Rogério Duarte

Bem-vindos à entrega do quinquagésimo quarto Prêmio Juca Pato. 
Eu sou Rogerio Duarte, e agradeço a presença de todos, em nome da diretoria da União Brasileira de Escritores, da qual faço parte, e do seu presidente: Ricardo Ramos Filho.
O Prêmio Juca Pato é conferido ao intelectual do ano, pela União Brasileira de Escritores. O Troféu foi criado pela UBE no final de 1962, por ideia do romancista Marcos Rey, com a finalidade de reconhecer anualmente um escritor que tenha contribuído para o pensamento brasileiro, não só com publicação no ano anterior à entrega do troféu, mas com o conjunto de sua obra. 
O personagem Juca Pato foi criado e desenhado por décadas pelo ilustrador Belmonte – Benedito Carneiro Bastos Barreto – paulista do Brás. Juca Pato viveu nas páginas da Folha da Manhã e representa o protesto do homem comum que não se conforma com as injustiças.  
Dentre os muitos agraciados com o Troféu, podemos citar os seguintes nomes: Caio Prado Júnior, Érico Veríssimo, Jorge Amado, 
Sergio Buarque de Holanda, Carlos Drummond de Andrade, Cora Coralina, Antonio Candido, Lygia Fagundes Telles, e mais recentemente:
Renata Pallottini, Milton Hatoun e Ignácio de Loyola Brandão, vencedor do prêmio no ano passado, que entregará virtualmente o troféu a Ailton Krenak, o premiado de hoje, pela publicação do livro Ideias para adiar o fim do mundo.
Ailton Krenak dedicou a vida aos povos indígenas. Além de contribuir para a criação da União das Nações Indígenas, sua incansável militância educacional e ambiental tem influenciado gerações de brasileiros – dedicação pela qual recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora. 
Krenak marcou a história do Brasil em 1987, quando pintou o próprio rosto com jenipapo, em plena Assembleia Nacional Constituinte, enquanto discursava pelos direitos dos povos originários desta terra. Essa imagem sintetiza uma trajetória pessoal e coletiva de visibilização e reconhecimento das culturas indígenas no Brasil. Enquanto o terno branco que Krenak vestia reconhecia em alguma medida o protocolo da casa, o rosto pintado e as palavras de crítica punham em xeque a mentalidade e o projeto extrativista e religioso que fundou o que chamamos de Brasil – projeto brutal, em curso neste exato instante. 
O sentido profundo da obra, das entrevistas e sobretudo das ações de Krenak é precisamente esse: o de questionar e renovar de maneira radical a inconsciência confortável dos descendentes daquele projeto colonial violento, silenciador e espoliador. Krenak nos ensina que a experiência coletiva dos povos indígenas vê na natureza não um recurso a explorar; para os Krenak, o Rio Doce é Watu, um avô, não um objeto a ser apropriado, mas uma pessoa, parte integrante de uma extensa ancestralidade coletiva.
Ailton Krenak ocupa o lugar de mediador entre esses dois mundos, essas culturas tão diferentes – e tem dedicado a vida a mostrar que a memória de seus ancestrais é muito mais rica do que o acúmulo pessoal de propriedades e recursos naturais e financeiros. 
A UBE se orgulha de entregar a Ailton Krenak o troféu de intelectual do ano de 2020 – ano em que se intensificaram explicitamente as ações brutais daquela mentalidade colonial exploratória; ano em que atingimos de maneira global e definitiva o limite da sociedade do consumo; ano em que ficou evidente que precisamos, mais do que nunca, das ideias de Krenak para adiar o fim do mundo. 

Rogério Duarte
Segretário Geral da UBE

Ricardo Ramos Filho


Boa noite a todos, todas e todes.

É com muita alegria que compareço diante de vocês hoje, ao lado de tantos amigos, para testemunhar, em nome da União Brasileira de Escritores (UBE), a entrega do Prêmio Juca Pato 2020 ao nosso querido Ailton Krenak. A honraria confere-lhe o título de Intelectual do Ano de 2020.

