JUCA PATO - INTELECTUAL DO ANO



"JUCA PATO" SERÁ O PREMIO DO INTELECTUAL DO ANO

Publicado na Folha de São Paulo, domingo, 2 de dezembro de 1962.

Quando em fevereiro de 1963, uma estatueta do "Juca Pato", a famosa criação do caricaturista Belmonte, for entregue a um literato brasileiro (ensaista, poeta e ficcionista), o fato significará que este escritor, por escolha nacional, foi apontado como "intelectual do ano". Tal é o certame que a União Brasileira de Escritores e a Folha de São Paulo instituiram e cujas bases foram estabelecidas anteontem, na sede da UBE. Ao lançamento da promoção compareceram numerosos intelectuais, artistas e figuras da sociedade e politica. A solenidade foi presidida pela escritora e jornalista Helena Silveira, vice-presidente da UBE, que falou sobre as origens da laurea, seu significado e propositos. O sr. Helio Silveira, tambem da diretoria da UBESP, apresentou o regulamento do certame, tendo ainda falado o sr. Francisco Rangel Pestana, diretor da Folha de S. Paulo, que expressou a satisfação de seu jornal por paraninfar o concurso. 

Bases 

Em cinco pontos principais se firma o regulamento para o certame:

• Concorrerão, automaticamente, ao titulo de "O intelectual do ano", todos os ensaistas, poetas e ficcionistas que tenham publicado, no ano (até novembro de 1962) obra de relevo para a cultura nacional ou oportuna no momento social que vive a nação.

• Os concorrentes poderão ser nacionais, brasileiros nacionalizados ou estrangeiros aqui residentes, há pelo menos cinco anos, sendo dispensavel sua filiação à União Brasileira de Escritores de São Paulo.

• A escolha será feita pelo voto assinado dos associados de UBESP, residentes na capital e no interior.

• A arrecadação de votos terá inicio no dia 5 de janeiro e se prolongará até o dia 31.

• Ao intelectual que obtiver o maior numero de votos será conferido diploma e o titulo de socio honorario da União Brasileira de Escritores de São Paulo.

Um ultimo topico dos estatutos assinala que, alem dos socios da UBE, terão direito a voto as seguintes personalidades: os secretarios de Educação do Estado e do Municipio; o presidente do Instituto Historico e Geografico; o presidente da Academia Paulista de Letras; o reitor da USP; o reitor da PUC; o reitor da Universidade Mackenzie; o presidente da Camara Brasileira do Livro; o presidente do Sindicato dos Jornalistas e do Sindicato dos Proprietarios de Jornais; o presidente da UEE e o do Clube de Poesia. .

A razão do "Juca" 

Tanto a escritora Helena Silveira, como o sr. Francisco Rangel Pestana, em seus discursos, reportaram-se à escolha da figura do "Juca Pato" para a laurea. No dizer de Helena Silveira, "o famoso boneco de Belmonte", o "Juca Pato", tão conhecido do povo de São Paulo de uma epoca em que não havia inflação, mas havia carestia, deverá simbolizar o inconformismo, e significará que o escritor laureado é o anti-torre de marfim". O sr. Rangel Pestana, após dizer que a FSP acolhia "este paraninfado com carinho todo especial", especialmente por causa da figura de "Juca Pato", que é tão nosso"(esta criação de Belmonte teve na antiga "Folha da Noite" o seu nascedouro), assinalou: "A imprensa não pode alhear-se dos problemas de cultura. É dos intelectuais que vive o jornal em todo o mundo".

"Juca" e seu pai
 
A escolha do "Juca Pato" ao mesmo tempo, uma consagração da criatura e de seu criador, o caricaturista e escritor Benedito Bastos Barreto, o internacionalmente conhecido Belmonte - falecido em 19 de abril de 1947, e que por 30 anos foi considerado o rei da caricatura e da charge politica em São Paulo. Foi em 1925 que Belmonte criou seu personagem mais famoso, e cujo nome, em pouco tempo, passou a ser usado para marcas de produtos os mais variados, e inclusive virando samba. Um dos biografos de Belmonte diz que "Juca Pato" era "o simbolo do povo que aguenta todos os repuxos, de cara alegre, partindo, talvez, destas duas concepções populares: "Juca" - tipo eternamente vitima do patriotismo alheio, e "Pato" - a figura imorredoura do indefectivel pagador, que tudo passa. Nasceu de cranio pequeno, occipito-frontal achatado, careca redonda e luzidia, oculos aro de tartaruga, vestindo fraque para tapar os fundilhos da calças".

Ou, como rememorou o sr. Rangel Pestana:

"O Juca Pato" sacrificado e bom, o honesto "Juca Pato", esquecido dos poderosos, mais que deles se vinga com suas criticas." .
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