[ PERNAMBUCANOS ILUSTRES XV ]

26.04.2017

Por José Domingos Brito

Josué Apolônio de Castro nasceu no Recife em 05/09/1908. Médico, nutrólogo, geógrafo, professor, político, escritor e autoridade mundial no combate à fome. Sua atuação no plano nacional e internacional abrangeu o plano ecológico com estudos e projetos, bem como o plano político com participação em vários organismos sociais. Seus primeiros estudos se deram em casa com sua mãe professora e continuados no Instituto Carneiro Leão e Ginásio Pernambucano, tradicionais escolas do Recife. Durante a infância, morava próximo aos mangues da cidade, uma região de mocambos habitada por retirantes e caranguejos. Foi seu primeiro contato com o problema da fome visto de perto.

Em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar na Faculdade Nacional de Medicina, onde permaneceu durante seis anos. Não obstante o interesse pela psiquiatria, foi levado a se especializar em Nutrição. Aos 21 anos retornou ao Recife e montou sua clínica. Pouco depois foi contratado por uma fábrica para examinar trabalhadores com problemas de saúde indefinidos e acusados de indolência. Numa conversa com os patrões expôs o diagnóstico: “Sei o que meus clientes têm. Mas não posso curá-los porque sou médico e não diretor daqui. A doença dessa gente é fome”. Foi demitido do emprego e passou a encarar a dimensão social da doença, que era ocultada por preconceitos sociais e climáticos.

Sua preocupação social ficou mais aguçada com o momento de agitação política da época. A Revolução de 30 dera inicio ao Estado Novo, colocando a política brasileira num estado de ebulição. Mas, ele manteve-se longe da militância político-partidária e passou a realizar pesquisas sociais referentes aos problemas da alimentação e da habitação em bairros operários do Recife. Seus estudos levaram-no a ver a fome como uma catástrofe social e não uma consequência das condições físicas, climáticas e étnicas, como alguns estudos afirmavam. Sua conclusão foi que o desnível social resultava de uma estrutura econômica e social impostas no período colonial e mantidas nos períodos Imperial e republicano. Em 1932 tornou-se professor livre-docente de fisiologia da Faculdade de Medicina de Recife, com a tese O problema fisiológico na alimentação. No mesmo ano orientou a realização de uma pesquisa pioneira no Brasil, relacionando a produtividade com a alimentação do trabalhador.

A pesquisa resultou na publicação de seu primeiro livro em 1935: Condições de vida das classes operárias do Recife, publicado pelo Departamento de Saúde Pública, e serviu como base posterior para a formulação do salário-mínimo. No mesmo ano casou-se com sua ex-aluna Glace Rego Pinto e foi morar no Rio de Janeiro. Após breve período de dificuldades financeiras, passou a lecionar Antropologia na Universidade do Distrito Federal (UDF), organizada por Anísio Teixeira. Paralelo a atividade docente, passou a escrever com regularidade e publicou o livro Alimentação e raça, em 1936. Embora não fosse filiado à ALN-Aliança Libertadora Nacional, publicou vários artigos em jornais ligados a essa organização. Em 1937, utilizando-se do método geográfico para apresentar o mapa das regiões alimentares, publicou o livro: A alimentação brasileira à luz da geografia humana, lançado pela Livraria do Globo, causando grande expectativa no meio acadêmico e político-social. Ao todo chegou a publicar 30 livros, e com tantas atividades ainda achou tempo para incursionar na literatura, publicando junto com Cecília Meireles, o livro Festa das letras, em 1939.

 

Nesta época foi criada a Universidade do Brasil, com a extinção da UDF, onde passou a ocupar interinamente a Cátedra de Geografia Humana, na qual se efetivaria em 1957, por concurso, defendendo a tese sobre Fatores de localização da cidade do Recife. Em 1938 foi convidado pelo governo italiano para realizar conferências nas universidades de Roma e Nápoles sobre a temática “Os problemas de aclimatação humana nos trópicos”. A partir daí, passou a ficar famoso e conhecido até fora do Brasil por suas atividades como nutrólogo, sociólogo, geógrafo etc. De 1940 em diante participou de todos os projetos governamentais ligados à alimentação, como a educação alimentar; coordenou a implantação dos primeiros restaurantes populares; dirigiu as pesquisas do Instituto de Tecnologia Alimentar e criou periódico Arquivos Brasileiros de Nutrologia. Ainda em 1940, passou a trabalhar no Serviço de Alimentação e de Previdência Social (SAPS), e fundou a Sociedade Brasileira de Alimentação. Em março de 1944 foi criado o Instituto Técnico de Alimentação (ITA), cuja direção ficou a seu cargo. Foi convidado oficial de vários países para estudar os problemas de alimentação e nutrição: Argentina (1942), Estados Unidos (1943), República Dominicana e México (1945) e França (1947).

