[ PRÊMIO JUCA PATO, INTELECTUAL DO ANO 2016 ]

26.10.2017

Homenagem à poeta Renata Pallotini realizada no dia 24 de outubro de 2017, na sede da União Brasileira de Escritores (UBE). Texto básico do discurso proferido por Durval de Noronha Goyos Júnior, presidente da UBE.

Caros colegas de diretoria e conselho da União Brasileira de Escritores (UBE), prezados escritores, caras escritoras, minhas senhoras e meus senhores,

O Prêmio Juca Pato é reconhecido como a maior láurea do País conferida a um escritor brasileiro. Criado pela UBE em 1962, tem por objeto conferir uma homenagem àquele que, no ano anterior, tenha publicado um notável trabalho de repercussão nacional. Nas palavras de Caio Prado Júnior, um dos fundadores da UBE, o Juca Pato agracia “o homem de pensamento que não se encerra em torre de marfim… E sim aquele que procura se colocar a serviço da coletividade em que vive e da qual efetivamente participa”.

O prêmio está representado pela figura do Juca Pato, personagem fictícia criada pelo jornalista Lélis Vieira e ilustrada pelo caricaturista Benedito Carneiro Bastos Barreto. O Juca Pato era uma figura inteligente, com bom senso, calvo e mal vestido, que tinha, como o escritor brasileiro de uma maneira geral, dificuldades financeiras e obstáculos para a publicação de seus trabalhos. As caricaturas eram publicadas na então Folha da Manhã.

Desde 1962, o Prêmio Juca Pato vem sendo outorgado regularmente pela UBE com consistente repercussão nacional. O primeiro agraciado foi o advogado, escritor e chanceler, Santiago Dantas, pela Política Externa Independente. Melhor homenageado não poderia haver para encabeçar um elenco de alguns dos principais pensadores brasileiros. Menciono apenas uns poucos. Em 1967, o agraciado foi Érico Veríssimo; em 1968, foi Jorge Amado; em 1973, Afonso Arinos; em 1975, Juscelino Kubitschek; em 1977, Luís da Câmara Cascudo; em 1979, Sobral Pinto; em 1982, Carlos Drumond de Andrade.

Em 1984, foi a vez de Fernando Henrique Cardoso, seguido por Antonio Callado em 1986, por Barbosa Lima Sobrinho em 1988 e por Paulo Evaristo Arns em 1989. Em 1991 o agraciado foi Fábio Lucas, seguido por Sábato Magaldi em 1997, por Luiz Alberto Moniz Bandeira em 2005 e por Samuel Pinheiro Guimarães em 2006. Antonio Candido foi agraciado em 2007, Audálio Dantas em 2013, Bresser Pereira em 2015 e Bernardo Pericás em 2016.

Dentre os 59 escritores agraciados pela UBE com o Prêmio Juca Pato, apenas 4 foram mulheres. A primeira delas foi Cora Coralina, em 1983, seguida por Rachel de Queirós, em 1992 e por Lygia Fagundes Telles, em 2008, as quais antecederam nossa homenageada no dia de hoje.

Senhoras e Senhores, os tempos continuam difíceis para o Brasil. A crise de nossas instituições se aprofunda. Aumentam as dificuldades de nosso povo e a desesperança de nossa gente. O crime organizado entronizou-se no Poder Executivo Federal, praticando uma política de espólios com setores numerosos do Poder Legislativo, tornando a corrupção generalizada. Um Judiciário corporativista e injurídico, influenciado por fatores alheios à administração da Justiça, compromete ainda mais o grave quadro.

Forças sombrias inspiradas por ideologias espúrias denegam as conquistas do humanismo e da civilização, repudiando o devido processo legal, a presunção de inocência, e bem assim os direitos fundamentais básicos como o da livre expressão de pensamento. Até mesmo conquistas básicas como os direitos à educação universal, à saúde pública, à criminalização do trabalho escravo e a uma alimentação básica encontram-se comprometidas.

Aqui mesmo em São Paulo, enquanto o governo estadual procura se eximir de responsabilidade quanto à educação pública, o governo municipal procurou adotar uma política de fornecer lavagem à população carente, hábito que dentre nós caiu em desuso até mesmo para a alimentação dos porcos. O espectro tenebroso da censura nos aflige e ameaça e suas manifestações atingem não apenas a produção literária, mas também mostras artísticas, que são atacadas por indigentes mentais. A intolerância quanto às preferências sexuais exacerbou-se. A violência aumenta, no esteio da maior crise de desemprego de nossa história.

