[ Oliveira Lima – PERNAMBUCANOS ILUSTRES XXXV ]

30.08.2017

Por José Domingos Brito

Manuel de Oliveira Lima nasceu no Recife, em 25/12/1867. Historiador, escritor, crítico literário, jornalista, professor, bibliófilo e embaixador. Filho do português Luís de Oliveira Lima e da pernambucana Maria Benedita de Oliveira Lima. Aos seis anos, a família mudou-se para Lisboa, onde concluiu os primeiros estudos. Em 1885 ingressou na Escola Superior de Letras e dá início a atividade jornalística como correspondente do Jornal do Recife. A princípio escreve sobre artes e teatro, mas logo passou a comentar sobre a política inglesa e criticar o domínio das oligarquias sobre a recém-fundada República Brasileira. Daí veio sua fama de monarquista.

Concluiu o curso superior em 1887 e, com o domínio perfeito dos idiomas francês e inglês, se interessa pela carreira diplomática e pelos estudos da História. Em 1890 retornou ao Recife, casou-se com Flora Cavalcanti, uma professora de inglês e francês, e passa a trabalhar no Ministério das Relações Exteriores como Adido à legação em Lisboa. No ano seguinte foi promovido a Secretário e mais tarde foi designado para trabalhar em Berlim. Em 1896 foi transferido para Washington como Primeiro-Secretário sob às ordens de Salvador de Mendonça.
Foi um escritor e leitor visceral, e mantinha estreita amizade com diversos escritores, tais como Gilberto Freyre e Machado de Assis e participou ativamente da fundação da ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1897, Pouco depois foi transferido para a Embaixada de Londres, onde conviveu com Joaquim Nabuco, Eduardo Prado e Graça Aranha. Em seguida foi embaixador no Japão por dois anos. Em 1901 deu parecer contrário ao projeto brasileiro de recebimento de imigrantes japoneses, alertando sobre o perigo de uma mistura com “raças inferiores”. Enquanto isso, sua bibliografia incorporava novas obras, além de manter uma colaboração permanente com artigos nos jornais de Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Na condição de um dos primeiros literatos, entrou para a ABL em julho de 1903

Em 1904 foi nomeado para a Venezuela, o que lhe causou profundo desgosto. Depois foi chefiar a legação brasileira em Bruxelas, cumulativamente com a da Suécia, em 1907. Visto como um importante intelectual, foi convidado, em 1911, pela Universidade de Paris para uma série de conferências, intituladas por ele, de “Formação da nacionalidade brasileira”. No ano seguinte veio o convite para uma série de conferências em diversas universidades americanas.

Pouco depois foi cotado para a chefia da legação em Londres, em 1913, mas foi vetado pelo Senador Pinheiro Machado, sob a acusação de ser monarquista. Também era mal-visto pelo governo britânico por defender o ideal de que o Brasil permanecesse neutro na Primeira Guerra Mundial e por sua proximidade intelectual com a Alemanha. Para agravar a situação, suas relações com o Barão do Rio Branco não se davam a contento para ambos, devido a sua franqueza e a dificuldade do Barão em aceitar críticas. Mas a principal divergência entre os dois referia-se a política externa brasileira. Ele criticava a “Doutrina Monroe” e não gostava do “pan-americanismo” que impunha a liderança norte-americana no continente sul-americano. Seu temor era que a herança cultural europeia do Brasil se visse diminuída, caso o País seguisse a política externa dos Estados Unidos,

Mais ligado a cultura e política européias, seu pensamento sobre a diplomacia brasileira era claro: “O imperialismo contemporâneo assenta sobre o negócio. A pujante democracia norte-americana nasceu do conúbio da liberdade com o interesse: os frutos da frondosa árvore são os pomos de ouro da antiga fábula. O dever primordial dos nossos governantes é tratar de colocar e tornar assim remuneradora a produção nacional, pois que sem fortuna não há vigor e sem vigor, não se pode infundir respeito”. Assim, defendia sempre a dignidade do Brasil na condução dos negócios externos e isto não coincidia com os objetivos prioritários do Barão do Rio Branco

Possuia uma quantidadade de livros sobre o Brasil, que se constituia no 3º maior acervo, perdendo apenas para a Biblioteca Nacional e Biblioteca da USP. Sua bilioteca foi doada à Univesidade Católica de Washington, onde era professor, com uma imposição: ele próprio seria o primeiro bibliotecário e organizador do acervo, função que desempenhou por quatro anos. Não fez a doação à uma instituição brasileira por temer que a coleção não recebesse os cuidados necessários. São 58 mil livros além de correspondência trocada com intelectuais, mais de 600 quadros e incontáveis álbuns de recortes com notícias de jornais. Sua produção bibliográfica é expressiva e sua obra mais importante, em sua opinião e segundo os críticos, é a biografia Dom João VI no Brasil, publicada em 1909. É considerada pelos historiadores a obra mais completa sobre aquele período, um clássico da historiogrfia brasileira.

Seu primeiro livro – Pernambuco: seu desenvolvimento histórico – saiu em 1894 e a partir daí pode-se destacar outros importantes lançamentos: Aspectos da literatura colonial brasileira (1896), O reconhecimento do Império (1902), No Japão (1903) Panamericanismo e Cartas de Estocolmo (1907), La Langue portugaise, La Littérature brésilienne (1909), Machado de Assis et son oeuvre littéraire (1909), Formation historique de la nationalité brésilliene (1911), Evolução histórica da América Latina comparada com a América inglesa (1914), História da civilização (1921), O movimento da Independência (1922), Aspectos da história e da cultura do Brasil (1923), D. Pedro I e D. Miguel (1925), O Império brasileiro (1927) A publicação póstuma de suas Memórias, publicada em 1937 pela José Olympio, teve enorme repercussão, sobretudo pelas revelações íntimas e apreciações críticas.

No início do século XX, foi um dos mais polêmicos e intelectualizados homens de letras do Brasil. Participou de importantes debates e levantou bandeiras que interessavam a toda a humanidade. Mesmo hoje, em se tratando das modernas relações internacionais, muitos ainda o consideram como uma das figuras mais representativas da diplomacia. Um famoso escritor sueco ressaltou que o historiador-diplomata era “o embaixador da intelectualidade brasileira”. Como uma das homenagens que lhe foram feitas, na casa onde nasceu na rua que leva seu nome, no bairro da Boa Vista, no Recife, funciona hoje o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco. Faleceu em 24/3/1928, e foi sepultado no cemitério Mont Olivet, Washington. Na lápide não consta seu nome, mas a frase “Aqui jaz um amigo dos livros”