[ UM INTELECTUAL DE CORAGEM – HOMENAGEM A LUIZ ALBERTO MONIZ BANDEIRA ]

13.11.2017

Professora Dra. Regina Maria A. F. Gadelha

Nesses difíceis tempos das democracias ameaçadas, a leitura da obra de Moniz Bandeira é necessária e esclarecedora para compreender a dialética das relações geopolíticas entre os fatos econômicos, políticos e sociais que estão a marcar os destinos dos países e suas populações, as relações internacionais que interferem em suas histórias, ações políticas e externas possíveis, responsáveis pela preservação da independência e liberdade dos povos. Se o conjunto da obra deste grande autor não oferece todas as respostas (nenhuma obra o faz), suscita reflexões sobre o intrincado jogo geopolítico que permeia os interesses por detrás dos conflitos internacionais. Muito embora seja praticamente impossível falar da totalidade das obras de Luiz Alberto Moniz Bandeira e, nesta Mesa, os ilustres colegas – Professor Dr. Amado Cervo e o Embaixador Samuel Guimarães – estão mais qualificados do que eu para a tarefa, desejo tecer alguns comentários sobre a importância de dois de seus livros para a História e a Ciência Política – A desordem mundial (2016) e Lênin – Vida e Obra (2017).

A Desordem Mundial (1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. 644 p.), veio preencher um enorme vazio sobre o tema nas literaturas brasileira e sulamericana, desvelando aspectos da nova dominação imperialista que ameaça todas as nações periféricas. Como em suas obras anteriores, A Desordem Mundial traz importante subtítulo ilustrativo, definidor do objeto do autor – desvendar “O espectro da total dominação: Guerras por procuração, terror, caos e catástrofes humanas”, expressão da profunda preocupação humanista sempre presente em Moniz Bandeira. Em cada uma de suas obras, a História e a Política readquirem seu significado. Moniz é profundo conhecedor do método do “fazer história”, ensinado pela École des Annales – aqui recordo apenas o grande historiador francês, Marc Block.

Como historiador, a argumentação de seus livros é sempre amparada na mais ampla documentação dos fatos que ele, com maestria, domina de maneira profunda. Como cientista político, admirador da filosofia alemã hegeliana, Moniz encerra o livro com a frase de Spengler (1880-1936), filósofo alemão que afirmava “não há ideais, mas somente fatos, nem verdades, mas somente fatos, não há razão nem honestidade, nem equidade etc., mas somente fatos”. (p.513). Pois são os fatos, e somente os fatos e sua conjuntura, que explicam a história. Apoiado em larga pesquisa bibliográfica, Desordem Mundial, porém, constitui parte de uma trilogia de duas obras anteriores – Formação do Império Americano (2005) e A Segunda Guerra Fria (2013). Sem embargo, ao longo desta trilogia, Moniz Bandeira analisa com profundidade o papel dos Impérios contemporâneos, atores estratégicos que dão as cartas no cenário mundial. Nesse sentido, defende o conceito de “ultra imperialismo”, elaborado pelo marxista austríaco Karl Johann Kautsky (1854-1938) e que fornece ao autor o instrumental necessário à compreensão da disputa geoeconômica e política centralizada pelas três maiores potências do planeta – Estados Unidos da América, Rússia e China. Todavia o conceito ‘Império’ é utilizado pelo autor, sem se confundir com as categorias ‘Hegemonia’ e ‘Imperialismo’, embora correlacionado.

Em A Segunda Guerra Fria, Moniz já demonstrara a penetração dos Estados Unidos e suas empresas globais, que desde 1990 souberam se utilizar da OTAN para reabrirem seus negócios de petróleo no Oriente Médio. Primeiro o Iraque e, logo, o Afeganistão, teriam de aprender o significado da “democracia” e da “pax” americanas. Ambos os países se tornariam base para a expansão de estado permanente de guerra a se alastrar do Oriente Médio até a África do Norte. Como outrora demonstrara a história das cruzadas medievais, o mundo se encontraria perigosamente multipolarizado, com a ressurgência do perigo do fanatismo religioso tornando ameaçador a própria existência da sociedade ocidental. Estamos, porém, longe de constatar nos países ocidentais a presença de ideologia una e totalizadora, necessária à “dominação total” de que nos fala o autor de a Desordem Mundial, pois por debaixo dos graves aspectos que determinam as guerras e conflitos existem poderosas coligações de forças. O que nos impede de vislumbrar um final para este longo conflituoso, militar e político, ideologizado e impregnado de religiosidades, a arrastar a humanidade para uma nova barbárie (o termo é de Edgar Morin). Portanto, 3 nos parece cada vez mais longe a propalada “pax mundial” das Nações Unidas. Nesse sentido, quase a metade do livro A Desordem Mundial é dedicada à análise geopolítica e geoestratégica que permitiram o ressurgimento da Rússia como novo importante player no cenário político global. Processo para o qual contribui a chamada Era Putin e do qual são exemplos as importantes questões da Ucrânia e da Síria. Por seu lado, o Ocidente tem sua liga maior coordenada pelos interesses econômicos globais dos setores financeiros e empresariais mundiais, o que explica a relevância da enorme (e imoral) concentração de renda demonstrado no capítulo segundo do livro. “Free World/Free Market versus Curtain Iron”, salienta o autor.