O momento vigente tem sido dos mais tristes de que se tem notícia. Tivemos que aprender uma nova maneira de viver. E o novo é sempre difícil, pouco natural, o ser humano costuma preferir a inércia. Não foi possível, contudo, escapar ao inacreditável. O mundo pandêmico e distópico em que mergulhamos nos aprisionou dentro de casa. Aprendemos a nos cumprimentar de longe encostando cotovelos, guardar distância social, respirar sob máscaras, passamos a nos higienizar com álcool gel obsessivamente. O vírus covídico virou assunto enquanto contabilizávamos óbitos. Lives digitalizaram nosso existir, acostumamo-nos a nos encontrar “dentro” dos computadores. Exatamente como estamos aqui e agora. Longe dos abraços, beijos, apertos de mão, apenas exercendo os afetos possíveis. Celebrando de longe, quando preferiríamos estar mais próximos.

Seria melhor, também, se tivéssemos enfrentado tantos problemas em um cenário político diferente. O negacionismo científico característico do regime inaugurado em janeiro de 2018 certamente não ajudou. Acabamos fragilizados duplamente: pelo Covid-19, pela irresponsabilidade federal. A palavra genocídio vem descrevendo bem o resultado da falta de planejamento em termos de saúde, e a ineficácia das medidas de combate à pandemia no Brasil. Além disso, acentuaram-se, enquanto nos escondíamos amedrontados, outros desrespeitos aos mais básicos direitos humanos. O povo preto passou a ser sistematicamente cassado. Enquanto um certo ministro do supremo, nomeado pelo presidente, decretava que injúria racial não era racismo, a população negra continuou sendo a maior vítima de homicídios no país. Nenhuma preocupação oficial foi registrada, ainda, com o fato de a pandemia ter feito crescer os feminicídios em 22%. A misoginia está incrustrada nas mais altas esferas do planalto central. Educação às traças, homofobia, alimentos sendo vendidos nos supermercados com preços insuportáveis, difícil acreditar em mais dois anos de mandato pela frente.

Por todas as razões aqui enumeradas, evidenciadoras do descaso com os menos favorecidos, é com enorme satisfação que premiamos Ailton Krenak. Ele vem sendo uma das vozes mais fortes na defesa dos direitos dos povos originários. E como não poderia deixar de ser, novamente, a cegueira governamental frente as violências contra a natureza, queimadas, desmatamento, demarcação de terras indígenas, drama dos mais pungentes enfrentado pelos donos da terra, que enxergam melhor do que ninguém a violência contra o meio ambiente, sentindo na pele os efeitos de uma política de extermínio da fauna e flora brasileiras, faz com que a escolha de Krenak aconteça em um dos momentos mais adequados possíveis. Disse ele certa vez:

“Eu acho que teve uma descoberta do Brasil pelos brancos em 1500, e depois uma descoberta do Brasil pelos índios na década de 1970 e 1980. A que está valendo é a última. Os índios descobriram que, apesar de eles serem simbolicamente os donos do Brasil, eles não têm lugar nenhum para viver nesse país. Terão que fazer esse lugar existir dia a dia. Não é uma conquista pronta e feita. Vão ter que fazer isso dia a dia, e fazer isso expressando sua visão de mundo, sua potência como seres humanos, sua pluralidade, sua vontade de ser e viver”.

Ailton Krenak, é ele próprio todo um lugar de fala. Há muito, e principalmente no momento político nevrálgico atual, sua voz vem reverberando como instrumento capaz de trazer racionalidade à maneira de encararmos e planejarmos um futuro possível, com povos indígenas e brancos coexistindo fraternalmente. Voz que precisa mais do que nunca ser ouvida, respeitada, mesmo que saibamos ser difícil ver isso acontecer na atual conjuntura. Mas não custa sonhar. E que o prêmio Juca Pato, tão significativo e merecido no caso, o ajude a ser ouvido. Afinal, o artigo 231 da Constituição, como ela inteira, aliás, precisa ser respeitado. Está lá: 

Art. 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Um viva aos povos originários! Viva Ailton Krenak, intelectual do ano! Parabéns pelo Juca Pato!

