[ Os anjos não cabem no orçamento ]

21.05.2018

Adhemar Bahadian

O Valor, no dia 12 deste mês, publica reportagem, assinada por Ligia Guimarães  e Caterine Vieira,  que comprova ter havido ,entre 2015 e 2016, um aumento de 11% nas mortes evitáveis de crianças brasileiras  entre um mês e quatro anos de idade. Nos últimos 13 anos, a taxa de mortalidade infantil vinha diminuindo gradativamente e o surto observado  entre 2015 e 2016 tem origem em  cortes de gastos públicos. O aumento de mortes foi generalizado. Apenas Rio Grande do Sul , Sergipe, Paraíba   e Distrito Federal tiveram redução de óbitos nesta faixa de idade. São Paulo, o Estado mais rico da Federação, passou de 887 óbitos em 2015 para 1014 em  2016. As repórteres  se deram ao cuidado de analisar estudos feitos pela Fundação Abrinq,  bem como  de entrevistar representantes do Ministério da Saude .

O resultado dos estudos e das entrevistas é sombrio. O programa Rede Cegonha ,que se ocupa do pre-natal e da criança e sua mãe até os dois primeiros anos de vida , teve no orçamento em 2015, 172 milhões de reais. Desses, apenas  21 milhões foram efetivamente gastos. Em 2016, dos  117 milhões orçados, apenas  18,3 milhões . Crianças menores de 5 anos ,com desnutrição ,tiveram percentual aumentado de 12,6% para 13,1 % de 2016 para 2017. A reportagem cita ainda as restrições no Bolsa Família, no Programa Nacional de Alimentação escolar, redução do programa Mais Médicos e outros. A reportagem merece ser lida na íntegra. Tente a internet.

As consequências desses cortes em programas sociais dirigidos à primeira infância deveriam ser criminalizados. Essas crianças mortas, não o foram por descuido. Há dolo, quando você corre o risco de provocar  morte por incúria . Além das crianças  mortas, as que sobrevivem estarão destinados a ter um aproveitamento escolar sofrível e dificilmente serão cidadãos  plenos ,nesta sociedade ímpia e inescrupulosa  em que nos estamos transformando.E nós que pensávamos que  nossas mazelas se concentravam no desemprego endêmico, no corte de investimentos públicos , estamos constatando, a cada dia , estar a sociedade brasileira sitiada por invasores iguais ou piores dos que aqui aportaram ,na colônia , no império ou na república para o saque ostensivo ou digital.

Crianças não podem morrer, em nome de um ajuste fiscal. Não há dor de mãe que o suporte. Não há dignidade de pai que o esqueça. Não há povo que o sancione. Não há nação  que o defenda. Não há tribunal que não o condene. Não há Deus que o perdoe.

Certamente haverá desmentidos. Será um ponto fora da curva? Alguém terá esquecido de fazer o dever de casa?. Por maiores que sejam as desculpas, há uma tal malignidade no ar, um tamanho descrédito em palavras que saem de determinadas bocas ,que ,mais uma vez, responderemos com  silêncio  aos que nos tapeiam com números  e dados, que nos apontam para uma modernidade cavernosa e putrefata, que nos dirigem os passos para a desarmonia e  ódio entre irmãos. A sociedade brasileira foi condenada, em todas as instâncias, a vinte anos de regime fechado em uma camisa de força ,chamada teto de gastos.

Os arquitetos desta política do desespero ,bem como seus seguidores que pleiteiam ganhar as próximas eleições, tramam tramoias para manter o teto de gastos , à custa de desvinculações da saúde e da educação , despesas obrigatórias, como manda a Constituição . As futuras gerações de brasileiros terão ,principalmente os de classe pobre e média, seu destino traçado pelos humores dos mãos de tesouras do orçamento.Que eu saiba ,não há país neste planeta, e quiçá em toda a via láctea ,que tenha adotado, no presente ou no passado, política tão alheia a seu povo. Onde estão propostas decentes de reforma tributária?  Uma reforma menos madrinha dos ricos e menos megera dos pobres. Neste país ,segundo os matreiros, há dois tipos de párias, as crianças e os velhos.

Sim, não há mais crédito a conceder. Não mais escutaremos essas torpezas e vilanias. Divirtam-se até outubro.Refastelem-se nesta pífia reforma política, que  distribui fundos públicos para garantir a perpetuação  de manjadas oligarquias e tenebrosas articulações . Melhor seria publicar financiadores e financiados para que se saiba quem serve a quem e que politicas se podem esperar de um deputado e de um senador.Jogo claro e sem mumunhas. Nos poupem de maracutaias .Nós respeitamos mais um vendido honesto do que um honesto vendido.

Façam de conta que o nosso silêncio é consentimento . Continuem a hipocritamente chamar de empreendedorismo a multiplicação  de famílias de classe média a vender pelas ruas quentinhas e briqueabraques. A colocar no prego as joias sentimentais de suas avós.

E assim, para o bem ou para o melhor, nas eleições , falaremos nós. E nossas vozes serão ouvidas pelos anjos que vocês  enviaram ao limbo ,nesta terra e além dela.

(bahadian@jb.com.br)