O mundo livre e o mercado livre, encobertos pela cortina de fumaça a esconder o escandaloso crescimento da desigualdade social em todo o globo. Fatos que fazem emergir do imaginário o ideário democrático que transforma os Estados Unidos em verdadeira “democracia militar”. De acordo com Moniz Bandeira, a ideologia da hegemonia militar americana dá liga a seu povo, permitindo maior manipulação favorecida após os ataques e destruição das famosas torres gêmeas de Nova York, em 11 de Setembro de 2001. A Guerra do Golfo contra Sadam Hussein, em 1991, apenas abriu a Caixa de Pandora, início de um conflito de dimensões que hoje abrange Síria, Paquistão e várias partes do Oriente Médio. Conflito na presente conjuntura internacional agravado pelo surgimento de novo ator político – o poder nuclear da Coreia do Norte. Este cenário de guerras, todavia, se dá fora da Europa – os países do bloco da União Europeia vinculados à OTAN e que têm como epicentro a Alemanha, país líder da União Europeia e o mais importante player no jogo de poder deste bloco. Parte importante do livro de Moniz, no entanto, é o “ressurgimento da Rússia”, país provisoriamente abatido e afastado do jogo político no início da década de 1990, após o desmoronamento da União Soviética e consequente desmembramento do bloco, dos expaíses socialistas, da Europa centro-oriental. Fator ainda agravado pela rápida e corrupta privatização dos bens e ativos do Estado russo durante a administração do presidente Boris Yeltsin. Nesse sentido, qualquer analogia com a atual conjuntura do Brasil, imersa sob a presidência de Michel Temer, é mera coincidência. Governando a Rússia como primeiro ministro do Governo Boris Yeltsin, e após a renúncia deste Presidente em 1999, Vladimir Putin foi eleito sucessivamente 4 Presidente da Rússia, com breve interrupção apenas de 2008-2011. Atualmente encontra-se em seu terceiro mandato, iniciado em 2012. Moniz mostra como este exmembro da KGB e religioso profundamente ligado ao atual Patriarca da Igreja cristã otomana, soube retirar a Rússia da crise política e econômica ao recolocar seu país novamente como importante player no cenário das nações. Nesse jogo de poder, cada player importa.

Também a China emerge representada por mais de um bilhão e 400 milhões de chineses, ao entrar fortalecida no competitivo mercado globalizado, reestruturando todo o cenário mundial e contribuindo para a destruição de empregos, salários e capitais dos concorrentes. Porém, dentro desse vasto panorama, a África (exceto África do Sul) encontra-se excluída, e a América do Sul submersa em profunda crise política e econômica, da qual grande responsabilidade se prende ao agravamento das conjunturas internas políticas do Brasil e da Argentina, parceiros maiores do bloco Mercosul. No momento, estes países se encontram fora do jogo da política internacional. Moniz Bandeira também analisa as intervenções americanas no Afeganistão e no Oriente Médio, e o golpe separatista da Ucrânia articulado por Victoria Nuland, secretária de Estado para Assuntos Europeus dos EUA, e Geoffrey Pyatt, embaixador norte-americano em Kiev. No entanto, o golpe de 2014 resultou em grande fiasco quando o presidente Putin reincorporou a península da Crimeia e assegurou o retorno ao território russo da importante base naval de Sebastopol, no mar Negro, entregue por Nikita Kruschev à Ucrânia em 1954. Em 2015, apenas um ano depois do golpe separatista da Ucrânia do território russo, demonstra Moniz, o país se encontra economicamente falido, com sua moeda fortemente desvalorizada perante o dólar e uma dívida externa superior a 94,4% do PIB. A intervenção na Síria também serviu para evidenciar os avanços do poderio militar da Rússia e restabelecer o prestígio qualitativo daquele país no game da política mundial. Também a Turquia, por outros motivos, volta a regredir em termos de democracia, tanto sob o aspecto cultural como social. Portanto se agrava a crise em todo o Oriente Médio. O balanço desta era, conforme detalha em A Segunda Guerra Fria (2013), comprova, portanto, o triunfo do ultra imperialismo, tendo por base o cartel das grandes potências industriais, ademais do incomparável poderio militar e financeiro dos Estados Unidos e de seus aliados da OTAN. Ao concluir o livro e analisar a política do governo 5 Barack Obama, Moniz Bandeira mostra como o governo democrata de Obama também está a deixar como legado o rastro sangrento de milhões de mortos e exilados sem pátria, igual ou maior do que o legado de seus antecessores. E isso nos leva aos dois últimos livros do autor, recém- lançados pela Editora Civilização Brasileira. (Moniz é um autor fiel, desde os tempos do amigo editor e grande patriota, que foi Ênio Silveira). Estes livros são Lênin – Vida e Obra, e O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil, ambos em sua 4ª edição, totalmente revista, reescrita e ampliada pelo magistral autor. No caso do primeiro livro, Lênin – Vida e Obra, o autor nos presenteia com uma interpretação fundamental para a compreensão da Teoria do Estado contemporâneo, merecendo esta obra, como escrevo na capa de seu livro, figurar ao lado das grandes obras da política, tais O Príncipe, de Maquiavel. Seu estudo biográfico de Lênin é fundamental para desvelar os mecanismos do poder e a práxis da política. Como tudo que escreve Moniz Bandeira, o livro é de fácil leitura. O autor demonstra conhecimento profundo da obra de Lênin e tem o mérito de nos reportar ao âmago do pensamento político do grande marxista e estadista estratégico russo, Vladimir I. Lênin, até a sua morte. Porque, de fato, a vida e a obra de Lênin se confundem. O livro instiga o leitor a refletir sobre a crise atual das esquerdas no Brasil ao trazer para a contemporaneidade, de forma nunca repetida, os fatos daquela que foi a maior revolução do século XX. Como lembra Moniz, a Lênin coube restabelecer e consolidar, nos campos da sociologia e da política, a teoria do Estado que Marx e Engels elaboraram. Se a utopia de Lênin (a sociedade dos iguais) não se concretizou, a Revolução, tal como idealizou, abre a via para os trabalhadores de todo o mundo darem o salto final da revolução radical. Moniz, entretanto, é modesto ao escrever ser Lênin apenas um livro de divulgação. Trata-se de leitura essencial sobre os perigos que correm as democracias sujeitas à manipulação dos homens. Sua publicação coincide de maneira feliz com a celebração dos Cem Anos da Revolução Russa.

