Homenagem ao Professor Alfredo Bosi

A União Brasileira de Escritores lamenta profundamente o falecimento do professor Alfredo Bosi, um dos maiores críticos literários do Brasil. Suas aulas e suas obras formaram muitas gerações de professores e pesquisadores, sendo referências incontornáveis para a interpretação não só da nossa literatura, cultura e história, mas do Brasil enquanto país e nação, com suas ideologias e contraideologias.

Esta voz não se calará, e permitimo-nos citar o próprio Alfredo Bosi em seu discurso ao receber o título de Professor Emérito da USP:

Veio o golpe, veio a ditadura com seus atos institucionais, vieram as cassações de alguns de nossos colegas mais ilustres e ativos. Os que ficaram resistiram como puderam na semiclandestinidade das salas de aula, dos renovados estudos sobre a sociedade brasileira, das primeiras comunidades de base formadas no fim dos anos 60, e cuja lembrança me transporta para reuniões em Vila Yolanda, Osasco, com a presença de um padre-operário, Domingos Barbé, figura luminosa que desejo agora evocar com veneração. Lendo “Vidas Secas” com jovens daquela comunidade, percebi que estava conversando com os filhos de Fabiano e Sinha Vitória... E falando de quase clandestinidade, não é possível esquecer os encontros da Comissão Justiça e Paz criada por D. Paulo Evaristo em 72, no auge da repressão; ou o risco das passeatas de protesto, ou, muito mais temerariamente, para usar da expressão forte de Jacob Gorender, o combate nas trevas daqueles que optaram pela resistência armada. Mas esta já é uma rememoração coletiva, que transcende a cada um de nós, e se chama História. E não há negacionismo obtuso ou truculento que consiga apagá-la. Estamos ainda vivos para dar nosso testemunho.

Alfredo Bosi viveu a sua vida sob a égide da esperança por um mundo sem opressão. No mesmo discurso, aludiu à giesta, flor que brota nas lavas do Vesúvio – apesar das lavas. E assim o encerrou:

Machado não encontrou, como Pascal, que ele tanto admirava, o caminho da esperança transcendente, nem, como Leopardi, a flor da giesta rebrotando no deserto. Quanto a mim, descendo verticalmente de tamanhas alturas, confesso que fiz a aposta na crença de Pascal, e também que pedi a Ecléa que plantasse um pé de giesta em nosso jardim. A giesta ainda está lá, florindo e, espero em Deus, que por muito muito tempo.

Obrigado, Professor.

São Paulo, 07 de abril de 2021

Ricardo Ramos Filho
Presidente da UBE
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