[ PERNAMBUCANOS ILUSTRES – XXXII ]

15.08.2017

Por José Domingos Britto

Luiz de Barros Freire nasceu no Recife, em 16/3/1896. Engenheiro, professor e incentivador de talentos na área científica. Houve uma época, meados do século XX, em que se falava de uma tal “Escola de matemáticos do Recife”. Ele ocupou lugar destacado nesta famosa Escola. Formado em engenharia civil pela Escola de Engenharia de Pernambuco, em 1918, ingressou na mesma como professor contratado em 1920. No ano anterior, conquistou a cátedra de Matemática da Escola Normal de Pernambuco. Sua carreira de professor havia iniciado bem antes no Ginásio Pernambucano e alguns colégios particulares, como Nóbrega e Osvaldo Cruz, nos cursos complementares de Engenharia.

A Escola de Engenharia foi um centro de formação de engenheiros, técnicos para o mercado industrial em expansão e um centro de formação de cientistas preocupados com os estudos físicos, matemáticos, cósmicos, etc. Produziu, em meados do século XX, cientistas que ganharam projeção mundial no ramo. Foi criada no governo de Barbosa Lima Sobrinho, com a finalidade de fornecer mão-de-obra qualificada ao Estado, no momento em que ocorria um certo desenvolvimento industrial.

Em 1934 foi aprovado em concurso para professor catedrático de Física e recebeu o título de Doutor em Ciências Físicas e Matemática. Em 1943 foi nomeado professor catedrático de Análise Matemática da Faculdade de Filosofia Manuel da Nóbrega, hoje integrada a Universidade Católica de Pernambuco. Seu grande sonho – realizado em 1952 – foi implantar um Instituto de Física e Matemática na Universidade do Recife. Para ele, a função da Universidade não era apenas transmitir conhecimento, mas também produzir conhecimento. Em última instância, seu objetivo era montar uma equipe de grandes físicos e matemáticos num centro de produção científica em áreas altamente especializada.

Dirigiu este Instituto, mantendo intercâmbio com instituições semelhantes no país e no exterior, sobretudo em Paris, onde esteve em missão científica do CNPq, em 1958. Trouxe para o Recife para ministrar cursos avançados no Instituto, grandes mestres do porte e dimensão, tais como Bruhat, Arnaud Dejoy e Roger Godement. Uma de suas proezas foi deduzir a famosa expressão do chamado “Potencial Vetor”, utilizando, já naquela época, a linguagem do cálculo vetorial com recursos dos operadores vetoriais. Preocupados em formar discípulos, como bom professor que era, manteve um íntimo relacionamento com o núcleo de pernambucanos radicados no Rio e em São Paulo, como Mário Schenberg, José Leite Lopes, Leopoldo Nachbin, Joaquim Cardoso entre outros. Encaminhou para estudos nesse centro, estudantes pernambucanos que se aperfeiçoaram e hoje são físicos e engenheiros notáveis, como Fernando Souza Barros, Ricardo Palmeira, David Gorodovitz, Rômulo Maciel, Fernando Cardoso Gama, José Waldir de Medeiros Campelo, Jaime Azevedo Gusmão Filho e José de Medeiros Machado. Estes bolsistas trabalharam sob a supervisão e orientação de César Lattes, na ocasião em que ele se tornara famoso por suas pesquisas sobre Radiações Cósmicas.

Desse modo, destacou-se com professor, incentivador e formador de estudiosos na sua área de atuação; organizador e dirigente das instituições de ensino e pesquisa, além de produzir conhecimentos científicos. No Rio de Janeiro, exerceu o cargo de professor catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Distrito Federal (atual UFRJ), sob a direção de seu colega Anísio Teixeira. Como professor, vejamos o depoimento de seu aluno José Leite Lopes: “Quando passei no vestibular e fiz o primeiro ano de Química Industrial, o professor de Física era o Luis Freire. Esse era a figura mais notável de todas porque era um homem de uma grande cultura em Matemática e em Física, um grande espírito filosófico e de crítica e dava as aulas de uma maneira muito elegante, muito atraente, Foi ele, exatamente, ao fazer já o curso no primeiro ano, que me desviou da Química Industrial. Ele foi um arquiteto de valores humanos”.

Logo que foi criado o Conselho Nacional de Pesquisas (atual CNPq), em 1951, foi nomeado membro integrante da Comissão de Ciências Físicas e Matemáticas, ocupando este cargo até seu falecimento. Vale ressaltar que a Lei nº 1.310, de 15/1/1951 que criou o Conselho, foi chamada na época de “Lei Áurea da pesquisa no Brasil”.

Foi também membro da ABC-Academia Brasileira de Ciências, mérito alcançado pelo belo trabalho realizado, quando do estabelecimento da “Lei dos Estados Correspondentes e da Equação Geral da Excitabilidade dos Nervos e dos Músculos”, trabalho esse que o professor Miguel Osório de Almeida comentou em sua Memória, intitulada A Propos de Ia Nouvelle Théorie de I’Excitation Electrique des Tissus de H.M. Monnier, reivindicando a prioridade do trabalho para o professor Luiz Freire, porque o professor Monnier, da Sorbonne, alcançou resultados idênticos e menos completos, só a primeira parte do trabalho, não deduzindo a lei.

Como cientista renomado foi convidado para dirigir ou integrar diversas instituições: presidente do Instituto Tecnológico de Pernambuco; diretor técnico da Associação Brasileira de Educação; presidente da Comissão de Professores Universitários de Física do Brasil; membro do Conselho Orientador do Instituto de Matemática Pura e Aplicada-IMPA; membro fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas-CBPF; membro do Comité Internacional do jubileu Científico do professor Arnaud Denjoy, da Sorbonne e do Instituto de França; membro da American Mathematical Society e do “Conimbrigensis Instituti Academia.”

Quanto aos trabalhos publicados, destacam-se: Da ciência matemática, sua metodologia, tese de concurso em 1919; Concepção cartesiana e as séries de Fourier, tese para concurso em 1921. No Boletim de Engenharia publicou entre outros: Teoria da relatividade, contraditando o trabalho do físico H. Bouasse, de Toulouse, subordinado ao mesmo título; Vetores polares e axiais, A arte do matemático e os incompreendedores, A filosofia de Henri Poincaré, O problema dos três corpos, Equação geral das escalas termométricas. A Revista Brasileira de Matemática publicou A Bossa das Matemáticas, que veio a receber elogios do sábio Charles Ricket, detentor de prêmio Nobel. Na revista da Escola Politécnica do Rio de Janeiro publicou As matemáticas ante os problemas de filosofia natural. Para a Gazeta de Matemática de Lisboa, escreveu: Os Potenciais, Escalar e Vetorial, Os espaços a conexão linear ou superficial, simples ou múltipla, “A Função Exponencial, A filosofia natura, Equação geral das escalas termométricas.

Dentre os grandes brasileiros esquecidos no “Panteão das Ciências” Luiz Freire ocupa lugar de destaque. Seu nome foi justamente dado à avenida onde está localizado o Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco. Faleceu em 17/7/1963.