[ O bom e velho livro ]

24.04.2017

Por Fábio Tucci Farah

Ontem o mundo celebrou o Dia do Livro. Em minha infância, os livros eram festejados diariamente. A biblioteca costumava ocupar lugar de destaque nas casas. Geralmente, centenas de livros rodeavam a televisão. Um bom livro era motivo suficiente para deixá-la calada…

Naquela época, as enciclopédias com lombadas douradas eram objetos cobiçados pela classe média. Tesouro da Juventude, Barsa, Encyclopædia Britannica. Fazer pesquisa para a escola – ou para a vida – era garantia de folhear inúmeras páginas, sentindo o aroma prazeroso das folhas impressas…

Com o passar dos anos, a televisão foi ganhando espaço. E os livros transformaram-se em peças poeirentas da mobília. Em pouco tempo, os computadores conquistaram corações e mentes. E as informações – nem sempre tão confiáveis – ficaram a poucos “cliques” de distância. O Google surgiu em 1998. A Wikipedia, em 2001.

Em uma velocidade vertiginosa, bilhões de páginas começaram a se exibir no mundo virtual. E as belíssimas enciclopédias viraram peças de museu ou objetos de fetiche intelectual. Para entender um pouco melhor o preço que pagamos, sugiro a leitura – se quiser, pode ser em e-book – de “The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains”, do norte-americano Nicholas Carr.

Recentemente, o bom e velho livro sofreu um novo golpe, um golpe covarde, sem chance de reação: a Netflix e suas fantásticas séries! Os livros não tiveram uma gloriosa despedida. Foram saindo, discretamente, de cena. Sem alarde. Alheios às telas sensíveis ao toque. E se tornaram reminiscência de gerações como a minha, acostumadas com sua presença quase onipresente pelo mundo.

Talvez por força do hábito, ou ossos de um ofício em extinção, solidário aos livros, ainda mantenho minha biblioteca real, cada vez maior. Na semana passada, ela ganhou volumes preciosos do amigo Luiz Estêvão, herdeiro de uma das mais invejáveis bibliotecas de minha infância. Presente por minha posse na Academia Brasileira de Hagiologia.

Não celebro o Dia do Livro em 23 de abril. Costumo festejá-lo todos os dias. Um bom livro ainda é um dos melhores refúgios em um mundo cada vez mais ensurdecedor. E um dos mais eficazes remédios para os problemas apontados por Nicholas Carr. Além, é claro, de um excelente antídoto contra inúmeras outras doenças do mundo contemporâneo.