[ O ESTADISTA DA DECÊNCIA: WILSON ROMANO CALIL (1932-2019). ]

29.01.2019

NECROLÓGIO

O ESTADISTA DA DECÊNCIA: WILSON ROMANO CALIL (1932-2019).

 

Por Durval de Noronha Goyos Júnior[1],

em 27 de janeiro de 2019.

 

Faleceu no dia 12 de dezembro de 2018, na cidade de São José do Rio Preto, Estado de São Paulo, o querido e admirado amigo da União Brasileira de Escritores (UBE), Wilson Romano Calil, notável polímato, que foi escritor, orador, médico, jornalista e advogado. Estudou naquela cidade no Instituto de Educação Monsenhor Gonçalves, este tanto formidável quanto inesgotável celeiro de grandes talentos, no qual foi orador oficial dos estudantes, em cuja capacidade foi preso em protesto contra a presença de Getúlio Vargas na cidade. Formou-se ele em medicina na Faculdade Nacional, então situada na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, capital da República, no ano de 1959, tendo sido o orador de sua turma e aclamado pelo historiador Pedro Calmon, da Academia Brasileira de Letras, como “o maior orador universitário que já conheci”. Seu memorável discurso proferido na ocasião presta-se, até os nossos dias, como peça exemplar no estudo da retórica e oratória. Foi membro da Academia Rio-pretense de Letras e Cultura (ARPLC) e fazia parte do núcleo da UBE naquela cidade.

Após sua formatura, o Dr. Wilson Romano Calil abriu uma clínica e cirurgia médica em São José do Rio Preto e logo começou uma campanha de orientação e combate ao uso de drogas, que foi pioneira no País. Seguindo os ditames da consciência e também os melhores exemplos da medicina de seu tempo, atendia a todos os necessitados, indiferentemente da capacidade financeira  de cada qual e se absorvia na dedicação aos seus pacientes, durante suas longas horas de trabalho. Tomava todas as refeições em sua residência, anexa ao consultório, durante as quais pedia, mediante uma placa afixada na parede, para que não se falasse de doenças e de pacientes, no que era atendido, sempre que possível. Não tivesse já muitas atividades, ajudava as famílias de imigrantes, notadamente japoneses e libaneses, a uma melhor integração na comunidade.

Possuidor de grande sensibilidade social e aguda curiosidade intelectual, dava o Dr. Wilson Romano Calil cursos gratuitos de retórica, modalidade na qual também se destacava, em grêmios estudantis e faculdades. Foi prefeito de São José do Rio Preto de 1972 a 1976 e é lembrado como o melhor alcaide na história da cidade, sem jamais ter tido uma carreira política. Campeão insuperável da ética, por opção própria, exerceu o cargo sem remuneração, assim como o seu vice-prefeito. Trabalhava na prefeitura por meio período, que julgava o suficiente para o exercício da função, e dedicava o restante do tempo à sua clínica médica e aos pacientes. Às noites, cursava direito na faculdade local, FADIR, já que no exercício das atividades de prefeito, julgava ser mais que conveniente, necessária, uma formação jurídica.

Em princípio, era contrário às reeleições e voltou ao exercício pleno de sua profissão terminado o mandato, não empregou nem encaminhou parentes para a vida pública e deixou, para além de um legado de importantes obras municipais, uma gigantesca referência moral que tristemente não veio a ser observada. Foi o primeiro prefeito da cidade a se preocupar com o meio ambiente, promovendo a canalização do Rio Preto e a criação do Bosque Municipal, que produzia e distribuía à população mudas de árvores do viveiro ali implantado para incentivar o plantio e a expansão da área verde da cidade, sufocada por um calor inclemente. Criou o programa de alimentação escolar na rede pública municipal, baseando-se em critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS). Promoveu a construção de casas populares com recursos municipais. Deixou a prefeitura sem dívidas, sem inquéritos ou processos e continuou a morar na mesma residência, decorada com os mesmos móveis, onde veio a falecer após quase meio século.

Escreveu as obras biográficas “Cipó TortoA vida de Annibal Vieira[2]”, escrita com a parceria de sua filha Cristiana, e “Mauro Borgesa intolerável decência de um político” além dos manuais  “Administração Pública” e “Oratória e RetóricaAs Técnicas”, escrito com a parceria de sua filha Thaís. Em “Cipó Torto”, como substrato da história infeliz de Annibal Vieira, uma vítima da sociedade de então, o Autor apresenta detalhes importantes da história de São José do Rio Preto e região, bem como dos valores e padrões sócio culturais ali prevalescentes na ocasião, muito ao feitio do que Mário de Andrade consagrou em “Macunaíma” e do Movimento Modernista. Para tanto, de forma magistral, usou como fontes os versos das modas de viola a respeito da vida de seu personagem, escritos por compositores sertanistas contemporâneos.