Obrigado.

Ricardo Ramos Filho
Presidente da União Brasileira de Escritores (UBE)
Dez. 2020

Ignácio de Loyola Brandão

Carissimo Krenak

Você fala em um de seus livros em abraçar árvores. Saiba que abracei muitas e ainda hoje, quando estou meio para baixo, faço o que meu avô, um marceneiro, me recomendava, abraço uma árvore. A Biblioteca Mário de Andrade de São Paulo deve publicar logo uma antologia de contos. Nela há uma historia minha, real que se chama “A Ultima árvore”. É exatamente as manhãs de minha infância quando eu, cheio de alegria o acompanhava  meu avô ao mato, quando ele ia buscar madeira para seus trabalhos. Com ele descobri tanta coisa, das madeiras às plantas que nos dão chás.

Vamos ao Juca Pato.

Muitas vezes, e esta é uma destas vezes, entregar o Juca Pato nos dá tanta  ou maior alegria quanto a de tê-lo recebido.
Quem te entrega é um ficcionista que trabalha com a fantasia, o imaginário, a o delírio. Sou um visionário, um documentarista do futuro, do Brasil de amanhã, se ele continuar a ser desprezado como hoje pelos seus governantes.

Quem recebe o Juca Pato deste ano é um pensador, um filósofo, um critico  aguçado, um realista. Um homem cujos ancestrais estavam aqui neste terra, postos em sossego e viram e conheceram e sofreram com tudo o que se passou e continuam a passar. A decomposição de culturas e de povos
Ailton Krenak. 

Seu nome, você mesmo nos conta é um composto de KRE, que significa Cabeça. E NAK, que significa Terra. Portanto, Cabeça da terra.  Você mesmo explica  que Krenak  é a herança que recebemos de nossos antepassados, das nossas memórias de origem que nos identificam como Cabeça da terra, como uma humanidade que não consegue se conceber sem esta conexão, sem essa profunda comunhão com a terra.
Sua visão do Brasil – se tudo continuar como está – é a mesma minha. Falamos de governos negacionistas, de brasileiros negacionistas, de caminhar para trás, de um consumismo exacerbado, de uma devastação alucinante, de almas  a vagar sem saber onde estão, da perda do chão debaixo de  nossos pés, de nos equilibrarmos em um fio de aço entre prédios com 500 metros de altura, sem rede embaixo. 

Recentemente li um pensamento seu que se eu tivesse lido nos anos 1970, enquanto escrevia o romance Não Verás País Nenhum, teria usado como epigrafe.
O que não significa que eu não possa usá-lo em edições futuras. Você disse: "Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro".... 

Levo seus livros comigo. Claro, hoje levo de uma sala para outra, de um quarto para a varanda, isolado que estou. Mas quando este país reabrir, levarei A VIDA NÃO É UTIL e IDEIAS PARA O FIM DO MUNDO para ler e comentar e recomendar aos jovens, aos professores e estudantes, às mulheres dos clubes de leitura que proliferam, ao público das feiras e bienais de livros. Este Juca Pato em toda sua existência tem sido entregue a pessoas importantes na história do Brasil e da literatura. Atinge o auge neste momento.

Espero um dia ser Krenak. Tomara um dia todos sejamos krenaks, cabeça da terra.

Sinta-se abraçado Krenak. E saiba que meu avô, carpinteiro, abraçava árvores e me ensinou a fazer o mesmo, para ganhar energia. Talvez por isto ainda estou aqui aos 84 anos para te entregar esta estatueta. 

E na minha próxima volta à minha terra natal, Araraquara, que significa morada do sol na língua tupi-guarani, eu me abaixarei, apanharei terra com as mãos e levarei à boca, como vocês nos ensinou a fazer.

Grande momento da UBE, do Juca Pato, de nossa literatura, do Brasil.

