[ Pernambucanos Ilustres XXI – Moacir Santos ]

31.05.2017

Por José Domingos Brito

Moacir José dos Santos nasceu em 26/07/1926, em São José do Belmonte. Compositor, maestro, arranjador e multi-instrumentalista. É considerado como um dos principais arranjadores, que renovou a linguagem da harmonia na música popular brasileira. Órfão de pai e mãe aos 3 anos, foi morar com a madrinha em Flores do Pajeú. Desde cedo sua brincadeira predileta era imitar a banda de música da cidade, com seus amigos, utilizando-se de latinhas e pífanos. Não perdia os ensaios da banda e foi aprendendo a tocar todos os instrumentos. Aos 10 anos já se aventurava na trompa, saxofone, percussão, clarineta, violão e banjo, até que foi incorporado aos 14 anos como clarinetista da Banda Municipal.

Em seguida fugiu de casa e fez uma peregrinação por diversas cidades do sertão, sempre tocando em bandas municipais até 1943, quando foi trabalhar na Rádio Clube do Recife, e se apresentava num programa comandado por Antônio Maria. Em 1944 foi para João Pessoa para cumprir o serviço militar. No exército foi logo acolhido na banda marcial. No ano seguinte ingressou na Rádio Tabajara da Paraíba como saxofonista solista. Foi aí que conheceu sua futura mulher Cleonice Santos. O casal decidiu tentar a vida no Rio de Janeiro, em 1948, e logo foi contratado pela Rádio Nacional, onde trabalhou por 18 anos, como maestro. A Direção da casa, não botando fé naquele negrinho, pediu ao maestro titular Chiquinho para explicar como havia sido feito o teste com o jovem maestro e ouviu a seguinte explicação: “O teste foi para nós, senhor diretor. Colocamos umas músicas para o rapaz e ele tocou tudo. Entretanto, ele colocou umas músicas para nós e nós não as tocamos”.

Em abril de 1949 nasceu o único filho do casal e no mesmo ano ele decidiu estudar regência. Ingressou no curso do maestro Guerra Peixe, um dos mais importantes do País. Depois, em busca de uma formação mais sólida e diversificada ingressou no curso do maestro alemão Hans-Joachim Koellreuter, precursor do dodecafonismo no Brasil, de quem se tornou assistente. O curso era de 5 anos, mas ele atingiu a excelência em 3 anos em todas as disciplinas. Em 1954 foi trabalhar em São Paulo, contratado como diretor artístico da TV Record. Ficou apenas dois anos e retornou ao Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como assistente de Ari Barroso nas gravadoras Copacabana e Rozenblit. Em seguida, passou a dar aulas e ficar famoso como professor de gente muito talentosa como Paulo Moura, Carlos Lyra, Flora Purim, Oscar Castro-Neves, Baden Powell, Maurício Einhorn, Sérgio Mendes, João Donato, Roberto Menescal, Nara Leão, Dori Caymmi e Airto Moreira entre outros. Com esse time de alunos é que ficou conhecido como “Patrono da Bossa Nova”.

Foi parceiro de Vinicius de Moraes, que o homenageou na canção Samba da benção: “Moacir Santos/tu que não és um só, és tantos/como este meu Brasil de todos os santos”. Baden Powell também não economizava em elogios: “Era um professor sensacional, meio metafísico, explicava a harmonia, os intervalos entre as notas, as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. Fui estudar com ele essas sabedorias”. Prestigiado pelos grandes músicos, teve seu primeiro álbum solo gravado pela lendária gravadora Forma, em 1965, intitulado Coisas. Perguntado por que escolheu esse nome, respondeu: “Os compositores eruditos chamam suas músicas de ‘opus’. Desejei ser um compositor erudito, mas não ousei. Então, ‘coisas’ é minha tentativa de ser um deles”. Foi também procurado pelos cineastas para fazer trilhas sonoras para filmes tais como: Love in the Pacific, Seara vermelha, Ganga Zumba, O santo médico, Os fuzis etc.

Em 1967 foi convidado para a estreia mundial do filme Amor no Pacífico, e decidiu fixar residência em Pasadena, Califórnia, onde passou a viver compondo trilhas para o cinema e ministrando aulas de música. As condições de vida de um músico negro aqui eram bem mais desfavoráveis do que nos EUA, onde teve seu valor devidamente reconhecido. Lá chegou a gravar mais três discos, considerados clássicos: Maestro (1972), Saudade (1974) e Carnival of the spirits (1975). Passou a visitar o Brasil esporadicamente seja para apresentações ou para receber homenagens. Em 1985, abriu junto com Radamés Gnattali, no Rio de Janeiro, o I Free Jazz Festival. Em 1996, foi condecorado pelo Presidente Fernando Henrique com a comenda da Ordem do Rio Branco. No mesmo ano, foi homenageado no Brazilian Summer Festival, em Los Angeles. Nos EUA, o tropetista Wyinton Marsalis chamava-o de “Mestre”.

Entre suas composições mais célebres estão Nanã (com Mario Telles), Menino travesso, Triste de quem, Se disser que sim (com Vinicius de Moraes) e Coisa nº 5. Em 2001 sua obra foi relançada no Brasil, através do álbum Ouro negro, com arranjos e produção de Mario Adnet e Zé Nogueira e participações especiais de Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan, Ed Motta, João Bosco, João Donato etc. Em 2005 foi lançado um DVD com um show da “Banda Ouro Negro” e um disco, pela gravadora Biscoito Fino, com algumas músicas inéditas do inicio de sua carreira, intitulado Choros & Alegria. Em julho de 2006 foi agraciado com o Prêmio Shell de Música. Dois meses após faleceu, em 06/08/2006.

Havia a intenção de publicar uma autobiografia, mas não foi possível. Porém entre os manuscritos encontra-se uma declaração sobre suas intenções como compositor: “Procuro dar-lhes (às composições) caráter essencialmente moderno, bem atual. Espero criar algo absolutamente pessoal – e para isso estou dando o melhor dos meus esforços. Esforços de quem quer vencer, criar. Eu sou um africano nascido no Brasil. Há 500 anos, eu fui trazido para o Brasil nos genes de meus ancestrais. Sonho em fazer minha música para um aspecto que não se enquadra na poética popular do ‘pintar um quadro diferente’. Na música popular o ritmo é constante, é uma diferença. Eu sinto a falta, quando estou embrenhado em música sinfônica, sinto falta daquele ritmo que é o meu berço. Vou ter que achar um jeito de que os instrumentos façam minha percussão, que eu fique satisfeito. Pois bem, esse é meu sonho não realizado.”

A musicista e pesquisadora Andrea Ernest Dias realizou uma pesquisa de fôlego sobre o músico e sua obra, objeto de sua tese de doutoramento. A tese resultou na biografia que ele não conseguiu realizar, publicada em 2014 pela editora Folha Seca: Moacir Santos, ou os Caminhos de Um Músico Brasileiro. Em agosto de 2016, a revista “Continente”, publicada pela CEPE-Companhia Editora de Pernambuco, publicou uma alentada reportagem em comemoração aos 10 anos de morte do maestro e anunciou alguns projetos de resgate de sua música. Pelo menos em seu estado natal ele pode ser reconhecido; só está faltando ser descoberto pelo Brasil.