[ Patranhas, patotas e pantomimas ]

25.06.2018

Adhemar Bahadian
Patranhas são histórias falsas.Contos do vigário.Mas, como o vigário de Roma é mais progressista que os nossos eminentes Chicago – boys e outros neoliberais do patropi, não tive alternativa senão tirar da naftalina a esquecida patranha. Porém , depois de breve exposição ao sol deste junho friorento, não é que patranha se mostrou perfeitamente adequada aos tempos que correm?
A cada dia que passa, se torna mais óbvio que estamos diante de uma globalizada patranha. Desde os tempos sombrios em que Lady Thatcher e Lord Reagan bailavam sob os holofotes da City e de Wall Street, fomos informados de que o mercado seria o maestro, o Deus ex- machina do equilíbrio econômico dos novos tempos. Tudo seria perfeito e suave nesta navegação em mares anteriormente sobressaltados por uma primeira guerra, uma segunda guerra, uma outra guerra fria ,a queda de um muro em Berlim, o fim do socialismo tirânico, a ascensão do capitalismo iluminista, o esvaecimento do Estado – Nação, o fim da história.
Lúbrica, Wall Street inventou alambicadas alquimias para tornar o crédito um jogo sem risco. A sociedade do dinheiro plastificado cresceu como uma bolha cancerígena, cogumelo nuclear a explodir no teto do mundo . Sua poeira radioativa decantou sobre continentes e ilhas. Cresceu no coração dos crédulos um grande medo.Centenas de milhares de famílias perderam suas casas e suas economias, milhões de dólares evaporaram no ar com um cheiro pútrido . Mas, bancos , e sobretudo banqueiros, receberam estratosféricas ajudas do Tesouro Americano, vale dizer ,do cidadão americano. Patranhas mostraram suas evisceradas vísceras, o mercado não se autorregulou e o Estado interveio para impedir o desarranjo geral da economia mundial. Conclusão: a pretensa teoria neoliberal de que o mercado se ajusta ,nada mais é do que uma ideologia. Rala, como outra qualquer. Mas, como foi possível sairem tão supimpas , os escroques das finanças ?
Aí, entram as patotas. Hoje, está fartamente documentada a combinação funesta da soberania financeira e lobbies do Congresso americano . Mobilizam centenas de milhões de dólares, em apoio a grandes bancos insolventes e à manutenção de megabonus a executivos responsáveis pelo maior assalto bolado pelas locomotivas financeiras do século XXI. A patota financeira ,tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, se beneficia da porta giratória entre setor privado e governo. O ministro da fazenda de hoje, é o presidente do super banco de amanhã ou vice -versa. Uma roda da fortuna amparada por patranhas e patotas. Uma ação entre amigos da Cracolândia do tio Patinhas.
Na Terra da Santa Cruz, temos um certo tropismo sentimental pelos poderosos e ricos. É de bom-tom macaquear os ditames do corporativismo financeiro. Faz pouco mais de dois anos, inventamos aqui, com algumas pantomimas para dar-lhe sabor local, uma tal de politica de teto de gastos ,que assombrou o mundo , de Boston a Botsuana .Que se saiba, nenhum país tentou coisa parecida. Não há também ,até a data em que escrevo, notícia de que seja conhecido nos planetas da Via Láctea. O sucesso da empreitada, porém,como dizem em Lisboa os que daqui fugiram, é simplesmente bestial. Temos uma inflação abaixo da meta, um desemprego acima de qualquer meta é uma raiva latente em todo e qualquer cidadão de bem.
E num país das dimensões demográficas, das riquezas do subsolo e fundo do mar, como o Brasil, estamos a cortar fundos da educação,da saúde, dos investimentos públicos. Uma economia genocida. E a patota não para de se assanhar . Vejam os assessores econômicos dos principais candidatos à presidente. Todos passistas da porta giratória. Não seria o caso de substituirmos nossas urnas eletrônicas por bancos eletrônicos ? Poderíamos até ser aplaudidos por Wall Street. A glória.