[ RECIFE & MANHATTAN: O RETORNO ]

06.03.2018

*Por José Domingos Britto

Está definido: 2018 é o ano do conhecimento das relações históricas Brasil-EUA. Começou no Carnaval com a Escola de Samba Portela e seu enredo “De Repente de Lá Pra Cá e Dirrepente de Cá Pra Lá” fazendo o convite na Marquês de Sapucai:

“Minha gente, se prepare / Que essa história vale a pena/ Tome assento, se acomode/ E vejam quem entra em cena / E quem sai, e onde se passa, / Onde termina, ou começa,/ De onde vem ou se destina”.

E manda ver no samba “Vida incerta de imigrantes”

Vamos simbora povo vencedor
contar a mesma história
Sou nordestino, estrangeiro, versador
Eh eh eh viola… 
Vem do arrecife oio azul cabra da peste
No doce do meu agreste, querendo se lambuzar
Oi o mar maré de saudade , oi o mar
Pedindo paz a javé, perseguido na fé
O imigrante veio trabaiá
Oh saudade que vai na maré
Passa o tempo e não passa a dor
E um dia Pernambuco seu irmão reconquistou
Luar do sertão, ilumina…
Pra quem deixou esse chão, triste sina
Ô cumpadi em seu peito leva um dó
Cada um em seu destino e a tristeza dá um nó
Vixi Maria lá no meio do caminho
Tem pirata no navio
O pagamento não foi ouro nem foi prata 
Essa gente aperriada foi seguindo
Ô gira ciranda, vai a chuva vem o sol, deixa cirandar
Entra criança, homem, muié
No abraço dessa terra só não fica quem não quer
É legado, é união, é presente, igualdade
É “Noviórque” pedestal da liberdade
A minha águia em poesia de cordel
22 vezes minha estrela lá no céu
Lá vem Portela é melhor se segurar
Coração aberto quem quiser pode chegar 
Vem irmanar a vida inteira
Na campeã das campeãs em Madureira

Em seguida, as alas e carros alegóricos vão contando a história da fuga dos judeus luso-holandeses-recifenses, que acabaram fundando Nova Iorque num acaso que mudou a história do mundo.

Agora, em março, vem a revista “Superinteressante” (ed. 386) e publica a matéria “Os brasileiros que fundaram NY” e conta a história dos “23 que viraram 2 milhões”, esclarecendo que “toda a comunidade judaica de Nova York surgiu a partir de um punhado de imigrantes nos século 17. E todos eles vieram de Pernambuco”. Ano passado contei essa história aqui no JBF (Recife & Manhattan) dos quatro casais, duas viúvas e 13 crianças, que na volta para a Holanda, ficaram à deriva, foram assaltados pelos piratas, e resgatados por um navio francês, foram alojados numa ilha na foz do Rio Hudson, que mais tarde levou o nome de “Manhattan”.

Já havia holandeses naquela ilha. Era um entreposto das Companhia das índias Ocidentais.. Os fugitivos, vendo a semelhança que a ilha tinha com o Recife, decidiram fixar residência ali mesmo e progrediram bastante. Em 1664, apenas 10 anos após a chegada, o povoado, que se chamava Nova Amsterdam, passou a se chamar Nova Iorque. Os descendentes diretos e indiretos desses 23 pioneiros foram fundamentais para a história dos EUA. No século seguinte, Gershon Mendes Seixas, o braço direito de George Washington, lutou na Guerra da Independência, em 1776; pouco depois, seu filho Benjamin Mendes, fundou a Bolsa de Valores, em 1792; outro parente, Benjamin Cardoso fez parte da Suprema Corte nos governos Hoover e Roosevelt; outra descendente – Emma Lazarus – escreveu um poema inspirado na história de seus antepassados, “The New Colossus”, cuja parte “Venham a mim, os exustos, os pobres, as massas que anseiam por liberdade”, que se tornou o lema de Nova Iorque, está gravado em bronze, desde 1903, aos pés da Estátua da Liberdade.

A matéria não incluiu outro descendente famoso – Arthur Ochs Sulzberger – fundador do “The New York Times” , em 1851. Deve haver muitos outros ainda não descobertos pela história. Uma história que os americanos guardam com todo cuidado num cemitério no centro da cidade, perto do Central Park, e comemoram todo ano a data de chegada dos 23 fugitivos do Recife. Já no Brasil, que proporcionou essa história, é diferente: quase ninguém sabe disso, os historiadores não dão a mínima importância e o Governo não vê interesse algum em contá-la ao seu povo. Só está faltando o Spielberg, que é judeu, encomendar o roteiro de toda a história e fazer um belo filme contando essa fantástica “aventura” da vida real. Aliás, o roteiro já está pronto. Cá entre nós, a recifense Kátia Messel fez um grande documentário de 85 minutos, em 2003 – “O Rochedo e a estrela” – e exibiu-o nos EUA e em poucos lugares daqui. Perguntei-lhe porque seu filme ainda hoje é desconhecido entre nós. Ela disse que por aqui houve pouco interesse em sua divulgação. É surpreendente o interesse pela nossa história!