[ Uma oitava acima e o guerreiro Masai ]

03.07.2018

FONTE: Jornal do Brasil
ADHEMAR BAHADIAN*

Não entendo de futebol. Nem creio que a seleção seja a pátria de chuteiras. Mas é inegável o prazer de chegar às oitavas de final, numa copa do mundo em que a britadeira alemã vê o motor de suas possantes valquírias fundir diante da Coreia. Temos, agora, um refresco até o encontro com o  México, na segunda-feira.

Poderíamos, só para descansar um pouco nossas cabeças tão assombradas, aproveitar esse nosso papo de fim de semana para falar sobre assuntos mais amenos. A primeira copa de que me lembro está inscrita em nossa história como uma das mais doloridas que já vivemos. O Maracanã acabava de ser inaugurado e até hoje recordo o silêncio daquela massa humana descendo cabisbaixa as rampas do estádio. Aos dez anos de idade, aprendi ali que um povo tem alma. E que há momentos em que a dor talvez seja um sentimento mais inesquecível  que a alegria. Não demorou mais do que quatro anos para me dar conta de que na dor um povo pode ter também fúria. Na morte de Getúlio Vargas, o povo sabia que enterrava com ele um projeto de emancipação econômica. A mesma emancipação pela qual ainda almejamos. Lamentavelmente. Na carta de Getúlio tinha uma palavra , “sanha”: À sanha dos meus inimigos, deixo o legado da minha morte (cito de cabeça, 64 anos depois de ouvir no rádio). Fui ao dicionário e aprendi que sanha significa rancor. E passei a saber que a política pode ser feita de ódio. Como até hoje, infelizmente. Depois, veio o tempo dos 50 anos em cinco. E aprendi que o país podia crescer sorrindo, levantar no deserto imensas catedrais, onde o traço de Niemeyer rendia homenagem à engenhosidade do candango e à audácia de um presidente que acreditava no Brasil. Lar dos filhos de uma nação mestiça, mítica, mística,  livre, sensual, invejável. Grande por fora e imensa por dentro. E éramos felizes. Hoje, nem me pergunto se ainda somos.

E tivemos a copa de 58. Não vimos. Ouvimos. E nunca os nossos locutores foram tão grandiloquentes, justificadamente grandiloquentes, porque  descreviam não jogos, mas coreografias nos bem aparados gramados suecos. Gilmar, Djalma Santos, Orlando, Bellini, Nilton Santos, Zito, Garrincha, Zagallo, Vavá, Pelé e, sobretudo, Didi, o grande maestro, o grande estrategista, cérebro  e arquiteto de chutes curvos e longos como as folhas secas de outono. Mais tarde, no cinema, veríamos a mais antológica cena futebolística jamais imaginada: Didi buscando a bola no fundo das redes, no que poderia ter sido o repeteco de 50, a derrota na final do campeonato. Jovens, eu vi e recomendo que vejam. Parem por dois minutos de batucar em seus smartphones e sintam na pele o arrepio de presenciar um  guerreiro, em marcha calma e solene, com uma bola debaixo do braço, pousá-la  delicadamente no centro do gramado e dizer alguma coisa, que só seus companheiros ouviram. E ao ouvirem, se recompuseram. O Brasil ganhou de 5 a 2. Fomos campeões do mundo, pela primeira vez.

Em 2014, quando a britadeira alemã nos reduziu a pó, eu me lembrei daquela cena. E fiquei imaginando se tivéssemos um Didi para acalmar aquele pânico que fez a seleção sucumbir diante de sua torcida perplexa e envergonhada. Talvez, quem sabe, nosso destino teria sido outro.

Nelson Rodrigues apelidou Didi de príncipe etíope e o descrevia em campo como se portasse sempre um longo manto sobre os ombros, qual um porta-bandeira de escola de samba. Convivi com essa imagem durante alguns anos, mas havia nela qualquer coisa de ridículo que me incomodava. Certa vez, faz pelo menos 30 anos, visitei, no interior da Tanzânia, uma reserva da tribo masai, uma das mais antigas e nobres da África. Os masai se distinguem por serem altíssimos, orgulhosos e temíveis guerreiros. Conta a lenda, que os masai se alimentavam frequentemente com o sangue ainda quente das cabras que esgoelavam. E ali, naquela tribo, deparei-me com um jovem guerreiro. Vestido com o manto vermelho que caracteriza sua raça, o guerreiro, com um longo cajado na mão e um facão na cintura, andava com o porte e a elegância do Didi. E a partir daquele dia descobri que, em 1958, a seleção brasileira tivera um guerreiro masai em campo.

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: bahadian@jb.com.br)