[ UM PROFESSOR ]

12.05.2017

Por Cássia Janeiro

Era desse jeito que Antonio Candido referia-se a si mesmo. Nem era “o” professor, mas “um” professor. Assim, é em respeito à memória desse ser humano ímpar que faço minha homenagem. Sei que aprovaria o título.

Antonio Candido morreu hoje, aos 98 anos. Foi um dos maiores pensadores que o Brasil teve. Candido praticamente reinventou a crítica literária, ampliando sua abrangência e dando a ela uma visão plural, dialética e de alta complexidade. Em sua vida “comum”, como ele descrevia, era um homem gentil, íntegro e humanista.

Há alguns meses, fiz minha derradeira visita em seu apartamento, na Rua Joaquim Eugênio de Lima. Não sabia que seria a última. Passamos quase cinco horas falando de muitas coisas: Brasil, política, literatura, velhice, amizade… Mas nos debruçamos muito tempo falando de plantas. Esse era um traço fascinante da personalidade de Antonio Candido. Podia-se falar sobre qualquer coisa com ele, porque a companhia e a prosa tornava tudo interessante. Contou-me que tiveram uma empregada que falava com as plantas, como eu. Quando ela foi embora, todas sucumbiram, não importava o tanto de água ou de vitamina que lhe dessem. “As plantas têm muito a nos ensinar”, disse. E ficamos ali proseando sobre o que, no silêncio das plantas, tínhamos a aprender.

Precisava contar esse pequeno episódio, porque Antonio Candido não era apenas um intelectual imenso, mas essa pessoa simples e acolhedora, de abraço apertado, que podia discorrer sobre a obra de Dostoievski com a mesma profundidade e desenvoltura que falava de uma samambaia ou de política. A respeito do último tema, dizia que nunca teve ambições. “Na minha época, pelo menos com as pessoas com quem eu andava, fazer política era um dever cívico. Não passava pela nossa cabeça fazer política em benefício próprio”. Isso, na sua opinião, já era um sintoma do que era ser socialista. “Um socialista não pode não ser um humanista”.

Sobre a idade, era taxativo: “É chato ficar velho”. E, outro dia, ao telefone, me disse que não se sentia bem. “Algum problema sério, professor?” Ao que ele respondia com a mesma ternura: “Não, velhice”.

Em 2007, Antonio Candido, Rubem Alves e eu fizemos um Café Filosófico, no lançamento do meu livro “A pérola e a ostra”, por ele prefaciado. A mediação foi de João Gabriel de Lima. Hoje mesmo João Gabriel me escreveu, relembrando aquele momento memorável, ao mesmo tempo divertido. Eu me recordo daquele dia com profunda saudade e com gratidão pela generosidade daquele homem que me abriu as portas da literatura, que foi meu padrinho literário, mas, sobretudo, um amigo de 18 anos, que deixa um enorme vácuo em meu coração.

Há alguns meses, contei que estava com novo livro. Ele, que não tinha computador nem celular, pediu que o levasse impresso. Combinamos que eu o levaria hoje e que passaríamos a tarde proseando sobre qualquer coisa. Ontem, iniciei uma carta que levaria com o livro encadernado. Escrevi “Querido professor”, como sempre, mas a gripe acabou me impedindo de prosseguir. Continuaria hoje, antes de ir, mas ele partiu. Parafraseando um poema que fiz, quando da morte de sua esposa, Gilda, posso dizer que o que sobrou da nossa amizade, das nossas conversas, dessa ternura toda que permeou os anos, ah, o que sobrou fui eu.