Enquanto os trabalhadores brasileiros estão desempregados ou ameaçados nos seus direitos fundamentais, para desespero de suas respectivas famílias e da gente de bem, sinecuras são outorgadas à rica e aristocrática magistratura nacional, para proporcionar dentre outras benesses, a compra de paletós em Miami. Por sua vez, a crise atinge cruelmente ao escritor brasileiro, que tem números decrescentes de leitores, menor acesso às editoras e ao sistema de distribuição de livros.

O governo federal, ilegítimo e sem um mandato público ou uma plataforma sancionada pelo voto procura colocar em prática uma política econômica que atende aos interesses espúrios do capital rentista, de certos setores estrangeiros e de grupos econômicos brasileiros com íntimas relações com a política. Este mesmo governo, para superar o escárnio internacional, envia seus agentes a foros estrangeiros para entregar o interesse nacional brasileiro em troca de acenos fugazes de aprovação.

Internamente, as taxas de juros continuam a penalizar a indústria nacional. A taxa de câmbio irreal assegura ao capital especulador o retorno rentável de suas aplicações, enquanto penaliza o exportador brasileiro. A política tributária continua insana. Ações de privatização sem mandato público e sem transparência comprometem a lisura dos negócios públicos. O clima de investimentos continua comprometido pela falta de credibilidade institucional.

Os órgãos governamentais destinados a promover a cultura estão inoperantes face à falta de recursos. Os programas do livro didático e de leitura estão às mínguas, pela falta de apoio institucional. As universidades públicas encontram-se deficitárias. A educação pública, que é o principal instrumento de promoção dos valores nacionais e de revigoramento de nossa democracia se acha preterida pelo ilusório canto de sereia do neoliberalismo.

Minhas senhoras e meus senhores, nestes tempos difíceis, a UBE faz justiça a uma escritora brasileira representativa de nossos melhores valores, a poeta, contista, dramaturga, roteirista e professora, Renata Monachesi Pallotini. Renata Pallottini é uma escritora polímata e defensora histórica das causas humanísticas, tendo sido uma referência importantíssima durante os anos sombrios da ditadura militar no Brasil.

Renata Pallottini formou-se em direito pela Universidade de São Paulo e em filosofia pela PUC-SP. Doutorou-se pela Escola de Comunicações e Artes da USP. No teatro, Renata montou a peça A Lâmpada (1960) e O Crime da Cabra (1965). Na TV, foi roteirista infantil do Vila Sésamo e tradutora de séries como Malu Mulher. Na literatura, sua obra poética inclui livros como A Faca e a Pedra (1962), Os Arcos da Memória (1971), Noite Afora (1978), Esse Vinho Vadio (1988) e A Menina que Queria ser Anja (1987).

Segundo o saudoso grande crítico literário brasileiro, Wilson Martins, Renata Pallottini “é poeta independente das escolas transitórias e modas efêmeras, tendo restituído à poesia brasileira o elemento de emoção pessoal e literária de que começou perigosamente a se despojar com João Cabral…”  De acordo com o formidável poeta e crítico literário, Cláudio Willer, ex-presidente da UBE, “em Coração Americano”, lançado no Teatro Municipal de São Paulo em 1976, Renata Pallottini demonstra como se faz poesia com referência humanística e política”.

O Prêmio Juca Pato Intelectual do Ano de 2016 foi conferido a Renata Pallottini por unanimidade pela diretoria da UBE por sua obra Poesia Não Vende, publicada em 2016 pela Hucitec Editora. O livro possui 130 poemas que abordam diversos temas, de perdas afetivas e emocionais, aos cães, grandes amigos do homem e da mulher, e à pressa do mundo contemporâneo.

Também toca em problemas profundos do Brasil, como no poema A Mãe: “Meu filho está na sarjeta/ Alguém matou o meu filho/ Tinha poucos anos e/ Poucas culpas o meu filho. Era drogado e vencido/ O meu filho; e era moço. Igual aos outros, meu filho/ Era carne, pele e osso. Ninguém me disse por que/ Alguém matou o meu filho. Acho que a alguém molestou/ Acho que alguém o marcou. Para morrer, meu menino. Eu o pari, como sempre/ Soem parir as mulheres; Com dor e com esperança/ Como nascem as crianças. Alguém o ensinou a usar/ Isso que usam os malditos. Dinheiro sempre; dinheiro. Dinheiro e gozo da vida. Muita festa e muito ruído/ E um amor mal resolvido; Não sei dizer mais do que isso. Não sei dizer. Está dito”.

Assim, é com grande satisfação e com um profundo sentimento de Justiça, que confiro, em nome da União Brasileira de Escritores, à escritora Renata Pallottini, o título de intelectual do ano e lhe entrego o Prêmio Juca Pato de 2016.

Senhoras e Senhores,  meu muito obrigado.