linhas não rentáveis, caso não recebesse subsídios . O tesouro de Sua Majestade cedeu. Afinal, milhares de usuários  perderiam sua mobilidade. Em suma, a privatização foi duplamente onerosa. Com a Eletrobrás aconteceria igual ou pior. As tarifas aumentariam de imediato, o programa “luz para todos” sofreria um apagão do dia para as noites obscuras. O desemprego aumentaria. E  trinta moedas  seriam jogadas  na redução do déficit orçamentário.  Mas ,à luz bruxuleante do FMI, o Brasil teria feito o seu “dever de casa”.

Enquanto isso, cortes de gastos nas dotações  de saúde pública  chegam a revistas internacionais acadêmicas de grande circulação, como o” PLoS Medicine” ( veja na Internet ). Em seu número de maio, analisa de forma mais profunda os dados que expus  no Jornal do Brasil em meu artigo “os anjos não cabem no orçamento “”, no sábado passado. Além de confirmar que a taxa de mortalidade infantil no Brasil vem aumentando, o PLoS adverte que essa mortandade pode aumentar ainda mais, se os programas forem reduzidos pela lógica macabra do teto de gastos. O que a revista não refere é a outra ponta do problema. O governo concedeu aumento superior à inflação para remédios em geral e, ao mesmo tempo, diminuiu os produtos médicos oferecidos pela Farmácia Popular. A própria entidade sindical das farmácias acusou o golpe. Os remédios estão encalhando. E os idosos morrendo. Assim ,conseguimos chegar à quadratura  do círculo: matar recém nascidos  e apressar a morte dos idosos. O ajuste fiscal merece.

Fica apenas um gosto amargo na alma dos que lutamos contra os sanguessugas  ,na OMC e na  OMS, para suavizar um pouco a política brutal de propriedade industrial na área de medicamentos, empurrada goela abaixo  pelos países industrializados. A duras penas, com o apoio da sociedade civil, fizemos do Brasil um modelo no combate da AIDS e fomos identificados na ONU como exemplo na saúde pública e no combate a fome. Sim, não há dúvida : O Brasil voltou vinte anos em dois. Nunca uma vírgula foi tão mentirosa.

Aliás, falemos  português claro,  sem  figuras  de estilo barroco, com que nos presenteiam os falantes da alta Brasília.

O Brasil não voltou. Voltar tem o duplo sentido de renascer ou retornar ao ponto de partida. Pretensiosamente.o chavão marqueteiro tenta nos persuadir que o progresso em dois anos foi maior do que os avanços  sociais conseguidos nos  dois mandatos de Fernando Henrique e nos dois de Lula. Ou seja, ao abortar os programas sociais desses dois ex-presidentes – não vou entrar aqui em quem fez mais ou menos-  o marqueteiro nos convida a acreditar que ,com toda a miséria descrita acima, com todo o desemprego, com toda a mortalidade infantil, com todo o aumento da violência urbana, com toda a falência  da industria de transformação, com toda a evasão escolar, com toda a privatização do ensino público ,fundamental e superior, com todo desespero de jovens, que sequer conseguem um estágio decente para trabalhar, com todas as filas de pacientes, diante de hospitais sem médicos, sem equipamentos, sem remédios, com  a classe média em estado de iminente subemprego, com toda essa desfaçatez  chamada neomodernidade , com toda essa mitomania  com o codinome de teto de gastos, com toda essa subserviência a quem impõe ao país cortes de suas exportações de aço e de alumínio, com toda essa violência  se espraiando por quase todos os estados da federação, nesse pântano ,nesse chiqueiro ,o Brasil teria renascido.

Porque, senhor marqueteiro, dizer que o Brasil voltou? O Brasil regrediu, meu senhor. O Brasil se apequenou, minha senhora. O Brasil se expos ao vexame e ao desprezo internacionais. O Brasil dá medo aos que aqui vivem, porque não se sabe de onde virá a foice mortal: da fome, da doença, da falta de hospital ,da bala perdida. Ou da vergonha.

E ainda temos candidatos que, apesar  de tudo isso, nos prometem mais disso. Há até candidatos que sugerem armar a população e pintar de sangue os barracos das favelas e os guetos de nossas cracolândias.  Mas, nas eleições temos nós, o povo, nós os vassalos, nós os contribuintes de um sistema tarifário injusto, o poder do voto e do veto. Nada a temer, portanto .