O Genocídio dos Povos Originários

Quando Jair Bolsonaro foi eleito, sabíamos que os povos originários corriam grave risco. O atual presidente nunca escondeu quem era e anunciou, desde a sua campanha, que esses povos não teriam “um centímetro” de terra demarcada. Sua intenção de abrir as terras indígenas para exploração privada foi sempre explícita. Sob seu governo, se é que assim podemos chamar, as terras protegidas foram invadidas por madeireiros, garimpeiros e grileiros ilegais, com a certeza da impunidade. Os povos originários somam 896.917 pessoas – 0,47% da população brasileira, segundo censo do IBGE de 2010. São 256 povos que falam mais de 150 línguas. A situação parecia não poder se agravar mais, quando chegou a pandemia do Covid-19.
Segundo a jornalista Eliane Brum: “A indignidade com que os indígenas são tratados na pandemia de covid-19 abriu um novo e pavoroso capítulo de violação dos direitos dos povos originários pelo Estado brasileiro”. Em seu relato, Brum conta a história de três mulheres da etnia Yanomami que “vivem um horror para o qual será preciso inventar um nome”. Essas mulheres, que vivem na aldeia Auaris, em Roraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela, não falam português. Elas são mães de três bebês que foram levados para Boa Vista em maio, com suspeita de pneumonia. No hospital, onde os bebês deveriam ter sido tratados, foram contaminados e morreram infectados por Covid-19. Se a situação é trágica, há ainda mais: os corpos dos bebês desapareceram e talvez estejam enterrados no cemitério da cidade. Duas dessas mães, também infectadas, estão agora na Casa de Saúde Indígena (CASAI), “abarrotada de doentes”, principal foco de contaminação local. Elas imploram ajuda para encontrar seus filhos, pois os Yanomami nunca são enterrados, mas cremados em um longo ritual, que pode demorar meses ou até anos, para que o morto possa “morrer para si e para a comunidade”, despedir-se honrando sua memória e sua vida.
Uma delas conseguiu enviar uma mensagem à jornalista: “Preciso levar o corpo do meu filho para a aldeia. Não posso voltar sem o corpo do meu filho”. A jornalista compreende o horror, essa “linguagem universal daquela que está sendo arrancada do mundo dos humanos”.
Há quase 200 casos de Covid-19 entre os Yanomami. Brum alerta que “sem um plano contingencial, 40% do povo Yanomami pode ser contaminado”. Eles estão largados à própria sorte, sem informação, sem cuidados, sem esperanças. Vítimas de todo tipo de violência, a mão do Estado não é apenas omissa, mas criminosa. Mata-se pela inação, pelo vilipêndio à cultura, pelo descaso. O genocídio dos povos indígenas não é uma fatalidade; inscreve-se na história como um dos capítulos mais hediondos de um governo que, há muito, ressignificou essa expressão.
A União Brasileira de Escritores (UBE), que historicamente tanto preza pela defesa dos direitos humanos, revela-se chocada com os relatos dessas mães. Repudiamos fortemente o genocídio dos povos originários que se dá tanto no âmbito concreto, quanto no simbólico, e esperamos que medidas drásticas sejam tomadas para assegurar a sobrevivência física e cultural daqueles que aqui estavam muito antes de nós.

24.06.2020
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