Ignácio de Loyola Brandão

São Paulo, 4 de dezembro de 2020 

Ailton Krenak

Está sendo tudo lindo, querido mestre Ignácio de Loyola Brandão. Ao querido Ricardo Ramos Filho, que conduziu, de certa maneira, essa maravilhosa história de me convocar a essa constelação de seres admiráveis que foram citados, os seus nomes, que me antecederam nessa honraria de se incluir entre os que receberam o Troféu Juca Pato. Eu fico em estado de graça com a possibilidade de integrar uma constelação de seres, de pessoas, de seres humanos que fizeram sentido no meio dessa nossa sociedade brasileira com suas vozes, e me acrescentam uma alegria enorme as palavras que o mestre Ignácio Loyola traz quando ele fala do aprendizado com o seu pai, de ir buscar as árvores na mata e reconhecer aqueles seres como merecedores, óbvio, de abraço e de reconhecimentos. Essa extensão desse lugar de seres humanos aos outros seres, a todos os outros seres que coabitam a vida junto conosco é uma dádiva maravilhosa, e tomara que mais pessoas, muito mais pessoas, possam ter essas memórias, aprendidas com seus pais, com seus avós, aprendidas de casa. Isso reafirma uma orientação, que sempre me guiou, que tudo o que nós podemos aprender, na verdade, está contido nesse ínfimo ambiente da nossa convivência com nossos pais, com nossos avós, com nossos tios, com essa constelação de pessoas que formam as nossas famílias. E, quando nós temos a possibilidade de viver décadas junto com essas pessoas que são os nossos formadores, que se constitui nisso que é a corrente dos nossos ancestrais, isso dá um sentido transcendente à vida, ao cotidiano e à nossa experiência de interação com outras pessoas. Porque sempre uma outra pessoa será, em um sentido radical, de alteridade, de identidade e que nos exige o respeito que nos move a abraçar uma árvore. Você não pode mentir para uma árvore. Quem já comungou com uma árvore sabe que não tem mentira com uma árvore. Então, não é possível abraçar de fingimento: você não pode abraçar uma árvore como se estivesse fazendo uma negociata.

Nós temos assistido a um tempo em que os abraços poderiam ser chamados todos de abraço de tamanduá. Quem já observou percebe que um abraço de tamanduá costuma, se não matar o sujeito, aleijar. Então, evitem abraços de tamanduá. Nós andamos ressentidos: desse tempo de confinamento, dessa espécie de apartheid, que nós nos impomos para não nos expor ao contágio de uma enfermidade, que, eufemisticamente, chamamos de pandemia.

É muito interessante chamarem de pandemia uma doença, uma enfermidade, porque isso pode ser uma maneira de você sublimar a tragédia que nós estamos metidos nela e dar a impressão de que nós estamos numa espécie, assim, de guerra nas estrelas. A gente pode transformar um fato real numa simbologia, numa coisa fictícia, e é isso que tem feito milhares de pessoas irem para a praia, achando que basta tomar uma decisão pessoal e ir tomar cerveja no Leblon, ou lotar uma praia, seja no Nordeste, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, onde a mortandade volta, os hospitais se entopem, mas o negacionismo vence. Então, nesse convívio hipócrita de abraços de tamanduá, é melhor que a gente evite até o cumprimento de cotovelo, porque isso pode nos botar naquela condição, que era muito cantada pelo Tom Jobim, pelo Vinícius de Moraes, que são aquelas pessoas que vivem com dor de cotovelo, vivem com dor de cotovelo, talvez porque não conseguem, de verdade, abraçar uma árvore, que exige um movimento de se desfazer dessa hipocrisia de se fazer o cumprimeito de cotovelo. Eu observei que as pessoas estão aderindo a isso, como se nós fôssemos, assim, espartanos ou qualquer coisa desse tipo. Por que não nos cumprimentamos, então, da maneira que alguém faz lá no Himalaia? – o meu ser cumprimenta o seu ser, a alma que está em mim cumprimenta a que está em você. Aí, não: a gente vai encontrando os outros na rua e batendo os cotovelos; quer dizer, nós somos uma sociedade muito... Com uma vocação para a violência. Esse jeito é um jeito violento. Por mais simpático que seja, eu não quero que ninguém me cumprimente com o cotovelo. Aliás, existe a expressão “deu uma cotovelada”. Ora, cotovelar-se, acotovelar-se, deu cotoveladas; quer dizer: nós estamos vivendo numa comunidade de cotovelos. É degradante, mas é coerente com o tipo de experiência que nós temos evoluído, né, na última década, que é uma espécie, assim, de irritação social. Antes da evitação social, que a Organização Mundial da Saúde nos propõe ou nos impõe, existe uma outra, que é uma irritação social. Essa irritação social, ela vem se... [interrupção].

