[ PERNAMBUCANOS FAMOSOS XLIV – Lampião ]

08.11.2017

Por José Domingos Brito

Virgulino Ferreira da Silva nasceu em Serra Talhada, em 4/6/1898. Ficou conhecido como “Rei do Cangaço”, por ser o mais bem sucedido líder cangaceiro da história. Ganhou o apelido “Lampião” devido a sua capacidade de disparar consecutivamente, iluminando a noite. Desde criança demonstrava certa habilidade como vaqueiro, cuidava do gado, trabalhava com artesanato de couro e conduzia tropas de burros para comercializar na região da caatinga. Por volta dos 19 anos, chegou a trabalhar para Delmiro Gouveia transportando algodão e couro de bode para a fábrica da Pedra, hoje município homônimo do empresário que o fundou. Esse conhecimento precoce dos caminhos do sertão foi valioso para o futuro cangaceiro.

Era visto como um garoto inteligente, pois era alfabetizado e usava óculos para leitura, características incomuns para a região. Ainda menino, ganhou um presente de seu tio, a biografia de Napoleão Bonaparte. Ficou admirado com a bravura do imperador e seu traje, o que vai lhe permitir mais tarde a introdução de várias novidades no cangaço desde o formato do chapéu em meia lua, até a formação de grupos armados e táticas de guerra. Sua família travava uma uma disputa de terras com outras famílias locais, quando seu pai foi morto em confronto com a polícia em 1919. Virgulino jurou vingança e, junto com dois irmãos, passou a integrar um bando chefiado pelo cangaceiro Sinhô Pereira. Em 1922, tornou-se líder do bando, nomeado pelo proprio chefe, que resolveu se afastar do bando, devido a dura perseguição da polícia. .

No mesmo ano matou o informante que entregou seu pai à polícia, e realizou o maior assalto da história do cangaço àquela altura, contra a Baronesa de Água Branca, em Alagoas. A partir daí sua fama vai se alastrando como salteador de pequenas cidades e fazendas em cinco estados do Nordeste. Foi acusado de roubo de gado, sequestros, assassinatos, torturas, estupros e saques. Entretanto e paradoxalmente, a fama de justiceiro foi se afirmando até se tornar uma especie de Robin Hood do sertão, que roubava de fazendeiros, políticos e coronéis para dar aos pobres miseráveis. Tal contradição permanece no imaginário popular até hoje.

Não se sabe quantos assaltos, saques, invasões ele cometeu ao longo da vida, mas calcula-se em torno de 200. Em 1926, Juazeiro do Norte (CE), não foi saqueada devido a intervenção do Padre Cícero, que o convenceu a não molestar os habitantes. Lampião vinha de uma família católica e tinha admiração e respeito pelo “Padim Cíço”, com o qual manteve certo relacionamento, que foi além do aspecto religioso. O Padre, além de religioso, era um habilidoso e influente político que mantinha boas relações com Floro Bartolomeu, deputado federal pelo Ceará. Por essa época, a Coluna Prestes avançava pelo Nordeste e ameaçava o Governo de Arthur Bernardes. Para o Padre Cícero, só havia em todo Nordeste uma pessoa que poderia derrotar a Coluna e indicou o nome de Virgulino.
O deputado organizou uma força de combate composta de sertanejos e jagunços do Cariri, denominada “Batalhões Patrióticos”, e escreveu uma carta convidando Lampião para o combate. Mas antes de enviá-la, pediu ao Padre Cícero para endossar o pedido e enviar ao cangaceiro. Poderíamos perguntar: mas como se deu isso, se Lampião era um bandido procurado pela polícia? O fato é que naquela época a politica local era o que imperava, e o pragmatismo (e oportunismo) politico também. Lampião viu ali uma boa oportunidade para largar o cangaço e seguir a vida como respeitável homem do Governo. Em 12/3/1926, seguiu para Juazeiro com 50 homens e ficou acampado nas proximidades da cidade. Padre Cícero foi ao seu encontro em comitiva e lhe outorgou uma patente de capitão dos Batalhões Patrióticos, assinada por um funcionário do Ministério da Agricultura, ou seja, um documento sem valor algum.

Além dele, os capangas receberam patentes inferiores e todo o grupo recebeu fuzis automáticos, muita munição e cem contos de réis. Um conto equivaleria mais tarde a mil cruzeiros. O agora “Capitão Virgulino” parte para o enfrentamento com a Coluna Prestes. Como não era ingênuo, resolveu testar sua autoridade. Mandou um recado aos seus desafetos em Pernambuco (Vila de Nazaré), querendo saber como seria recebido na condição de oficial do Exercito Patriótico. A resposta dos nazarenos foi concisa: “ à bala”. Desapontado com sua pseudolegalidade, volta para falar com o Padre Cícero, mas não é recebido. Assim, interrompeu sua curta carreira militar de defensor público e retoma a vida de cangaceiro, agora bem mais armado, aterrorizando os sertões nordestinos.

Confiante com sua tropa armada com fuzis automáticos, decidiu atacar a grande cidade de Mossoró (RN), em 13/6/1927. O bando entrou na cidade dividido em quatro subgrupos. Avisado previamente do ataque, o prefeito Rodolfo Fernandes organizou uma tropa, distribuiu seu pessoal nas quatro torres da cidade e derrotou o bando. Até hoje a cidade mantém orgulhosa o Memorial da Resistência, que retrata a história da única cidade que botou o bando de Lampião para correr. As invasões e ataques nas cidades e fazendas seguiram seu curso em outos estados chegando até a Bahia, onde o bando incorporou novos cangaceiros.