Obra de grande erudição, Moniz Bandeira nos introduz na vida do jovem Lênin até sua morte, nos redutos dos movimentos sociais e políticos de sua época, os antecedentes da crise e da revolução 6 russa, a formação dos partidos socialdemocrata, socialista e comunista até a queda do regime czarista e a vitória da revolução, a guerra civil, a invasão do território russo pelas tropas dos Aliados, a formação, contradições e dissidências internas do Partido bolchevique, os movimentos operário/camponês e de trabalhadores nos primeiros anos da revolução. Graças ao seu conhecimento profundo acerca da obra e escritos de Lênin, Moniz tem o mérito de analisar o âmago do contexto do pensamento e ação do biografado. Ressalta as contradições do grande homem político, cuja obra, ação e caráter individual foram muito além de sua vontade férrea de luta pela mudança revolucionária, ao tornar o marxismo também uma teoria interpretativa da revolução. Com Lênin, a revolução socialista deixaria de ser movimento espontâneo ou utopia para se tornar conceito pensado como movimento rigorosamente politico de ação. Conhecimento teórico (teoria revolucionária) sem a qual não haveria práxis, movimento revolucionário vitorioso. O livro instiga o leitor a refletir sobre a crise atual das esquerdas no Brasil ao trazer para a contemporaneidade, de forma nunca repetida, os fatos daquela que foi a maior revolução do século XX. Como lembra Moniz, a Lênin coube restabelecer e consolidar a teoria do Estado elaborada por Marx e Engels. Todavia, se a utopia de Lênin (a sociedade dos iguais) não se concretizou, a Revolução, tal como este a idealizou, abre a via para os trabalhadores de todo o mundo darem o salto final da revolução radical. O que nos leva a sua última obra: O Ano Vermelho – A Revolução Russa e seus reflexos no Brasil, escrito nos idos de 1967, em plena época da ditadura militar. A reedição do livro, totalmente revista, ampliada e reescrita, conforme depoimento do próprio autor, refaz a trajetória dos movimentos de trabalhadores no Brasil e suas lutas desde os primórdios do século XIX. Mas não só. Trata a repercussão da Grande Revolução soviética sobre todo o mundo e, em especial, para as lutas emancipatórias da América Latina, os trabalhadores brasileiros e a América do Sul. Deste modo, a obra de Moniz Bandeira, fornece elementos importantes para a retomada dos debates sobre os grandes problemas internacionais e nacionais,  ainda não resolvidos em nosso país.

1 Professora Titular do Departamento de Economia – FEA, da PUC-SP e Líder do NACI-Núcleo de Análise de Conjuntura Internacional-PEPGEP-PUC/SP/CNPq. Palestra realizada no Colóquio em Homenagem ao ex-professor titular Moniz Bandeira, Brasília, DF: UnB, 31 de outubro de 2017. rgadelha@pucsp.br