Desculpem, a fonte de energia caiu e eu tive que retomar essa fonte de energia. Eu estava concluindo uma frase que dizia que nós estávamos vivendo uma evitação social e uma irritação social. E nós passamos por esses últimos seis, oito anos da nossa vida social [inaudível], não nos evitando, mas nos atacando. Passamos por uma fase extremamente irritada das nossas relações, onde fazer política, que deveria ser uma arte de convivência, se tornou uma arte da violência, violência verbal e física. Eu nunca imaginei que fosse assistir nas ruas do nosso Brasil, no século XXI, as pessoas espancando umas às outras, porque usavam uma camisa vermelha. Eu vi um rapaz encantonado numa rua, em São Paulo, ameaçado, e alguém gritando contra ele: “Vai embora para Cuba”. Isso foi há cerca de cinco, talvez seis anos. Na verdade, foi em 2013, 2014, 16, 17, 18, 19, 20, quando a irritação chegou ao ponto de nós termos o Congresso ameaçado e o STF cercado por homens armados, ameaçando jogar bomba numa instituição como o nosso Judiciário. Nós assistimos os brasileiros revelando a sua face mais fascista, mais violenta, nos pondo em igualdade com qualquer outra comunidade humana em relação à qual a gente tinha algum preconceito, que a gente dizia: “Afinal, nós somos brasileiros. E, como a gente foi feito naquela mágica de juntar índios, negros e brancos, nós somos de natureza cordial”. Nós somos, na verdade, homens e mulheres cordiais e, nessa cordialidade, nós fomos nos embalando de uma maneira tão falsa, que acreditamos sinceramente que a gente podia ser melhor do que qualquer outro povo na face da Terra, além de uma síndrome de fazer coisas grandes. Eu era jovem quando construíram aquela ponte Rio-Niterói e era fantástico, porque era a maior ponte do mundo. E depois, quando nós fomos engolfados pela ideia de ocupar a Amazônia, a Transamazônica também era o maior empreendimento em floresta tropical do mundo. Então, a gente adora fazer as maiores coisas do mundo, e estamos vivendo agora uma experiência de ser igualado aos maiores ridículos do mundo. Nós estamos metidos numa encrenca onde a gente não consegue produzir socialmente, sujeitos capazes de interpretar o tempo histórico que nós estamos vivendo e representar de maneira honesta, modesta, o interesse popular. Nós temos um monte de gente espertalhona, que tomou a política de assalto, literalmente, como se assalta um banco ou qualquer outro tesouro, e nós estamos passando por um período daqueles em que o Thiago de Mello, que nós podemos lembrar aqui, com carinho, do nosso Thiago de Mello dizendo: “Faz escuro, mas eu canto”. E esse “faz escuro, mas eu canto”, ele pode ser percebido, não como uma constatação triste, negativa, onde o escuro prevalece e o canto fica ali escondido nas beiradas. Não! Esse “faz escuro, mas eu canto” é um canto que tem o timbre das canções de Milton Nascimento, que tem aquele timbre do Bituca, quando ele se faz pássaro e põe todo mundo que está ouvindo num estado de meditação ou então de uma dança, uma dança que não é só do corpo, que implica uma dança também do espírito, talvez uma dança daquelas que são feitas nos terreiros, quando os índios dançam toré, porque eles estão fazendo gira, estão dançando o corpo e o espírito. Essa unidade corpo e espírito, essa pluralidade de mundos, que nós podemos nos afetar, eles precisam estar presente no nosso cotidiano, precisam iluminar o nosso cotidiano para que, mesmo quando estiver fazendo escuro, a gente seja capaz de cantar. Cantar um canto, não de alento, um canto de promessas mal resolvidas, mas cantar a expressão da vida, que bate, a vida bate, e não tem jeito de acabar com ela, mesmo que nos ofendam, mesmo que façam genocídios, mesmo que insistam na negação da verdade, dos direitos, os direitos e a verdade, eles vão prevalecer como expressão de vida, não como norma jurídica, não como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas como uma potência, que é a própria expressão da vida. 