Em dezembro de 1929, entrou em Queimadas (BA); cortou os fios do telégrafo; sequestrou os telegrafistas e pediu um resgate de 500 mil réis. Depois, foi até a cadeia, prendeu o sargento e sete soldados. Foi almoçar e depois voltou para a cadeia e soltou todos os presos. Mandou os soldados ajoelharem e matou um por um. Pela tarde, saqueou o comércio, conseguindo 20 contos de réis. À noite foi ao cinema e depois mandou fazer um baile. Lampião era assim mesmo: violento, vaidoso e festeiro. Pouco depois invadiu a cidade de Quinjigue. Após o saque e matar alguns, fez outro baile e distribuiu dinheiro entre a população carente. Como se vê, era também caridoso. Foi na Bahia, na cidade de Santa Brígida (Raso da Catarina), em dezembro de 1930, que ele conheceu Maria Bonita, casada com um sapateiro, mas apaixonada pelo cangaceiro. Ela juntou-se ao grupo, sendo a primeira mulher a participar do cangaço.

No mesmo ano foi noticia no “New York Times”, numa reportagem sobre a violência no Brasil. Em 1931, Corisco, seu fiel escudeiro, também consegue uma mulher – Dadá – logo incorporada ao bando. Apartir daí a presença feminina no bando é constante. Em 1932, Maria Bonita teve uma filha – Expedita Ferreira Nunes – e existe uma informação não comprovada que teve mais filhos. Na Bahia os ataques prosseguem em diversas cidades e fazendas. Por essa época recebeu uma informação para tomar cuidado, pois a volante do Capitão Bezerra estava no seu encalço. “Diga a ele que não tenho medo de boi velhaco, quanto mais de bezerra”, foi sua reposta. O Governo baiano espalhou um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem entregasse, “de qualquer modo, o famigerado bandido”. Seria algo como 200 mil reais hoje em dia, e isto fez com que retornassem à Sergipe. A legislação da época, que proibia a polícia estadual de agir além de suas fronteiras, favorecia a ação do bando, que ficava permanentemente viajando ente os estados do Nordeste.

O ex-secretário do Padre Cícero, Benjamin Abraão, fotógrafo e metido a cineasta teve um encontro com Lampião, em 1936, e convence-o a se deixar fotografar e filmar juntamente com todo o bando. Foram vários encontros com o fotógrafo e em 6/3/1937 saiu uma reportagem na revista “O Cruzeiro” intitulada “Filmando Lampião”, que irritou Lourival Fontes, chefe do DIP-Departamento de Imprensa e Propaganda, do Governo Vargas. O filme foi apreendido e fez com que o Governo desse ordens expressas de capturar o famigerado cangaceiro. Em 27/6/1938, o bando acampou na fazenda Angicos, situada no sertão de Sergipe. Era noite, chovia muito e todos dormiam em suas barracas. Por volta das 5hs. do dia 28, os cangaceiros levantaram para rezar o ofício e se preparavam para tomar café, quando um cangaceiro deu o alarme. Era tarde demais. Os policiais do Tenente João Bezerra e do Sargento Aniceto Rodrigues da Silva abriram fogo com metralhadoras portáteis, e os cangaceiros não puderam empreender qualquer tentativa viável de defesa.

Os cangaceiros foram decapitados e suas cabeças fizeram um “tour” por diversas cidades. Percorrendo os estados nordestinos, o tenente João Bezerra exibia as cabeças – já em adiantado estado de decomposição – por onde passava, atraindo uma multidão de pessoas. Primeiro, os troféus estiveram em Piranhas, onde foram arrumados cuidadosamente na escadaria da Prefeitura, junto com armas e apetrechos dos cangaceiros, e fotografados. Depois seguiram Salvador, onde permaneceram por seis anos na Faculdade de Odontologia da UFBA. Em seguida ficaram expostas no Museu Antropológico Estácio de Lima, do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues por mais de 30 anos. Durante muito tempo, as famílias de Lampião, Corisco e Maria Bonita lutaram para dar um enterro digno a seus parentes. O economista Sílvio Bulhões, filho de Corisco e Dadá, em especial, empreendeu esforços para sepultar os cangaceiros e parar, de uma vez por todas, aquela macabra exibição pública.

O enterro dos restos mortais só ocorreu depois do Projeto de Lei nº 2.867, de 24/5/1965. Tal projeto teve origem nos meios universitários de Brasília, logo reforçado por pressões sociais e do Clero. As cabeças de Lampião e Maria Bonita foram sepultadas no dia 6 de fevereiro de 1969. Tais fatos contribuíram para ampliar e eternizar o mito, que antes mesmo já era conhecido internacionalmente. Em 1953, o filme O cangaceiro, dirigido por Lima Barreto, foi o primeiro a conquistar as telas do mundo e ganhou o prêmio de melhor filme de aventuras e de melhor trilha sonora, com a música Mulher Rendeira.

Um fato interessante e pouco divulgado é que Mulher Rendeira é uma música composta pelo próprio Lampião. Isto foi confirmado por alguns biógrafos e recebeu a chancela de Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó, que era rendeira, em 1922. Tornou-se um hino de guerra dos cangaceiros, tendo inclusive relatos de que muitos ataques às cidades teriam sido feitos com os cangaceiros cantando Mulher rendeira.