Contudo, foi através da biografia de Mauro Borges, escrita em 1999, que Wilson Romano Calil expressou com profunda perspicácia o seu pensamento político aplicado às mazelas do Brasil: “é incrível que, seja qual for o momento histórico, determinados políticos, lobistas, estão sempre nas trincheiras do inimigo, marcando posição oposta aos interesses do Brasil e de seu povo. Esses políticos sempre usaram o fantasma do comunismo para manobrarem o governo a seu gosto e de acordo com seus prazeres e interesses[3]”. Mais adiante, trata o neoliberalismo, hoje tão em voga, como um mero eufemismo: “Enfim, dizem que é a livre iniciativa, aqui rotineiramente confundida com livre roubalheira[4]”. Ao tratar dos anos sombrios da ditadura militar no Brasil (1964-1986), o autor constata que “não há militar, vacinado a tal ponto, que não possa ser enganado e usado pelo político civil, mal intencionado. Foi o que ocorreu[5]”.

Em seu livro, Administração Pública, consciente dos deveres perante a cidadania, ele já havia lembrado que “muitos não entendem que alguém possa pregar democracia, sentir ao mesmo tempo a democracia e viver segundo os moldes dela. Muitos não entendem que é um direito inalienável de cada eleitor votar em que quiser, inclusive contra aquele que se elegeu[6]”. Ao mesmo tempo, Wilson Romano Calil lembrava constantemente que era dever absoluto do administrador público, e jamais mero favor,  o de trabalhar diligentemente para toda a comunidade e não apenas para aqueles que o haviam elegido.

Sua obra, Oratória e RetóricaAs Técnicas, é uma referência indispensável ao tratamento do tema analisado, na qual principia por lembrar que o orador deve em primeiro lugar examinar se a substância a ser apresentada vale mais do que o seu silêncio. Depois desta valiosa recomendação, sempre válida tendo-se em vista o deserto cultural que flagela o Brasil, passa Wilson Romano Calil a analisar as técnicas de retórica, elencando dentre elas os mecanismos de expressão, as figuras e vícios de linguagem, que são informações válidas igualmente para a literatura. Tanto primorosa como utilíssima é sua análise de como se monta um discurso ou uma peça oratória[7].

Nos seus trabalhos publicados ou transmitidos pela imprensa, Wilson Romano Calil apresentava sempre importantes reflexões sobre temas caros à Nação brasileira, como a anteposição da remuneração por royalties aos direitos da Humanidade, uma aberração que traria como consequência que medicamentos para o tratamento de neoplasias malignas, ou de doenças para as quais não haviam tratamentos fossem trazidos aos mercados por “preços que são verdadeiros estupros[8]”. Noutro artigo, lembra muito bem que “quando se trata da soberania da Pátria, os brasileiros devem falar a uma só voz e, entre o Irã e os EUA, nossa posição é ficar ao lado do Brasil[9]”.

Seguindo sua tradição de lutar pela formação física e cultural dos jovens, numa ocasião, ao falar aos universitários rio-pretenses reunidos em grande número numa escola técnica, afirmou que “…a juventude é a tradução material da esperança. Pura nos seus anseios, sincera nas suas manifestações, não se percebe nela o estigma das desvirtudes com que o longo da vida marca muitos homens[10]”. Por sua história de vida, tornou-se ele respeitado e admirado por aqueles que o conheceram, ou à sua história, para além de uma referência impecável como cidadão e homem público. Deixou a viúva Teresa Regina, com quem ficou casado por meio século, os filhos médicos, Clícia e Wilson, e as filhas advogadas, Cristiana e Thaís.

Modesto, Wilson Romano Calil ficaria feliz se, na posteridade, fosse lembrado apenas como um homem decente, qualidade que julgava indispensável no ser humano, mas não me contenho em tratá-lo como o Estadista da Decência.

[1] Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE).

[2] Calil, Wilson Romano e Sícoli Romano Calil, Cristiana, Cipó Torto: A Vida de Annibal Vieira, Riocor, São José do Rio Preto.

[3] Calil, Wilson Romano, Mauro Borges: a intolerável decência de um político, Editora Rio-pretense, São José do Rio Preto, 1999, página 79.

[4] Calil, Wilson Romano, op. cit., página 87.

[5] Calil, Wilson Romano, op. cit, página 45.

[6] Calil, Wilson Romano, Administração Pública, edição da Faculdade de Filosofia de Ciências e Letras de São José do Rio Preto, página 2, 1975.

[7] Calil, Wilson Romano e Sícoli Romano Calil, Thaís, Oratória e Retórica – As Técnicas, Raízes, São José do Rio Preto, página 26 et seq.

[8] Calil, Wilson Romano, Os Royalties e os Direitos da Humanidade, Jornal Bom Dia, São José do Rio Preto, 18 de junho de 2010

[9] Calil, Wilson Romano, Algumas Perguntas Incomodas, Jornal Bom Dia, São José do Rio Preto, 20 de abril de 2010.

[10] Calil, Wilson Romano, texto da aula magna proferida para o corpo discente do Colégio Técnico Industrial de São José do Rio Preto, em 7 de janeiro de 1975.