Eu aprendi com meus avós, com meu pai, com toda essa constelação que nós chamamos de nossos antepassados, os nossos ancestrais, que a vida é um dom tão maravilhoso, que a gente tem razão de cantar e celebrar ela todo dia, todo dia, mesmo que a gente tenha sofrido uma ofensa, daquelas assim… inominável: a gente canta, porque o dia é a extensão dessa experiência objetiva de estar vivo, é quando a gente sabe que está vivo, e essa experiência de estar vivo, afetada por outros seres, por outros sentidos, é maravilhoso! Compartilhar com vocês esse mosaico de retratinhos que aparece aqui na minha frente, que dá vontade de abraçar, de verdade, não com o cotovelo, mas abraçar de coração essa constelação de seres das mais variadas idades. Que maravilha, 84 anos do meu mestre que me honra com a transmissão desse rito, nesse rito, me honra muito e eu vejo que tem alguns anciãos que estão nesse gradiente. No costume de muitas das nossas famílias tribais, a idade não é contada cronologicamente; nós somos contados por geração, faixas de idade. Então, todos os meninos de quatro a sete anos de idade – é a mesma geração. Todos os meninos de sete até onze anos de idade – é a mesma geração. Esses grupos de idade, eles participam de ritos juntos. Então, acho que é para juntar muitos meninos, meninas, que estão com quatro anos, seis anos, para poder fazer um ritual de passagem, uma iniciação. Pra mim, essa experiência que estou compartilhando com vocês é um rito de passagem. Eu estou passando daquela condição de contador de histórias, que me deixa à vontade, porque eu me sinto um narrador, um contador de histórias, e fico muito honrado quando se referem a mim dessa maneira, então, gratíssimo, Ricardo Ramos, por me referir como um desses contadores de história. Eu creio que foi também o Ricardo que se referiu a essa minha vinculação a uma tradição de narradores e que é a fonte desses livrinhos que ganharam junto, que circulam por aí, e me honra muito compartilhar com vocês a experiência de habitar essa constelação de escritores.