O ano de 1946 foi marcado pela publicação de Geografia da fome, que causou impacto nos grupos conservadores e tirou da obscuridade o quadro trágico da fome no país. Enfatizou as origens socioeconômicas da tragédia e denunciou as explicações deterministas desse quadro. No mesmo ano, fundou e dirigiu o Instituto de Nutrição da Universidade do Brasil. Cinco anos após lançou Geopolítica da fome, causando impacto ainda maior, quando mudou sua escala de trabalho, passando a analisar o problema da fome no mundo inteiro. Os dois livros definiriam sua posição política e disposição de luta. Divulgados em vários idiomas, fizeram crescer o respeito e admiração ao seu trabalho, contribuindo para que em 1951 ele fosse colocado na presidência do Conselho Executivo da FAO-Food and Agricultural Organization (1952-56) e membro da Comissão Nacional de Política Agrária, criada por Vargas em 1951 e, dois anos depois, nomeado vice-presidente da Comissão Nacional de Bem-estar Social. Naquele ano, ele fora ainda candidato de Vargas, que voltara ao poder pelo voto, a Ministro da Agricultura, mas a forte oposição de grupos conservadores do PSD-Partido Social Democrático que apoiavam o governo impediu a sua ascensão ao Ministério.

Uma de suas facetas pouco conhecida é seu gosto pelo cinema. Na época em que dirigia a FAO, em Roma, ele se aproximou do mundo do cinema e seus escritos suscitaram interesse de cineastas do neo-realismo italiano, como Roberto Rosseline e Cesare Zavattini, ambos envolvidos em projetos de realizar filmes baseados em Geografia da Fome e Geopolítica da Fome. Desses projetos, realizou-se apenas o segmento brasileiro do projeto de Zavattini, que resultou no filme “O Drama das Secas”, filme de Rodolfo Nanni de 1958.

Convidado a participar diretamente na política, ingressou no PTB-Partido Trabalhista Brasileiro e exerceu dois mandatos como Deputado Federal (1954-58 e 1958-62). Foi o deputado federal mais votado em todo o Nordeste. Ao final do segundo mandato, foi designado embaixador do Brasil na Conferência Internacional de Desenvolvimento, da ONU, em Genebra e em seguida, na reunião da FAO, em Roma. Como Deputado, apresentou o projeto de regulamentação da profissão de nutricionista e o projeto de reforma agrária, entendida como “um processo de revisão das relações jurídicas e econômicas entre os que detêm a propriedade rural e os que nela trabalham”. Com o Golpe de 1964, foi destituído do cargo de embaixador do Brasil junto aos organismos internacionais da ONU, em Bruxelas. Sem condições de voltar à pátria, estabeleceu-se em Paris e continuou sua luta contra a fome e o subdesenvolvimento.

Em Paris foi acolhido pelo governo francês, que o designou professor associado do Centro Universitário de Vincennes, lecionando também na própria Universidade de Paris. Ministrou aulas para alunos de pós-graduação no Instituto de Altos Estudos para a América Latina, então dirigido pelo geógrafo Pierre Mombeig, que conhecia bem o Brasil. Chefiou o Centro Internacional de Desenvolvimento, atuando sobretudo na África e desenvolvendo trabalhos, especificamente no Marrocos. Presidiu o Comitê para a Constituição dos Povos e foi vice-presidente da Associação Parlamentar Mundial. Nesta fase, além da influência sobre os estudantes de todo o mundo que convergiam para estudar em Paris, canalizou esforços para os problemas da Paz. Aí viveu os 10 últimos anos, onde faleceu em 24/09/1973 e foi sepultado no Rio de Janeiro.

Entre os prêmios e condecorações que recebeu, constam: Prêmio Pandiá Calógeras (1937), Professor Honoris-Causa da Universidade de San Domingos e de San Marcos (1950), Prêmio Franklin D. Roosevelt, da Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos (1952), Prêmio Internacional da Paz, do Conselho Mundial da Paz (1954), Oficial da Legião de Honra, do governo francês (1955), Grã-Cruz in memoriam, da Ordem do Mérito Cultural do Ministério da Cultura (2006). Foi ainda indicado ao Prêmio Nobel da Paz nos anos de 1953, 1963, 1964 e 1965. Sua memória e legado são mantidos no Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro, fundado em 1979 no Recife. Em 1989 sua família incorporou todo seu acervo documental e biblioteca ao Centro, colocados à disposição e do público e pesquisadores. Trata-se de um expressivo acervo de informações referentes ao problemas da fome e do subdesenvolvimento.

(Fonte)