Eu disse outro dia pro meu amigo Afonso Borges que eu achava muito interessante que me considerassem um escritor, já que todos os livros que publiquei até agora são falados. São livros falados e eu acredito que existe literatura em muitos termos. Uma delas é feita a partir da escrita, ou através da escrita, passando pelo processo da escrita, de um conhecimento da língua, da gramática e de uma disposição pra tecer formas em que a escrita predomina e faz um jogo com aquilo que ela informa, que ela conta. Esse código da escrita conta coisas que os humanos gostam de compartilhar, né? Mas existe uma literatura, e eu acredito que se pode considerar que existe uma escrita, que não é propriamente gráfica, que não é essa experiência que nós entramos em contato com ela na folha impressa, no livro, naquilo que está impresso. É uma escrita da vida, é uma escrita da vida, em que pessoas, seres humanos, inscrevem, ao longo de sua passagem por uma comunidade, por um país, por um lugar do mundo, uma história. Então, é uma escrita da vida. Ela não precisa estar escrita propriamente num papel, nem disposta numa biblioteca; ela é a vida. Agora, recentemente, com a experiência do contágio, muitos anciãos morreram do meio do nosso povo, e nós temos relembrado com frequência do nosso querido chefe Oritana, Yawalapiti, de lá do Xingu, um mestre de cerimônias do quarup, dos cantos tradicionais, um grande narrador, que foi levado pela covid. O quarup dele, o ritual dele, ainda será feito. Nesse tempo de isolamento talvez, pela primeira vez, nós vamos ter que assistir à despedida de alguns dos nossos anciãos, sem fazer os ritos que são necessários e que imprimem sentido à experiência de sair dessa convivência com todo mundo, nesse corpo que o Davi Kopenawa Yanomami chama de envelope, sair desse envelope, e encantar-se, tornar-se um ser encantado. Talvez a gente tenha que se despedir de alguns dos nossos velhos das aldeias sem poder fazer os cantos, as danças, e é muito importante lembrar que nós cantamos e dançamos em vida e cantamos e dançamos para despedir da vida. Nós saudamos a vida com a mesma integridade e com a mesma... Com o entusiasmo que nós saudamos a passagem da vida. Então, vida e morte, para a maioria dos nossos parentes e para essas cosmovisões de gente que se implica com outros seres que não são também humanos, mas que se implica com o entendimento de que a vida está em tudo, está nas árvores, está nos rios, está nas montanhas, eles nos acessam uma experiência de passar pela vida como um transe, e nós nos despedimos dessa experiência cantando e dançando. Essa experiência ser compartilhada pelo maior número de pessoas num tempo em que nós vivemos o negacionismo, num tempo em que nós vivemos a ignorância sobre a ciência, o negacionismo acerca das evidências de tudo, ela pode nos animar a pensar outros mundos, não adiar, no sentido em que se adiam compromissos, mas estender a nossa subjetividade, a nossa capacidade de sonhar e criar mesmo múltiplos mundos, muitos mundos, não apenas um mundo substituto. Definitivamente, nós não estamos imaginando mundos para substituir esse, como se a gente tivesse ido a uma loja trocar um aparelho estragado por um novo. A fúria consumista pode sugerir que, quando a gente pensa em adiar o fim do mundo, nós estamos querendo ir ali no shopping trocar por outro. Seria um desastre e uma tristeza sair dessa suspensão em que estamos vivendo temporariamente, para correr para comprar um mundo novo. Eu não tenho nenhum interesse num mundo novo. Eu tenho interesse em muitos mundos, mundos plurais, onde a ideia de estar vivo não implica exatamente nenhuma mercadoria, não implica nem mesmo uma contagem programática do tempo, em que a gente decide que estamos vivendo no século XXI, quando, na verdade, alguns de nós desconfiam que a gente pode estar andando pela Idade Média.

Todas as obras que constituíram as biografias daqueles que me antecederam na situação de receber o Troféu Juca Pato são luminosas, e eu fico muito honrado e me sinto modestamente à vontade no meio de vocês, porque eu sei que são pessoas que também abraçam árvores, e isso me faz me sentir em casa. Gratidão por esse gesto tão bem-vindo de reconhecer que também (serão um dia) todos cabeça de terra; além de abraçar árvore, rolar na terra, abraçar a terra, fazer como nossos parentes guarani, do Mato Grosso do Sul, que, diante de uma discussão se eles eram daquela terra, eles simplesmente estendiam a mão, pegavam um punhado de terra do chão, botavam na boca e comiam como farinha. Com um sentimento de tanta familiaridade, de pôr terra na boca, e saber que aquela terra é vida – não essa terra calcinada pela hipocrisia e pela fantasia proprietária, né?, essa coisa fundiária. Nós estamos falando da Pachamama, da terra mãe, de Gaia, de um outro ser, de um organismo vivo que nos faz ser vivo, porque nós somos célula, nós somos célula desse organismo maravilhoso. E é uma constatação tão maravilhosa, porque, se você entende que você é célula desse organismo maravilhoso, significa que você já alcançou, em algum termo, a eternidade. A teoria da evolução sugere que nós somos um mix de tudo o que já existiu. Se nós somos um mix de tudo o que já existiu, isso é maravilhoso, porque a gente vai continuar existindo sempre, na forma de uma lagarta, da borboleta, duma árvore, dum papagaio. Quem sabe eu venha papagaio de novo na próxima encarnação?

Obrigado, queridos!

Ailton Krenak
Dez 2020

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